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O Sr. Padre Luís Rodrigues

O Sr. Padre Luís Rodrigues

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É GENERALIZAR demasiado, além de deliciosa maldade, dizer que as pessoas comuns da rua do Paraíso eram mais comuns do que as de outra rua qualquer. Talvez seja verdade, talvez não seja. Do que não duvido é que houvesse diferentes pessoas que sonhavam, que entendiam ter a ver com as outras, que se inclinavam para os mais pequenos a quem davam importância, que estavam disponíveis e que, mesmo quando pareciam insignificantes, tinham uma opinião acerca do mundo.

Participavam do ruído e do movimento e, por essa razão, também animavam a Rua. Para mim são pessoas inesquecíveis, de quem me aproximei, com quem contactei e privei e que, de algum modo, me marcaram pela sua sabedoria, pela maneira peculiar de encarar a vida, ou pelas qualidades humanas, que não eram todas boas.

O Sr. Padre Luís Rodrigues

O Padre Luís, muito querido dos jovens, dizia a missa em vinte minutos com prática e tudo e as suas palavras, simples e animadoras, eram “música ordenada e limpa” para os nossos ouvidos: flexíveis, prometedoras, inesperadas e sempre luminosas. Os seus admiradores acorriam de toda a cidade, sabiam que os grandes conceitos aniquiladores da felicidade terrena – vitupério, blasfémia, praga, catástrofe, inferno e abismo – não constavam do seu pensamento nem da sua linguagem.

No dia da Festa da Padroeira, de uma solenidade deslumbrante, e noutras festas litúrgicas, esmerava-se no arranjo das flores, das velas, das colchas, da música, dos discursos. Nesse dia, como em todos os outros, estava-se na Igreja sem pousar os pés no chão.

A intervenção do Padre Luís, professor de música no Seminário da cidade e responsável pela Igreja, foi fundamental – atraiu a juventude, pensando e preocupando-se com os seus problemas e tentando dar respostas satisfatórias às interrogações. Soube criar o ambiente adequado à festa que sempre era uma ida à Lapa. Visivelmente procurava compreender antes de ensinar e o ensino era para ele e por ele leve, agradável, doce. Não nos enchia de palavras nem de conceitos, dava-nos espaço para raciocinar.

Havia um grupo de beatas, como em qualquer outra igreja, mas ali escureciam o canto onde se encontrassem muito mais do que noutro lugar qualquer. Com elas não havia muito a fazer, perdidas que nem davam conta do que se passava no canto oposto e no centro do recinto. O Padre Luís escorraçava-as, não tinha paciência… Apesar de desclassificadas, voltam sempre e continuavam por ali a ronronar, envoltas em panos húmidos e descoloridos ou na própria sombra, mas perseverando no cumprimento de missões caritativas, em doações… fanáticas da humildade, da soturna devoção, da penitência torturada.

Na Igreja do Padre Luís havia muita luz, ar fresco, música e sedução: alegria, cooperação, entendimento. Elas não reparavam nesse espaço de transcendência que permitia a comunicação com um mundo maravilhoso, aberto nos dois sentidos, lugar de passagem…

Não era somente o local do sagrado, mas do convívio preferido da juventude, desejosa de saber muito para além do que podia ser aprendido na rua e noutros lugares profanos. Aquele era o espaço eleito onde nos podíamos instalar tão perto quanto possível do que realmente tinha significação.

Esta igreja, como muitas outras, pode ter sido construída sobre ruínas doutra ou doutras mais antigas[1]. Assim, teria havido um sinal, seria um espaço revelado, um centro. O Centro do Mundo e um ponto de referência e de orientação, um ponto fixo, seguro.

Era isto que eu sentia em relação à Lapa – considerava-me privilegiada por poder frequentá-la e sobretudo por me ser permitido apreciar e conviver com alguém tão cheio de sabedoria. Ao Padre Luís interessava muito mais dar a conhecer uma forma de vida qualitativamente superior do que caridade, penitência e servidão.

Para mim, ele queria chegar à transcendência através de uma estética/ética imanente. Suspeitaria que existisse uma noite profunda e uma claridade deslumbrante, mas não pensava investiga-las, antes iluminar os caminhos intermédios. Conhecedor do mundo, pensou na única maneira de conseguir que cada um de nós se esforçasse por fazer da sua vida uma obra bela e duvidosa.

Padre Luís – saudosa figura para mim inesquecível.

Texto de Zilda Cardoso publicado originalmente in A Rua do Paraíso, Edições Afrontamento, 2.ª edição, 2016, página 141-143

[1] A Capela de Nossa Senhora da Lapa foi construída em 1755 com donativos de alguns devotos que se constituíram em Irmandade. Os padres realizavam muitas confissões, sobretudo de pessoas que cometiam o pecado de roubar: faziam-no com tal convicção que os pecadores eram levados por boas razões a querer restituir os objectos em questão. Como não lhes convinha serem vistos nessas estranha e duvidosa acção, havia uma roda inserida na portaria onde eram depostos os resultados das subtracções fraudulentas para mais tarde serem entregues aos legítimos donos. Logo no ano seguinte e devido ao sucesso das confissões e consequente aumento de fiéis pecadores foi deliberado aumentar a capela, cuja primeira pedra foi nesse ano colocada. Assim nasceu a ampla Igreja da Lapa e os edifícios contíguos. (Horácio Marçal, O Tripeiro, ano XI).

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