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Eduardo Guerra Carneiro

Eduardo Guerra Carneiro

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OS PÉS

Na erva   na areia   mesmo na madeira do quarto
os pés são quase o início
Empenho-me em mostrar folhas e folhas
claríssimas mulheres descalças caminhando
levemente emocionadas de serem mulheres
com o peso do seu mágico transbordar
de óvulos   casas volantes   emigrações em massa
Ela a mulher   a nossa companheira
vem com os pés plenos de chuva
interior chuva cansada   e chove o medo
de se perder este adorável corpo

Assim fico parado quando olho
os pés da mulher amada
Pés que nos recolhem   também acariciam
apoiam-se em nós   caminham   fogem
correm pelo tempo por vezes são violinos
há neles um som de Primavera descalça

*

O PÓ NOS PASSEIOS

O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz é mais nítida.
Os corpos se mostram. Em algumas
praias residem dialectos. Turismo
nos marca com ferro diferente
em costumes e fala. Nas ruas se vende
o jornal da estranja. O burro
ainda merca. Alfarroba em bolsa.
O pó nos passeios com vagar
se ergue. A luz ainda é nítida.
Só de certo modo. Só em certas terras.
Turismo na farda. No bolso o desdém.

Eduardo Guerra Carneiro (Chaves, 1942 – Lisboa, 2004) foi um poeta, cronista, tradutor e jornalista português. Frequentou as Faculdades de Letras do Porto e de Lisboa, sem concluir a licenciatura, e iniciou muito cedo a sua atividade literária, ligado ao movimento cultural Setentrião, em Vila Real. Estreou-se na poesia com O Perfil da Estátua (1962), seguindo-se livros como Isto Anda Tudo Ligado (1970), É Assim que se Faz a História (1973), Dama de Copas (1981), Contra a Corrente (1988), Profissão de Fé (1990), Lixo (1993) e A Noiva das Astúrias (2001).

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