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Ao desafio com João Pedro Mésseder

Ao desafio com João Pedro Mésseder

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DEPOIS de lermos o “Pequeno Livro das Coisas” (Editorial Caminho) ficamos com tanta curiosidade sobre as coisas que quisemos fazer várias perguntas a João Pedro Mésseder. Enviámos-lhe dez questões difíceis, mas pertinentes, e ele não esteve cá com coisas: respondeu a todas. Leia a entrevista exclusiva e aprenda qualquer coisa sobre o falar-das-coisas. Por Paulo Moreira Lopes

Mas que coisa foi esta de falar sobre coisas?

Os objetos (certos objetos) atraem o olhar, seduzem, fazem sonhar. Muitas vezes pela sua beleza – ou fealdade –, extrínseca e/ou intrínseca. Mas sobretudo por quase todos eles terem gravada em si a marca do homem. Tomemos a espingarda, que é objeto de um dos poemas do “Pequeno livro das coisas”: bela e elegante e, simultaneamente, horrível. A bela horrível. Fabricada pelo homem para roubar a vida. Tal como o míssil, que aparece noutra composição: “Dentro de minutos, / com estrondo, / vai cair. / Quantos meninos / neste instante / ainda estão a rir?”

Todas elas têm uma história, meio escondida, para descobrir ou contar. Estou a pensar, por exemplo, no banco de jardim, que se exprime no poema mais lírico deste livro, ou no pisa-papéis, um “imprescindível” (à maneira de Brecht), de que se fala noutro texto.

Onde, quando e com quem aprendeu a falar das coisas?

Talvez na meninice, tempo de colecionar coisas preciosas e de com elas brincar: miniaturas de automóveis, de casas, de comboios, de animais. Talvez por isso, venha este livro falar agora desse falar-das-coisas aos menos crescidos, mas também aos mais crescidos que o queiram ler.

Talvez tenha aprendido a falar das coisas com companheiros de infância, com a Mãe, com os desenhos animados em que os objetos ganhavam vida… Ou, mais tarde, com os próprios livros (lembro Le Parti Pris des Choses, um clássico moderno de Francis Ponge). Mas que sei eu?

A bem dizer, é preciso aprender a escutar o que cada coisa, cada objeto tem para contar. E não é pouco.

Às vezes também fala com as coisas? E se sim, elas respondem?

Que eu tenha dado conta, só nos poemas. (Mas lembro uma tia velha, muito engraçada, que costumava falar com a vassoura, com o pano do pó, com os objetos que lhe caíam das mãos… E com os animais, claro. Talvez tenha aprendido com ela.) Acho que, por vezes, as coisas me respondem, sim, neste livro: por exemplo, o tapete (que deixou de ser mágico), a moderna varinha mágica (que, na cozinha, de facto o não é). Há, por vezes, certa mágoa na fala destas coisas. Mas também instantes de alegria.

No pressuposto de que as coisas lhe falam, as coisas a que se refere no livro têm reagido bem à publicação do “Pequeno livro das coisas”?

O relógio por exemplo – não sei se o mesmo de que falo num dos poemas – reage como sempre reagiu: medindo a inexorável passagem do tempo, do meu tempo. Como se dissesse: escreveste mais um livro, mas não penses que o tempo para só pelo facto de teres gravado na pedra (no livro) mais uns sinais.

Em seu entender, as coisas também chegam a um tempo em que não dizem coisa com coisa?

Talvez. As minhas velhas máquinas de escrever já não dizem coisa com coisa. Mas o meu primeiro Mac também não. E, no entanto, como continuam a ser belas essas velhas máquinas. Vi há uns meses, em Santiago de Compostela, uma assombrosa coleção delas, em exposição. Dir-se-á que já não dizem coisa com coisa, mas o seu valor afetivo e patrimonial é incalculável. E o que deixaram dito as máquinas de escrever de Fernando Pessoa. Precisaremos que digam mais, quando já tanto disseram?

Alguma vez se enganou a nomear uma coisa? Eu explico: pensou que era uma coisa e afinal era outra?

Sim, quase todos os dias. Freud chama-lhes atos falhados. Eu prefiro dizer que às vezes as palavras se nos adiantam e dizem-nos sem nós darmos conta. Mas também há coisas que precisam de outros nomes. Por exemplo, quando alguns estão a falar da coisa democracia, tal como hoje a conhecemos, aquilo de que falam é, na verdade, de uma ditadura económica (que obviamente é política).

Acha que a Rachel desenhou bem as coisas sobre que fala no livro ou será que podemos ter na mesma folha duas coisas: uma desenhada (da Rachel) e outra escrita (sua)?

A Rachel desenhou estas coisas maravilhosamente, por vezes numa espécie de cenários despojados à Antonioni, e com grande elegância. E mesmo quando existe maior divergência, há sempre um diálogo: entre a coisa escrita e a coisa desenhada. Iluminam-se mutuamente. Aliás a imagem da iluminação está presente no livro (vejam-se os desenhos das guardas). A Rachel traduziu muito bem a ideia de que existe uma busca, sempre inconclusa, da verdade escondida em cada objeto. Todos nós, logo desde a infância, deveríamos aprender a estar disponíveis para essa escuta.

Quando se esquece do nome próprio de alguma coisa chama-lhe coisa?

Às vezes sim. Mas tento não o fazer, não quero ser como certos ministros, para quem algumas palavras são quase impronunciáveis. Desemprego, por exemplo.

Se as coisas não se chamassem coisas que outro nome poderiam ter? Loisa? Objeto?

Acho que a palavra “coisa” tem uma beleza própria. É uma palavra simples e humilde, simultaneamente concreta e ambígua. Remete também para qualquer produto ou objeto saído das mãos, tão nobres, do homem. Uma palavra que todos conhecem, que se aprende desde cedo, na infância. Tem, por isso, uma dignidade própria. “Ai a minha casa, as minhas coisinhas!” – desesperam-se as mulheres do povo quando o fogo assassino do verão, lambida a floresta, lhes vem reduzir os pertences a cinzas. Como não amar esta pobre palavra?

Agora fez o “Pequeno livro das coisas”, o que seria para si fazer um grande livro? Teria mais páginas? O tamanho seria maior?

Os livros não se medem aos palmos. Há livros péssimos com centenas de páginas. E obras-primas de vinte ou trinta.

Para mim, escrever um grande livro (à minha escala, é nisso que penso) será sempre escrever um livro breve. Também por isso gosto de haiku, de aforismos, de greguerías, de provérbios, de microcontos. Pequenas coisas, em suma.

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“Pequeno Livro das Coisas” vence prémio BISSAYA BARRETO, ver notícia do prémio aqui.

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