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Isabel de Sá (1951)

Isabel de Sá (1951)

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NÃO SE PASSA NADA

Nada de cinismo
a vida é boa
ainda não há guerra
nem peste nem fome.

Ninguém cospe no teu rosto.

O fruto cai da árvore
a fêmea é fértil
o macho vigoroso
as crias alegram o prado
e o sol brilha brilha.

A ciência não pára
de nos surpreender
e dar conforto:
nascer crescer ser velho
e falecer. Moléculas
átomos e neutrões
amparam-nos na queda
dizem-nos o que é o amor.

O amor também é feito
de vermes e bactérias.
A sua chama
transforma os nossos corpos
na mais bela cinza. 

6.
Ia em longas tardes visitá-la

em quarto íntimo onde ciprestes cresciam. A mão pálida tomando-me o rosto lúcido, o corpo muito frágil.

Publicado in Restos de infantas, edição Ulmeiro, março de 1984, página 33.

5.
Sentavam-se junto às videiras, ventre de água
mão branca apertando sementes, pequenos poços cintilantes.

Estranhas figuras passavam, vários ímpetos
em direcção aos quintais fermentados de vermes.

Publicado in Restos de infantas, edição Ulmeiro, março de 1984, página 25.

4.
Quanta alegria só de contemplá-la no pátio junto às zínias: olhar
claro, chuva rompendo oiro em seus cabelos, veludo tão branco a
face.

Publicado in Restos de infantas, edição Ulmeiro, março de 1984, página 34.

3.
Chegou a hora de minha alma não ser ela,
chegou o tempo de meu corpo não ter corpo
e em silêncio ser de luz, poeira.

Publicado in Restos de infantas, edição Ulmeiro, março de 1984, página 28.

2.
Por causa de um livro
vieste ao meu encontro. 

1.
Imagens de seres humanos…
boiam nos rios como bonecos
de plástico. É a Vergonha
a toda a hora na televisão. 

Isabel de Sá nasceu em Esmoriz, em 1951. É licenciada em Artes Plásticas/Pintura, pela Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. A sua carreira na pintura é marcada por dezenas de exposições individuais, pela participação em colectivas, e pelos Prémios Nadir Afonso, na Bienal de Chaves e Banco de Fomento, ambos em 1983. Na poesia tem uma vasta obra publicada e reunida num único volume REPETIR O POEMA, edições Quasi, 2005. Está representada na 16.ª edição da História da literatura portuguesa de António José Saraiva e Óscar Lopes, no Dicionário de Literatura Portuguesa, 1.ª edição de Álvaro Manuel Machado e no vol. 7 sobre correntes contemporâneas da História da literatura portuguesa de Óscar Lopes e Maria de Fátima Marinho.

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