Onde estás tu
está o desejo…
Peixe do mar
sobrevivendo neste rio
de margens ocultas,
entre as tuas mãos…
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PANDEMIA V
O dia ergue-se inseguro.
Num rasgo de silêncio,
sobre os nossos ombros,
a lentidão das palavras
que nos podem resgatar.
Desgastados e exaustos,
ainda permanecemos.
Com força cerramos os dentes
e se necessário os ossos.
Percorrendo os espectros
que nos cercam a pele,
reaprendemos a respirar
caindo em novas passagens.
Enquanto que a rua arde
perdem-se os nomes,
não havendo outra rota
para novos presságios.
A cidade será mais forte
quando nos amarmos
e estivermos na mão
uns dos outros.
Ninguém está distante
e todos estamos perto.
Acordados e solidários
voltamos a casa.
maio 2020
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8.
Já vivi tantos poentes,
como quantos dedos sujei,
ao cavar na terra →
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7.
Quando , no Verão,
os ramos do meu olhar
vingarem
nos baldios
dos teus olhos,
amanhecerás
no chão
das minhas mãos.
in “Tanto ar”, Propagare, Porto 2009, página 21
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6.
Quando, na Primavera,
O teu rosto se cobre
de flores
os teus olhos
são as primeiras
a abrir.
in “Tanto ar”, Propagare, Porto 2009, página 20
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5.
No Inverno,
nas noites de chuva,
as casas crescem
de cima para baixo
nos olhos
dos sem abrigo.
in “Tanto ar”, Propagare, Porto 2009, página 36
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4.
Quando, no Inverno,
ao anoitecer, toda a terra
do mundo
se cola aos teus olhos,
a sombra
do Jacarandá do Viriato*
protege-te do frio.
* Árvore do Largo do Viriato na cidade do Porto
in “Tanto ar”, Propagare, Porto 2009, página 23
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3.
Entre o céu azul
e o céu da tua boca,
vai a distância de um beijo
in “Tanto ar”, Propagare, Porto 2009, página 18
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2.
No Outono, os rios
são mais iguais a nós,
perdem a doçura do corpo,
ao aproximarem-se da foz
in “Tanto ar”, Propagare, Porto 2009, página 16
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1.
Quando, no Outono,
Os rios se preparam
Para cobrir
As margens do teu corpo,
Os teus olhos aprendem
A escoar as suas águas.
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CÉSAR Augusto Romão nasceu no Porto e aqui continua a viver. Diz que a sua cidade tem mar, uns dias é branca, outros azul, ou todas as cores que os seus olhos querem, mas onde nenhum barco navega. Conta ainda que mora um rio à sua porta. Nos dias de verão, quando por ele passa, molha-lhe os pés. À noite, refresca-lhe os sonhos… É permeável a tudo o que o rodeia com a certeza que sempre que entra na sua rua é como se fosse a primeira vez. Como se fosse um labirintho de emoções, acrescentamos nós.


















