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A tentação de Santo Antão de Gustave Flaubert

A tentação de Santo Antão de Gustave Flaubert

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ELA

recomeça:

Dirige-te ao barro de Racótis, empurra uma porta pintada de azul; e quando estiveres no átrio, onde um repuxo de água murmura, uma mulher apresentar-se-á – num peplo de seda branca alamado de ouro, os cabelos soltos, o riso semelhante ao retinir de crótalos. Ela é hábil. Provarás na sua carícia o orgulho de uma iniciação e o apaziguamento de uma necessidade.
Também não conheces os problemas dos adultérios, as escaladas, os raptos, a alegria de ver completamente numa aquela que respeitávamos vestida.
Alguma vez apertaste contra o peito uma virgem que te amasse? Lembras-te tu dos abandonos do seu pudor, e dos seus remorsos que se iam num refluxo de lágrimas doces?
Consegues imaginar a cena, não consegues? Os dois caminhando pelo bosque à luz da lua? A pressão das vossas mãos entrelaçadas, um frémito percorre-vos; os vossos olhos, tão próximos, vertem-se de um para o outro como ondas imateriais; e o vosso coração; rebenta; é um suave turbilhão, uma embriaguez transbordante…

Tradução de Jorge Melícias, Minotauro, maio 2023, página 230

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