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Contos velhinhos de amor

Contos velhinhos de amor

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TINHA eu apenas quatro anos de idade quando a minha mãe me levou pela primeira vez à cidade do Porto. Foi difícil a viagem por estradas irregulares, alguns troços ainda em estado de lenta conclusão, de terra batida, com pó e buracos que causavam saltos e solavancos à velha camioneta da carreira que, com enorme dificuldade subiu a serra da Flores para depois descer a pique até à povoação de Covelo onde muito lentamente atravessou a ponte de madeira sobre o rio Ferreira e atirou-se em primeira velocidade à costeira íngreme que só termina na vila de Gens quase a chegar ao centro de Valbom em Gondomar.

A partir dali já as ruas eram calcetadas até desembocarem às portas da cidade do Porto no sítio denominado Freixo onde a subida da também muito acentuada rua com o mesmo nome, exigia um derradeiro esforço ao cansado motor do autocarro da empresa Gondomarense que penosamente se arrastava pelo empedrado acima. Já lá no alto, viramos repentinamente à direita e avistei ao fundo a estação de Campanhã onde ouvi pela primeira vez na vida, estridentes apitos de comboios e o matraquear, pouca terra, pouca terra, das metálicas rodas das composições que dali partiam e chegavam de e para todos os cantos do país e até para Espanha via Valença do Minho, estridentes apitos e nuvens de vapor.

A carreira passou pela estação não sem antes descarregar passageiros na paragem que fica em frente desse notável monumento ferroviário seguindo depois pela rua Pinto Bessa até se desviar para a rua Padre António Vieira e virar subitamente à direita e dar a ideia de que se iria esbarrar de encontro à frontaria decorada de belos azulejos da capela da Senhora da Saúde que faz esquina com a travessa da Formiga e com a rua do Heroísmo. Pura ilusão minha, de repente o motorista deu meia dúzia de voltas ao enorme volante da máquina e ficamos de frente para a rua do heroísmo que se prolonga até à antiga e extinta PIDE, hoje museu militar, e se bifurcava com a avenida Rodrigues de Freitas estendida pelo chão até ao Jardim de S. Lázaro onde me espantei com o grande tráfego de carros eléctricos que giravam constantemente em seu redor, vindos de todas as ruas adjacentes.

– Tantas casas a pescar exclamei utilizando o termo usado pelo meu irmão Hélder também surpreendido na primeira vez que foi ao Porto. Paramos no cruzamento em frente à biblioteca Municipal por ordem de um sinaleiro da polícia que abriu o trânsito para a rua de S. Victor à esquerda e deu passagem aos que circulavam de frente, vindos da Praça da Batalha e da rua Alexandre Herculano.

As casas a pescar eram as ligações de braços fixados nos tetos das carruagens aos fios condutores de eletricidade que proporcionavam combustível limpo aos carros eléctricos que o Porto tinha em quantidade suficiente para meter num só bolso todos os moderníssimos Metros que agora atropelam economicamente três ou quatro  cidades da área metropolitana oferecendo todavia uma maior comodidade e rapidez nos trajectos.

A carreira era uma velha camioneta OM importada de Inglaterra e de volante ao contrário tal qual como foram muitas das direcções que o país tomou desde então. Parou na rua Duque de Loulé que era digamos, uma das muitas centrais de camionagem de passageiros que a cidade sustentava na época. Apeados, calcamos a pé a distância que nos separava do destino traçado pela minha mãe:

O Cais da Ribeira.

Durante esse percurso pude admirar os prédios, os carros, as pessoas e, tal era o meu espanto que algumas vezes a minha mãe teve de puxar com alguma força o meu braço que vinha agarrado à mão dela para me arrastar um pouco mais para junto de si e simultaneamente chamar atenção a um ou outro pormenor que ela achava digno do meu olhar ávido de conhecimento.

A mão da minha mãe na minha mão dava-me conforto e segurança, era uma sensação de maravilhosa união, um calor que percorria todo o meu corpito de criança e me enchia de felicidade. O meu coraçãozito palpitava acelerado e parecia querer sair-me do peito e juntar-se feliz ao coração dela como se nós os dois fossemos um só a caminhar pelas ruas da cidade amada. Parece-me sentir neste momento a mão da minha mãe na minha. Suave sensação, indizível bem-estar, doce recordação que gosto de sentir de vez em quando. Que estranho e simultaneamente encantador poder tem a mente humana que é capaz de guardar intactas tão sagradas memórias para positivamente nos surpreender quando o deseja e ao mesmo tempo nos deixar fragilizados porque, julgo propositadamente, não quer impedir as lágrimas de saudade que assaltam e alagam os nossos olhos agora adultos ou por ser necessário lembrar-nos permanentemente que já fomos felizes algures num momento radioso das nossas vidas e que se abrirmos o coração como o fazíamos quando éramos crianças, podemos voltar a ser outra vez muito felizes. O que somos agora pouco importa. A maior ou menor notoriedade de cada um, dilui-se na distância percorrida sem amor ao próximo e á natureza, sem gestos de ternura e de carinho, sem abraços e sem beijos. A matriz de cada criatura, foi decalcada na nossa formação infantil em que o leite materno operava os milagres precisos para nos defender de todos os perigos ao longo da existência.

