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Luís Archer (1928-2011)

Luís Archer (1928-2011)

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O PADRE Luís Archer morreu neste sábado no Hospital Santa Maria por volta das 12h, depois de se sentir mal pela manhã. O jesuíta tinha 85 anos e foi o pioneiro da investigação e estudo da genética molecular em Portugal. No domingo, às 15h, vai realizar-se a missa na Igreja do Colégio de S. João de Brito. O corpo vai ser depois levado para o cemitério dos Olivais, onde vai ser cremado, por vontade do padre.

Luís Archer era natural do Porto, mas viveu grande parte da vida em Lisboa. O biólogo nasceu a 5 de Maio de 1928, e aos 21 anos entrou para a Companhia de Jesus.

Entre 1943 e 1960 completou as licenciaturas em ciência biológicas, filosofia e depois teologia. Apesar de ter terminado o curso em biologia com uma média de 18, Luís Archer queria dedicar-se às humanidades. Mas foi o seu superior, o padre Lúcio Craveiro da Silva, que pediu para prosseguir na biologia, já que tinha um currículo nessa disciplina e havia poucos jesuítas especialistas em ciências.

Archer escolheu então a genética molecular, uma área que na década de 1960 era o futuro. “Fui para os Estados Unidos, tive muita dificuldade no princípio. Tinham passado 15 anos após a minha licenciatura. O que eu não tinha esquecido já não era igual. Mas pensei: tem que ser a sério e tem que ser uma matéria que sirva o país”, explicou numa entrevista ao PÚBLICO dada em 2006.

Terminou o doutoramento nos Estados Unidos e voltou para Portugal, onde teve que repetir o doutoramento, na Faculdade de Ciências do Porto, já que na altura não havia equivalências.

Em 1971 inicia os trabalhos científicos no Laboratório de Genética Molecular no Instituto Gulbenkian de Ciências, onde permanece durante 20 anos. É nesta altura que introduz o estudo da genética molecular na Universidade portuguesa. No laboratório estuda o processo de transformação nas bactérias, onde existe transferência de material genético de uma bactéria para a outra.

O interesse pela evolução do conhecimento científico e a capacidade crescente da tecnologia transformar a natureza faz com que se envolva em temas como a bioética. Entre 1996 e 2001 assume a presidência do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida. Ao longo das décadas lança vários livros sobre ciência e bioética, o último em 2006, intitulado “Da Genética à Bioética”.

Sobre a evolução científica, iria dizer em 2006, quando recebeu o prémio Manuel Antunes, aos 80 anos, que a tecnociência é “indispensável para o progresso das civilizações, mas não se pode tornar um absoluto”. Na entrevista ao PÚBLICO apesar de defender que a ciência estava mais humilde do que no passado, Archer revelava uma preocupação em relação à corrente do trans-humanismo – a ideia que o homem é uma máquina e que é possível aperfeiçoá-la: “O homem acabará com os sentimentos e os afectos, e será reduzido a reacções químicas e a potenciais eléctrodos que podem ser inseridos no indivíduo. (…) É muito funda no ser humano [a ideia de] mecanizar, reduzir todo o fenómeno humano a equações, a química, fórmulas, traços.”

Nos últimos quarenta anos, a casa do padre em Lisboa era a Residência de Escritores “Brotéria”. Desde 2010 que vivia na Enfermaria do Colégio S. João de Brito.

Com a sua morte desaparece um homem que acreditava que a ciência e a religião eram “dois mundos independentes, ainda que convergentes”, como citou Walter Osswald, à data conselheiro do Instituto de Bioética da Universidade Católica Portuguesa, numa crónica do PÚBLICO, quando Archer fez 80 anos, a 5 de Maio de 2006. “Sem impor coisa alguma, Luís Archer ensina, estimula, convoca a servir e a exaltar a humanidade.”

8 de Outubro de 2011

in http://www.publico.pt/

—*—

Luís Jorge Peixoto Archer nasceu na cidade do Porto a 5 de Maio de 1926.

Durante a juventude frequentou, nesta cidade, o Liceu Rodrigues de Freitas e o Conservatório de Música, onde estudou piano. Em 1947 licenciou-se em Ciências Biológicas na Universidade do Porto, tendo, pouco depois, ingressado na Companhia de Jesus.

Com apenas 19 anos de idade passou a assistente e começou a dedicar-se à investigação científica. Paralelamente a esta actividade, cumpriu um sonho antigo: tornou-se jesuíta.

Na Companhia de Jesus enveredou pelo estudo das Ciências Humanas, tendo concluído a licenciatura de Filosofia na Faculdade de Teologia em Braga, em 1954.

Em 1960 concluiu uma nova licenciatura, desta feita em Teologia, e foi definitivamente ordenado sacerdote, em Frankfurt, na Alemanha.

Seguidamente, leccionou no Colégio das Caldinhas e no Colégio de S. João de Brito, do qual transitou para o Laboratório de Bioquímica da Faculdade de Farmácia da Universidade do Porto.

Para acompanhar os avanços da Nova Genética, alcançados nos anos 50, viajou até aos Estados Unidos da América. Em 1964, matriculou-se na Universidade de Georgetown para cursar Bioquímica e Genética Molecular, tendo concluído o doutoramento em Genética Molecular naquela instituição, em 1967.

A partir de 1968 empenhou-se na promoção desta área de investigação no nosso país que, precursoramente, introduziu na Faculdade de Ciências da Universidade do Porto e na Faculdade de Farmácia, entre 1968 e 1971. Nesta Universidade, foi Assistente e Professor Auxiliar e doutorou-se em Biologia na Faculdade de Ciências, em 1969.

Entre os anos de 1971 e de 1991, instituiu e chefiou o Laboratório de Genética Molecular do Instituto Gulbenkian de Ciência, sedeado em Oeiras, tendo, nesse espaço temporal, ascendido ao cargo de Professor Agregado em Botânica, na Faculdade de Ciências do Porto, no ano de 1971.

Nos dois anos seguintes trabalhou como Professor Visitante no prestigiado M.I.T. (Massachusetts Institute of Technology), nos E.U.A.

Mais tarde, entre 1979 e 1996, transferiu-se da Universidade do Porto para a de Lisboa, para ocupar o cargo de Professor Catedrático de Genética Molecular na Universidade Nova.

Este brilhante cientista e homem de fé ensinou Genética Molecular em mais treze faculdades, editou múltiplos artigos científicos sobre Bioética e Genética Molecular, coordenou quatro obras e escreveu mais seis livros, entre os quais destacamos o último da sua autoria, intitulado “Da Genética à Bioética”, de 2006.

É sócio honorário de seis sociedades científicas, portuguesas e estrangeiras, membro efectivo da Academia das Ciências de Lisboa, da European Academy of Sciences and Arts, de Salzburgo, e da New York Academy of Sciences, dos E.U.A. (Universidade Digital / Gestão de Informação, 2008)

in http://sigarra.up.pt/up/

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