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José Carlos Loureiro (1926)

José Carlos Loureiro (1926)

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JOSÉ Carlos Loureiro, autor do Palácio de Cristal, no Porto, e da Capelinha das Aparições, em Fátima, doou o seu acervo documental à Fundação Marques da Silva. Pretexto para revisitar uma carreira de seis décadas. Um dos decanos da arquitectura em Portugal, José Carlos Loureiro (n. Covilhã, 1926) iniciou a sua carreira nos anos do modernismo. Tem uma obra extensa e diversificada, com uma especial incidência no Porto, onde o edifício Parnaso (1955), recentemente classificado, é um ícone da arquitectura moderna na cidade. O autor do Palácio de Cristal – projecto que o próprio recentemente readaptou a centro de congressos, mas que está agora à espera da decisão do novo executivo autárquico – decidiu doar o seu acervo à Fundação Marques da Silva. Fê-lo, explica, “pela simples razão” de que os seus responsáveis tomaram a iniciativa de lho pedirem. “Fiquei muito honrado com isso”, diz o arquitecto, satisfeito por ver a sua obra ir fazer companhia a José Marques da Silva, à filha e genro deste, Maria José e David Moreira da Silva, e também ao seu colega de geração Fernando Távora.

Em que consiste o acervo que vai ceder à Fundação Marques da Silva?

É muita coisa. Além dos projectos, há coisas que fui guardando do meu currículo, documentos, recortes dos jornais, fotografias… Muita coisa, que está a ser classificada por uma senhora da fundação. Quero chegar ao fim e saber quantos são os projectos. Alguns não foram concretizados, e outros não passaram do estudo prévio. Estou-me a lembrar, por exemplo, de um concurso para uma Pousada do Vinho do Porto na Régua, que ganhei, mas não passou do papel. As pessoas que me estão a ajudar no levantamento, e que já me tinham ajudado na publicação do livro [a monografia J. Carlos Loureiro. Arquitecto, editada pela Caleidoscópio em 2012], dizem que serão para aí umas 400 obras.

É uma longa carreira.

Sim. O primeiro trabalho, e que está aqui no livro, é um concurso para um hotel nas termas do Gerês, em que, curiosamente, o David Moreira da Silva e a Maria José ficaram em primeiro lugar. Eu, um jovenzinho estudante, fiquei em terceiro. Foi em 1947. É só fazer as contas… Mas o primeiro projecto concretizado foi o Hospital da Fundação Aurélio Diniz, em Oliveira de Hospital [1948-55], e que fiz pela intervenção do mestre Carlos Ramos, um grande homem, que foi meu professor e que, em 1950, me chamou para o ajudar na Escola de Belas-Artes do Porto.

Logo a seguir, fez a sua casa. Não é habitual um arquitecto começar a carreira pela sua própria casa. A historiadora de arquitectura Ana Tostões escreveu que se trata de “um momento notável de revelação autobiográfica”.

Eu era um modesto estudante – o tempo da guerra era difícil, e o meu pai deve ter feito sacrifícios para me mandar estudar no Porto – e, a certa altura, quando estava para casar, inscrevi-me na cooperativa O Problema da Habitação. Fui pagando as quotas com uns dinheiritos que ganhava a trabalhar umas horas nos ateliers e, passados quatro anos, a cooperativa disse-me: “Você, se quiser, tem vez de construção”. Comecei à procura de terreno, e os meus sogros, que viviam numa quinta em Valbom, disseram-nos: “Se quiserem, façam a casa aqui, num cantinho da quinta”. Até nisso tive sorte, que tenho aquela vista sobre o Douro. A quinta podia ser num buraco em São Pedro da Cova…

Tem noção de que é o arquitecto que mais construiu na cidade do Porto, numa dinastia que passa por Nasoni, Marques da Silva, Arménio Losa?

Eu fiz muita coisa, de facto. Mas não terei essa qualidade. Houve uma altura em que era, de facto, o arquitecto que tinha mais trabalhos.

Isso aconteceu por que razão? Por exemplo, Álvaro Siza sempre teve grande dificuldade em construir no Porto…

Sei lá. Eu fui sempre um homem muito positivo, no sentido de fazer, de realizar. Passou-se uma coisa interessante com a pousada de Bragança. O projecto foi encomendado numa mesma leva de encomendas que incluía as pousadas de Valença, do João Andresen, uma em Vilar Formoso, que nunca se fez, do Nuno Teotónio Pereira, uma na ria de Aveiro, que está construída. Esses projectos, um dia, foram todos chumbados pelo Salazar. Menos o meu, que já estava adjudicado ao empreiteiro. Eu tinha andado mais depressa do que os outros.

Considera-se um dos fundadores da Escola do Porto?

Por que não? Fui fundador da ODAM [Organização dos Arquitectos Modernos, que existiu no Porto entre 1947-52] e dei um contributo real à modernidade na arquitectura. Penso que isso é incontestável. Mas nunca fui muito radical nas minhas concepções e teorias arquitectónicas. Tenho um princípio que continua a orientar a minha actividade: trabalhar ao serviço das pessoas. Elas vão viver em espaços que estou a criar, e tenho a obrigação de procurar contribuir para que elas se sintam bem, física e emocionalmente. Não me interessa fazer um edifício com características técnicas, conforto físico, se não houver uma vivência emotiva do espaço, da luz.

