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As ruas da minha cidade

As ruas da minha cidade

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1.
Os pavimentos das ruas da minha cidade são em empedrado ou asfalto.

Raramente de terra.

São ladeadas por passeios em betonilha, calçada portuguesa ou granito.

O estado das ruas é o reflexo do tipo de pessoas que as percorre.

2.
Nelas vemos vestígios do movimento das máquinas: marcas de derrapagens e travagens, sinais de borracha queimada, sulcos no pavimento.

Há ainda resíduos e indícios de abandono:

pontas de cigarros, embalagens, papéis, pastilhas elásticas coladas, frascos partidos, vidros estilhaçados, manchas de gordura junto a roulotes ou zonas de restauração, e ervas daninhas a crescer entre as juntas das pedras ou no alcatrão rachado.

E, em zonas escuras, podemos encontrar excrementos humanos ou de animais.

Também há passadeiras quase invisíveis, tampas de esgoto soltas ou desenquadradas do padrão da calçada, ou grelhas de bueiros entupidas de lixo.

3.
Há outro tipo de vestígios que não são visíveis a olho nu: os passos de quem caminha nas ruas e nos passeios.

Passos apressados, de quem está atrasado, ansioso ou em fuga (do tempo, de si próprio, dos outros?). Vê-se o corpo inclinado para a frente.

Passos leves, de gente feliz, de bailarinas, de crianças — ou até de poetas.

Passos pesados, de trabalhadores cansados, ou de quem carrega às costas o peso das mercadorias — ou da vida.

Passos arrastados, de velhos ou de doentes.

Passos parados, de quem espera, observa e hesita — tanto que não avança.

Passos verdadeiramente hesitantes, de quem está perdido, confuso, com medo ou vergonha.

Passos decididos, de um agente secreto ou de gente presumida. O corpo vai à frente dos olhos.

Passos perdidos, de quem não sabe para onde vai, sem rumo.

Passos discretos, de quem quer passar despercebido, quase a pedir desculpa por existir.

Passos de rotina, de quem percorre sempre o mesmo caminho: escola, fábrica, casa. Quase não olha para o chão — já o conhece de cor.

4.
Ao fim de algum tempo, os passos são apagados pela chuva ou levados pelo vento.

Os que resistem são encaminhados para os bueiros pelos jactos de água da limpeza urbana.

Mais tarde, podem ser vistos a vaguear sobre o rio Douro — ou até sobre o Atlântico — à procura dos donos.

PML

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