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Agrafador por Ron Padgett

Agrafador por Ron Padgett

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Quando a minha mãe morreu
deixou pouca coisa: roupas velhas,
mobiliário modesto, pratos, uns
trocos, e pouca coisa mais do que isto.
Excepto o agrafador. Encontrei-o
numa gaveta atafulhada de contas
e extractos bancários. Imediatamente
reparei como perfurava facilmente
pilhas de papel, não deixando qualquer marca na mão.
Funcionava tão bem que o trouxe para casa,
juntamente com uma caixa de agrafos, dos quais
faltavam poucos de entre os 5000
que originalmente trazia. O truque é lembrarmo-nos
como se carrega – de cada vez
demora-se alguns minutos
a descobrir, mas eu persisto até
Oh, é assim! Algures em tudo isto
a minha mãe está espalhada e flutua
como uma neblina tão fina que não pode ser vista
uma ideia de flutuação, o oposto do agrafador.

Ron Padgett, in Poemas escolhidos, Assírio & Alvim, 2018, página 193, tradução de Rosalina Marshall

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