Mãe, continuo a ser a criança inquieta, aquele de nós todos que mais arrelias te causou mas para quem tinhas sempre um sorriso de complacência e absolvição dos inocentes pecados que fui cometendo como todas as crianças do mundo cometeram e cometem. Não eram pecados propriamente dito por que ninguém é pecador, talvez se possam considerar pequenas imprecisões cometidas por distracção ou por não se estar ainda formatado para a sociedade austera da época. Hoje como muitos à mercê dos tempos, sem protecção materna e paterna, deambulando pela vida como um sem abrigo, dedico-te um sorriso de cumplicidade, o mesmo ou outro igual aos de antigamente que nos faziam tão felizes aos dois.

O Porto de que eu só tinha ouvido falar pelos barqueiros dos Rabões da Esquadra Negra  quando faziam pausas na taberna da minha mãe na rua da Torre em Rio Mau  ou pelos arrais dos barcos Rabelos que atracavam no cais do Remoinho  para se virem abastecer de viveres na mercearia dela, estava ali à minha disposição. Ainda hoje me bailam nos poeirentos armários da memória alguns nomes pronunciados muitas vezes pela boca da minha mãe de homens valorosos domadores do rio e senhores de uma coragem sobrenatural. Refiro alguns do meio de dezenas: O Zeca Léria, o António Florim, o Joaquim Florim, o Zé Florim todos irmãos e naturais da povoação de Vimioso lugar à beira do rio. O Bernardo Bento do lugar de Bitetos em Várzeaa do Douro, o João Rouquinho também de Bitetos, o Vagaroso e o Castanho do lugar do Castelo pertencente a Cinfães do Douro, o Ervilheiro e o Nico das caldas de Aregos freguesia de Resende e o Manel do Rio da Barca da Seara lugar de Magrelos freguesia de Alpendurada. Todos capitães das fragas, comandantes de Rabelos, mestres destemidos do penoso tráfego do rio Douro. Nomes e apelidos de guerreiros valentes mas também de cegos e loucos como o rio em que toda a vida navegaram nas suas turbulentas águas e foram em certa medida senhores dele.

A minha pequena quantidade de vida, quatro anos, começava a ser matizada com as artes fluviais sem eu ter contribuído absolutamente com nada para que isso acontecesse. Foi obra da proximidade à água por ter nascido quase dentro dela, do destino que parece ter sempre a última palavra em todas as decisões da vida ou sabe-se lá de quem e o porquê. Agora estava ali a pisar a terra da maior das referências do rio Douro, aquela que essa imensa corrente líquida escolheu para vir abraçar o oceano, a ver com os meus pequeninos olhos deslumbrados a metrópole vergada ao peso descomunal da história e de todas as histórias que a transformaram numa grande metrópole, num epicentro do mundo, património mundial, tudo atributos de um povo habitante que é foi tenaz, dono de muita heroicidade e proporcionou que tantos feitos acontecessem. Os grandes só se vergam aos grandes e, nessa combinação multifacetada, a cidade do Porto honra-se de tantas gloriosas páginas gravadas a ouro no grande livro dos maiores.

– Vamos para a Ribeira, disse a minha mãe enquanto caminhava por alturas da Praça Batalha. Eu espantado mais parecendo um boi a olhar para um palácio, tentava absorver todo aquele movimento, a multidão que enchia os passeios e inundava a rua de Sta Catarina, a arquitectura dos prédios de dimensões alheias às humildes e pequenas casas da minha terra, desnudadas de azulejos ou cales, escuras como o é o material de que são construídas e é retirado à força de braços ali perto nas pedreiras da serra da Boneca. Xisto, lousa que era nessa época material didático indispensável nas escolas e que apesar de tanta humildade veio a ser considerado produto nobre muitos anos depois no enfeitar de casas modernas e vivendas de luxo.

