1.
O sol dentro do dia
O frio dentro do sol.
Ruas desertas
carros parados
Mas não há neve
há vento vento
Arde contudo
no ar gelado
um arbusto vermelho
Falo com ele ao falar contigo
2.
Estou num quarto abandonado da linguagem
Tu estás noutro quatro semelhante
Ou estamos os dois
Numa rua que teu olhar despovoou
O mundo
Desfaz-se imperceptivalmente
Memória
desmoronada sob nossos passos
Estou parado no meio desta linha
não escrita
3.
As portas abrem-se e fecham-se sozinhas
O ar
entra e sai pela nossa casa
O ar
fala sozinho ao falar contigo
O ar
inominado pelo corredor interminável
Não se sabe quem está do outro lado
O ar
Dá voltas e voltas pelo meu crânio vazio
O ar
transforma em ar tudo em que toca
O ar
com dedos de ar apaga o que digo
Sou ar que não vês
Não posso abrir teus olhos
Não posso fechar a porta
O ar tornou-se sólido
4.
Esta hora tem a forma duma pausa
A pausa tem tua forma
Tu tens a forma duma fonte
não de água mas de tempo
No cimo do repuxo
Meus pedaços saltam
o fui o sou o não sou ainda
Minha vida não conta
O passado esfuma-se
O futuro é um pouco de água em teus olhos
5.
Agora tens a forma duma ponte
Sob teus arcos nosso quarto navega
De teu varandim vemo-nos passar
Ondulas no vento mais luz que corpo
Na outra margem o sol cresce
ao contrário
Suas raízes enterram-se no céu
Poderíamos ocultar-nos em sua folhagem
Com seus ramos acendemos uma fogueira
O dia é habitável
6.
O frio paralisou o mundo
O espaço é de vidro
O vidro é de ar
Os ruídos mais leves erigem
súbitas esculturas
O eco multiplica-se e dispersa-as
Talvez venha a nevar
Acesa a árvore estreme
Já a noite a circundou
Ao falar com ela falo contigo
tradução de Luís Pignatelli in Antologia Poética, Publicações Dom Quixote, setembro 1984


















