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Nunca Madame Bovary foi tão bela por Gustave Flaubert

Nunca Madame Bovary foi tão bela por Gustave Flaubert

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Nunca Madame Bovary foi tão bela como nessa época; tinha essa beleza indefinível que resulta da alegria, do entusiasmo, do êxito, e que mais não é do que a harmonia do temperamento com as circunstâncias. Os seus apetites, os seus pesares, a experiência do prazer e as suas ilusões ainda intactas, como fazem com as flores o esterco, a chuva, os ventos e o sol, tinham-na desenvolvido por gradações, e ela desabrochava finalmente na plenitude da sua natureza. As suas pálpebras pareciam expressamente talhadas para os seus longos olhares amorosos onde a pupila se perdia, enquanto uma respiração forte afastava as narinas finas e repuxava a comissura carnuda dos lábios, sombreados à luz por uma ligeira penugem preta. Dir-se-ia que um artista hábil em sedução lhe tinha disposto sobre a nuca a trança do cabelo. Este enrolava-se numa massa pesada, negligente, ao sabor dos acasos do adultério, que o soltava todos os dias. A sua voz agora tomava inflexões mais lânguidas, e a cintura também; qualquer coisa de subtil que se insinuava nos outros saltava-se até dos adereços do vestido e da curvatura do pé. Charles, como nos primeiros tempos do casamento, achava-a deliciosa e de todo irresistível.

in Madame Bovary, Livraria Civilização Editora, 1999, tradução de Daniel Augusto Gonçalves, página 215

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