De repente ouviram-se sinos, carrilhões de igrejas, talvez da Sé ou da Torre dos Clérigos que musicalmente batiam horas e espantavam centenas de pombas coabitantes da cidade invicta. Que raro privilégio foi esse, penso agora, o de ir de visita a um santuário onde vivem e viveram muitos dos ilustres homens e mulheres do nosso pais e saber que quase nenhum dos meus colegas de brincadeiras desse tempo, o tinham feito até ai. Corria ao lado da minha mãe e durante essa caminhada pelas ruas do Porto, de vez em quando, lançava-lhe um olhar de terna cumplicidade e esperava que ela baixasse os olhos dela e me correspondesse com um outro olhar como só ela tinha e, nesse doce enleio que não posso esquecer, ia pensado que quando voltasse à minha terra, haveria de contar tudo o que de maravilhoso estava a viver nesses momentos de sonho aos meus amigos que ficaram a ver-me partir na carreira das sete da manhã e aos três rios que me viram nascer.

Ia-mos a desce a rua de Sto. António, hoje 31 de Janeiro que era um mar de gente mas antes, vi pela primeira vez o edifício das Galerias Palladium, nesse tempo grandes armazéns Nascimento, situado no cruzamento da Rua de Santa Catarina com a Rua de Passos Manuel, que mostra um interessante relógio com carrilhão e figuras que se movimentam no exterior do edifício. Não fiquei a saber na altura o significado da maravilha a que iria ter o prazer de assistir só mais tarde a minha mãe me pós ao corrente de uma das coisas mais emblemáticas da cidade do Porto. De três em três horas, abre-se automaticamente uma porta e por ela saem as vultos a imitar pessoas apresentando-se de frente para Santa Catarina, num patamar do 1º andar e são quatro imagens representando figuras emblemáticas da cidade: S. João, o Infante D. Henrique, Almeida Garrett e Camilo de Castelo Branco que após um desfile de dois minutos perante a numerosa assistencial que nas ruas aguarda a inédita aparição e ao som das batidas musicais do carrilhão,  regressam lentamente ao interior do relógio.

O Porto foi e é muito mais que uma cidade, é muito mais que um aglomerado de casas e pessoas, é uma Nação, é um livro fantástico de páginas escancaradas para o mundo, um sítio onde o amor veio morar e ficou para sempre.

Ao fundo da rua de Sto. António a estação de S. Bento, apareceu-me pela esquerda rodeada de edifícios descomunais e ruas largas onde centenas de carros e camiões circulavam por entre os apitos estridentes do polícia sinaleiro, em pé num estrado redondo de madeira, ao centro da encruzilhada à vista da Praça da Liberdade. Descemos a rua Mouzinho da Silveira santuário de grandes armazéns e, após dez minutos de marcha acelerada, chegamos à rua de S. João e dali já avistei lá em baixo vapores fundeados ao largo do cais Ribeira e barcos Rabelos encostados ao cais das Freiras do outro lado do rio. À minha frente estava o Douro rio que me embalou desde a nascença a ser anfiteatro de colossais transacções comerciais tanto nacionais como internacionais trazidas em navios com cargas diversas vindos de todos os portos do mundo.

– O meu rio também veio ver a cidade do Porto, pensei só para mim. Decerto já não vai voltar a passar na minha aldeia, vai querer ficar por aqui nesta terra grande e moderna a ver tudo o que é bonito! Vamos ficar sem ele, sem os barcos, sem os areais, sem nada!

A falta de confiança da minha parte para com a integridade de um grande amigo, comprometia o futuro da nossa relação. Eu era uma inocente e temerosa criança espantada como o novo, mas o rio sabia bem que nada nem ninguém nos poderia separar nesta vida.

A azáfama era por demais evidente, as pessoas movimentavam-se pelos passeios como uma amalgama disforme de gente que parecia não ter destino marcado. Uns para cima, outros para baixo, outros para os lados atravessando as ruas levando nas mãos diversos objectos e compras de aquisição recente. A cidade fervia cada vez mais à medida que nos aproximamos do cais onde os meus tios, irmãos da minha mãe, tinham um armazém de mercearia que abastecia as terras a norte e vendia ali mesmo, a quem requisitasse algum produto. Eu ainda não sabia ler nem escrever, mas a minha mãe apontou para uma tabuleta fixada sobre o número seis da rua de S. João e disse-me:

-Vês, é ali o armazém e a casa dos teus tios!

“Manuel Araújo e Irmãos” – Armazenistas de Mercearia, Import – Export. Que importavam quase tudo o que vendiam e que nunca exportaram nada vim a sabe-lo mais tarde, no entanto compreendia-se a agressividade comercial dos publicitários designers gráficos da época que só pretenderam dar importância e vulto aos negócios da família. Ocupava três números a frente comercial, portanto três lojas onde se armazenavam todos os produtos comestíveis, batatas, arroz, açúcar, bacalhau, massas, feijão, sal e não comestíveis tais como, carboneto para os gasómetros misturado com sacos de rolhas para garrafas e garrafões, ráfia para amarrar portes de enxertos aos molhos, etc, etc. Num dos andares por cima vivia o meu tio José que foi o nosso anfitrião durante os dois ou três dias que por lá permanecemos.

