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Belíssima por Eduardo Lizalde

Belíssima por Eduardo Lizalde

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E se um desses anjos
me apertasse subitamente contra o seu coração
eu sucumbiria afogado pela sua existência
mais poderosa.
Rilke, de novo

Oiça-me, belíssima,
não suporto o seu amor.
Veja-me, observe de que modo
o seu amor prejudica e destrói.
Ainda se fosse um pouco menos bela,
se tivesse um defeito em algum sítio,
um dedo mutilado e evidente,
uma certa rispidez na voz,
uma pequena cicatriz junto desses lábios
de fruta em movimento,
um defeito na alma,
uma má pincelada imperceptível
no sorriso…
eu poderia tolerá-la.

Mas a sua beleza cruel é implacável,
belíssima;
não há uma folha de repouso
para a sua dolorosa luz
de estrela em fuga permanente
e dá desespero perceber
que até a mutilação a tornaria mais bela,
como a certas estátuas.

in Fumar às janelas do crâneo, Poesia mexicana do Século XX, Língua Morta e Maldoror, outubro 2025, organização, seleção e tradução de Luís Filipe Parrado e Ricardo Castro Ferreira, página 125

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