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Sete perguntas a Onofre Varela

Sete perguntas a Onofre Varela

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ONOFRE Varela assume-se como um produto do seu tempo e dos lugares que frequentou. Partindo do Porto, passou por S. Mamede Infesta, Tabuaço, Angola e Lisboa. No regresso estabeleceu-se em Baguim do Monte, Rio Tinto, Gondomar. Ainda teve tempo para umas incursões até Paris e Madrid. Cedo sentiu um profundo fascínio pelas maravilhas da natureza, tão profundo que não admitiu intermediário entre ambos. Dedica-se a contar histórias através de palavras, de desenhos ou misturando ambos. Os seus trabalhos podem ser apreciados, de preferência, enquanto tomamos um cimbalino curto.

Por Paulo Moreira Lopes

1 – Data de nascimento e naturalidade (freguesia e concelho)?

12 de Setembro de 1944, Miragaia, Porto.

2 – Atual residência (freguesia e concelho)?

Baguim do Monte, Rio Tinto, Gondomar.

3 – Escolas/Universidade que frequentou no distrito do Porto?

Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, até ao 3º ano (incompleto) do curso de Pintura, e Cooperativa Árvore onde tive lições de Desenho de Figura com modelo nu, sob a orientação do Mestre Pintor Sá Nogueira.

4 – Habilitações literárias?

12.º ano, feito no projecto escolar Novas Oportunidades, em 2011, com 68 anos de idade.

Foi para isso que o programa Novas Oportunidades foi idealizado, para dar crédito legal ao saber autodidáctico adquirido pela experiência. Porque, como está bom de ver, o que eu sou, e sei, hoje, não foi conseguido em escolas académicas frequentadas na juventude, mas sim militando numa vida de trabalho, lendo e procurando formação no meu sector de actividade.

O actual governo tecnocrático, frio e desumano, típico de uma Direita asselvajada, destruiu-o, porque entende que um cérebro activo e interessado, acrescentado de uma vida de trabalho rica em experiências… nada vale!… Mas valoriza cursos-fantasma, ao estilo dos conseguidos em tempo record, e em idade sem maturação, por Miguel Relvas.

5 – Atividade profissional?

Jornalista / Cartunista.

6 – Em que medida o local onde viveu ou vive influenciou ou influencia o seu trabalho por referência a fenómenos geográficos (paisagem, rios, montanha, cidade), culturais (linguagem, sotaque, festividades, religião, história) e económicos (meio rural, industrial ou serviços)?

Parece-me que a resposta mais certa será:

Tudo, e em toda a medida.

E isto porque, tal como disse o filósofo espanhol José Ortega Y Gasset, o Homem é o Homem e as suas circunstâncias.

Nenhum produtor de Arte e de Literatura está livre das contingências do meio social a que pertence, dos tempos em que viveu, cresceu e se fez, nem dos acontecimentos locais e nacionais que antecederam o seu nascimento.

No meu caso, que nasci em 1944, sofri a circunstância da Segunda Guerra Mundial, que terminou em 1945.

O condicionamento que o conflito provocou na vida da minha família teve, forçosamente, as suas repercussões na criança que fui e, consequentemente, na moldagem do adulto que sou.

Depois, há a ruralidade dos arredores do Porto (S. Mamede de Infesta) onde vivi a primeira meninice, seguida de um ano passado em Tabuaço (Viseu), vila duriense onde fiz a 2ª classe da Instrução Primária e iniciei a 3ª.

Esse ano foi um tempo de descobertas que me ensinaram a amar e a respeitar a Natureza, as árvores, as flores do campo, mas também as pessoas mais velhas, autoridades de pele encarquilhada, rosto sofrido e mãos calejadas.

Tudo isso se enraizou bem fundo em mim, e me ensinou que não pode haver amor sem respeito pela pessoa (ou ser, ou coisa) que se ama.

A minha primeira adoração sentida por um pinheiro alto, esguio, quedo e mudo, que todas as manhãs se mostrava enigmático em frente da janela de minha casa, quando eu contava cinco e seis anos, vi repetir-se quando, aos 20 anos, incorporado no Exército e enviado para uma guerra nefanda e fratricida, me encontrei frente a um imbondeiro nas matas do norte de Angola. A mesma religiosidade que sente um crente perante um altar de uma catedral, senti-a eu (que acabei por ser ateu) diante daquela árvore de porte gigantesco e desajeitada… mas tão profundamente bela!… Bela e enigmática, como é toda a beleza, a pedir um silêncio absoluto, quase religioso, a quem se aproxima dela.

Mais tarde veio a inevitabilidade da influência das grandes cidades: Porto e Lisboa. Com idas frequentes a Madrid e a Paris contactando com autores e editores de desenho de humor e de banda desenhada.

No Porto, gráficas; em Lisboa, agências de publicidade. O confronto com ideias, conceitos e imagens para promover produtos e serviços.

Da ruralidade inocente e pura, para a economia sofisticada desrespeitadora do outro que só interessa enquanto consumidor. A perplexidade perante mensagens publicitárias desumanas mas eficazes (?!), como aquela, criada não sei por quem, que para vender um determinado modelo de uma marca de automóveis, afirmava: Na vida há prioridades. Primeiro, eu, e depois, eu (!?), valorizando o sentimento mais baixo e animalesco de todos nós.

Mas também (e principalmente) a filosofia positiva e ética, como a lição que me deu o meu chefe de ateliê criativo, Manuel Pilo da Silva, na Agência de Publicidade Sistema, em Lisboa, no ano de 1976: Fui incumbido de criar uma imagem para um cartaz da Prevenção Rodoviária Portuguesa, com o fim de alertar os automobilistas para a proximidade de uma escola. Criei uma imagem trabalhada com preto, branco e uma gama de cinzentos, representando uma criança a atravessar uma passadeira. A única nota de cor era aquilo que seria a cabeça da criança, que representei por um sinal de Stop. O Pilo da Silva, de imediato, reprovou a ideia pelo “simples” facto de, ao ter substituído a cabeça de uma pessoa por um objecto, por uma coisa, ter “coisificado” um ser humano. E os seres humanos não são coisificáveis… têm de ser respeitados na sua dignidade!

Retive a lição para sempre.

Tudo isto sem esquecer o cheiro das tintas tipográficas e do ambiente das litografias, nem o ruído buliçoso das redacções dos jornais.

Esta amalgama faz parte dos ingredientes sociais, e dos sentidos, que fez o adulto “cota” que sou. Recuso ler jornais digitais. Desloco-me aos quiosques para comprar e saborear jornais, sentindo-os pelo tacto e pelo cheiro.

Pelo meio ficam as minhas fugas para a Ribeira do Porto, aos 16 anos, para subir os Guindais, olhar o rio e as muralhas, e ver as mulheres sujas de pó preto, de cesta à cabeça, a descarregarem briquetes da mina do Pejão, dos barcos carvoeiros para as camionetas estacionadas no Postigo do Carvão.

Todas estas experiências, e tantas outras que não cabem aqui, fazem a sensibilidade deste septuagenário que tantas vezes deixa as lágrimas inundarem-lhe os olhos, perante coisas simples e belas que fazem a vida de todos os dias…

7 – Endereço na web/blogosfera para o podermos seguir?

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