A minha tia Aida sua esposa, era uma senhora muito bonita, uma verdadeira dama, bem vestida e arranjada usava uma gargantilha de pérolas ao pescoço a realçar o peito coberto por uma blusa de seda preta e ouros suspensos discretamente nas orelhas e nos dedos das mãos. Uma flor de filigrana espetada na lapela de um casaco que lhe adelgaçava a cintura e fazia conjunto com uma sai de lã de meio passo, de cor cinza, os dois com atenuadas riscas brancas longitudinais completavam o fino traje da senhora minha tia. Lembro-me que tinha os olhos maquilhados de tons de azul marinho e a pele do rosto encantador onde as faces apareciam levemente retocadas por algum dos pós cor de rosa na altura importados de Paris, parecia de cera. Tinha as unhas perfeitamente talhadas, polidas e cobertas por um verniz vermelho intenso e os lábios pintados da mesma cor e, por serem coisas que eu nunca tinha visto em mulher nenhuma da minha aldeia, me fascinaram de forma a que a partir dali fiquei a magicar comigo próprio como seria lindo o mundo se todas as mulheres pudessem ser assim tão arranjadas e bonitas como a senhora minha tia Aida. Na minha terra Rio Mau, não podia haver semelhantes arranjos nas mulheres nem nos homens, a vida era dura, o trabalho muito e o dinheiro pouco. As roupas eram feitas de chitas, panos crus, gangas e os cotins. Fazendas nobres das tecelagens da Covilhã, só nos povos das cidades que já auferiam salários melhores do que um mineiro, lavrador, pescador ou barqueiro. Todavia a beleza sempre acompanhou as senhoras da minha terra. Digo-o com orgulho, rendo-lhes homenagem. Havia mãos hábeis de humildes costureiras, ainda hoje existem algumas, que operavam milagres e faziam reluzir como estrelas as raparigas da beira do rio. Era uma beleza diferente e nem por isso menos admirável, por ser natural, pura e genuína.

A Ribeira, o rio, as barracas das vendedeiras espalhadas pelo cais, os pregões matinais, os almocreves que vinham e iam de sacos aos ombros para carregar camionetas que as levariam para todas as terras vizinhas. Do outro lado do rio pairavam as silhuetas disformes dos barcos Rabelos em fila à espera da vez para descarregar as centenas de pipas de vinho fino que traziam no ventre desde o Alto Douro.

De repente o sobressalto:

– Que andas aqui a fazer Manel?

Virei-me de repente e olhei para trás surpreendido e aflito, mas percebi nesse momento que quem me interrogava era o meu amigo rio Douro.

– Vim com a minha mãe ver o Porto, respondi cheio de vaidade e todo contente por saber que ele me tinha reconhecido no meio daquela multidão e ao mesmo tempo orgulhoso por estar a  partilhar com ele semelhante aventura.

– Trouxeste o pião, perguntou-me ansioso?

– Tenho-o aqui no bolso dos calções, queres brincar comigo, perguntei a sorrir?

– Quero, desce as escadinhas do cais com muito cuidado e vem até cá a baixo, vamos lançar o pião!

E brincamos nesse dia desinteressados de tudo o que nos rodeava até ao anoitecer. A minha mãe tinha dado pela minha ausência, espreitou lá de cima pela janela da casa da minha tia e percebeu a grandeza do momento que eu estava a viver e deixou-me nos braços do rio que ela também adorava. E brincamos com o pião, com os barcos, com as gaivotas e com os peixes. Ainda hoje essas brincadeiras simples, continua vivas dentro de nós os dois. Ele fala comigo a brincar e eu brinco com ele a falar e a escrever. Somos irmãos, nascemos da mesma terra, ninguém nos pode separar.

Já lá vão os anos. Já lá vão as pessoas mais queridas, alguns a quem muito amei. Quase todos desapareceram desse cenário maravilhoso onde cresci, mas a história, os sítios, as casas e o rio, permanecem por lá a contar como tudo se passou durante centenas de anos. Todavia sorrio. Apesar de todos as perdas, das muitas transformações acontecidas, reaparece dentro de mim aquela sensação que nos fica quando sentimos que fomos amados neste mundo e capazes de correspondermos aos outros com igual afeição a esse sentimento que num determinado espaço temporal das nossas vidas nos dedicaram.

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook e Amanhecer (Poesia). Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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