Será por isso que é particularmente elogiado pelos seus edifícios de habitação?

Não só. Estou a ver por trás de si fotografias do Instituto Superior da Maia [ISMAI, 1995-2011]. Tem aí a imagem do hall, o grande espaço que criei para os estudantes ficarem dentro da escola. Porque esse corredor, com essa luz, não é um espaço anónimo. É um corredor que emociona as pessoas pela luz, pelo desenvolvimento em curva, por uma certa subtileza que o espaço tem. Sempre me preocupei com isso. E não foi só na habitação. Posso referir-lhe outros edifícios. A minha atenção pelas pessoas é permanente.

A propósito da ODAM, escreveu no seu livro que “ser modernista em Portugal, no final dos anos 1940, era uma aventura perigosa”. Porquê?

Porque éramos considerados quase subversivos. Associava-se um pouco o modernismo à oposição política.

Referindo-se ao seu projecto para o Palácio de Cristal, no Porto [1952], Álvaro Siza diz que ele motivou uma grande polémica entre os “progressistas” e os “velhos do Restelo”. Em que circunstâncias foi chamado a fazer esta obra?

Tinha acabado o curso; as perspectivas de poder trabalhar, naquele tempo, não eram famosas. (Apesar de tudo, se calhar, eram melhores do que as de agora…) De tal forma que concorri para ir trabalhar para a Câmara de Lourenço Marques, actual Maputo. Mas não fui escolhido. Um amigo terá então feito uma diligência junto da Câmara do Porto a ver se havia lá um lugar de arquitecto para mim. Qual não é a minha surpresa quando me dizem que não havia lugar, mas havia lá uma coisa para fazer. Mais uma vez, o mestre Carlos Ramos foi uma pessoa fantástica. Ele estava, na altura, com a obra dos Paços do Concelho – foi ele que acabou o projecto do Correia da Silva. Estou mesmo a ouvi-lo dizer, perante o presidente da câmara e alguns vereadores: “Vocês podem entregar o projecto a este jovem; eu responsabilizo-me”. Isto é de uma pessoa extraordinária.

Mas teve conhecimento de que, na altura, um projecto do arquitecto Artur Andrade para o novo pavilhão tinha sido recusado, ao que parece, por razões políticas?

Não sei. O projecto era uma encomenda da Associação Industrial [do Porto]. Cheguei a trabalhar com o Artur Andrade nesse projecto, muito pouco tempo, mas não sei por que é que o projecto dele não foi para a frente.

Voltando ao seu projecto, onde foi buscar a ideia inovadora do “disco voador”?

Não lhe sei dizer. De facto, foi inovadora. É curioso que, alguns anos depois, em 1959, um grande arquitecto e engenheiro italiano, Pier Luigi Nervi, fez em Roma um pavilhão deste género.

O seu projecto foi controverso na altura e, por razões diferentes, voltou agora a motivar polémica. Na época, não lamentou a perda do antigo palácio?

Já na altura defendi que o pavilhão devia ser feito noutro sítio, mas são coisas que nos ultrapassam. O Palácio de Cristal tinha tremendos problemas de conservação, por ser uma estrutura em ferro. Estava a apodrecer. E as suas dimensões tinham-se tornado escassas para o que se pretendia. Estas coisas motivam sempre paixões e questões políticas. O belíssimo solar de Aviz, em frente ao Café Aviz, também foi demolido para se fazer o Hotel Infante de Sagres, mas ninguém fala nisso. E a Estação de S. Bento implicou a demolição do Convento de S. Bento de Avé Maria. Só com o Palácio é que se continua a fazer barulho.

A polémica regressou agora, a pretexto do seu novo projecto para a reabilitação e readaptação do palácio para centro de congressos. Em que ponto está o processo?

O projecto está entregue e aprovado, depois de muita discussão técnica. Fui acusado de destruir os jardins do Palácio. São autênticas barbaridades, muito da política, e que, sobretudo, não são verdade. O meu projecto deitaria abaixo apenas dois plátanos e um pequeno cedro.

Mas o novo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, já disse que não gosta do projecto, e que vai pedir-lhe que o reequacione. Aceita esse novo desafio?

Estou aberto à revisão do projecto conforme o programa que venha a ser estabelecido, que espero que seja um programa capaz. Sei que querem aproveitar os equipamentos que já existem. Fico à espera.

Por que escolheu para capa do seu livro o projecto do Parnaso [1955, classificado em 2013 como Edifício de Interesse Público]?

O Parnaso é considerado, de facto, a grande pedra do arranque do modernismo na cidade do Porto. Ainda hoje, de vez em quando, sou desafiado para ir lá guiar visitas com estudantes. Já não me lembrava deste desenho, que eu próprio fiz – naquele tempo, não tínhamos desenhadores. Foi uma jovem arquitecta alemã, que esteve cá a fazer o Erasmus, que um dia veio aqui visitar-me e conversar, e me trouxe a fotografia. Guardei-a, e achámos que era interessante usá-la na capa do livro.

Uma das características do modernismo – e que está patente no Parnaso – é a utilização de materiais diferentes dos tradicionais. A certa altura, começou a valorizar muito o azulejo; realizou até um estudo…

Foi a minha tese do concurso para professor: O AzulejoPossibilidades da sua reintegração na arquitectura portuguesa [publicado em 1962 e reeditado em 2012, também pela Caleidoscópio]. O azulejo é um material muito português e que daqui vai para o Brasil, onde é utilizado em painéis de interior, nas igrejas, nos conventos. Por questões de clima, ou para mostrar riqueza, começam depois a usá-lo no exterior. E o nosso emigrante traz essa ideia para cá. Por exemplo em Ovar, uma zona de grande emigração para o Brasil, há muitos edifícios com azulejos antigos. Então pensei que talvez se pudesse voltar a utilizar o azulejo com uma leitura mais moderna, e fiz este ensaio [no complexo residencial Luso-Lima, 1962]. Depois começaram a aparecer as porcarias, os azulejos de quarto de banho nas fachadas. Faltava a escola. E pensei: “Estou a contribuir para esta desgraça”. Então deixei de o usar.

Como responde às críticas de que se deixou institucionalizar e de que aceitou a utilização de matérias menos nobres, como o alumínio, por exemplo?

A minha preocupação são as pessoas. Assumo o modernismo na arquitectura, e defendo que uma pessoa tem de tentar evoluir e acompanhar novas tecnologias e conceitos. Mas também entendo que a arquitectura se faz em relação com o lugar, a paisagem, com a orientação, as árvores ou outras preexistências. Por exemplo, em Fátima, onde trabalho desde 1976, tenho revestimentos em placagem de calcário, pedras grandes. Mas aqui, no Porto, já uso o granito e, se for preciso, um reboco. Agora, se vou para Bragança fazer uma pousada, por que não hei-de utilizar materiais típicos daquela região? Mas receio que a arquitectura se esteja a globalizar e, qualquer dia, se transforme numa monotonia desgraçada, igual em toda a parte.

Quais foram as suas principais influências?

Quando me formei, o grande nome era o Corbusier, o [Walter] Gropius e, mais distante, o Frank Lloyd Wright. Depois fiz uma viagem com os meus alunos à Finlândia, e descobri lá o [Alvar] Aalto. Ele estava a fazer, precisamente, a transição entre uma certa rigidez do Corbusier e uma arquitectura mais voltada para as pessoas, mais humanizada. Aquela ideia do Corbusier do pano de vidro, e da estrutura independente, eram chavões. Tiveram uma importância enorme, mas não podem fazer regra. No princípio da minha carreira, nessa opção entre o racionalismo puro do Corbusier e o humanismo do Alvar Aalto, aproximei-me do Aalto.

Como vê a projecção internacional da arquitectura portuguesa, nomeadamente com os prémios Pritzker a Siza e Souto de Moura?

São dois grandes arquitectos, com quem me dou muito bem. O Siza foi meu aluno, o Souto de Moura já não. Na altura, o Siza era um aluno tímido, mas começou a desabrochar e é, de facto, um grande arquitecto.

E a situação actual da arquitectura portuguesa?

Há dois aspectos. Um é o profissional, que é o pior possível. No meu escritório, estou agora reduzido a um desenhador. Cheguei a ter doze pessoas. Em Março do ano passado, mandei embora quatro. O outro aspecto é haver obras boas e outras menos boas. Receio que estejamos a caminhar para uma atitude de querer fazer diferente. Lembro-me de ter ido visitar a Bilbau o Museu do Frank Gehry. É uma obra bonita, plasticamente interessante. É um museu e aceita-se essa originalidade. Mas, depois, vi uma adega dele, nos Pirenéus, que é um bocado a mesma coisa, e aí já fiquei um bocado… Uma coisa é um museu, outra coisa é uma adega.

Não gosta da arquitectura-espectáculo.

A arquitectura não pode ser nem para a fotografia, nem só para a satisfação do ego de cada um. A arquitectura é um serviço.

O que acha da Casa da Música?

Não gosto muito, devo confessar. É um pouco a mesma coisa que o Gehry. Aquela forma, podem dizer-me que é simbólica. Mas por que raio é que um edifício deve parecer-se com um diamante? Depois, tem coisas graves do ponto de vista da segurança, como as escadas, onde já caíram pessoas. E não sei como é que aquilo se vai comportar com o tempo.

E o Museu dos Coches?

Conheço mal. O que acho é que talvez não fosse preciso. É por isso que estamos de tanga. Por que é que se gastaram ali não sei quantos milhões? Ainda há dias vi na televisão o antigo Museu dos Coches, que até é bonito. Por que é que vão mudar?…

Por Sérgio C. Andrade e fotografia de FERNANDO VELUDO/NFACTOS publicado in PÚBLICO

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