COM uma infância passada na Rua do Paraíso, no Porto, Zilda Cardoso diz que nunca se interessou por seguir uma carreira de escritora, que achava redutora. Queria fazer outras coisas: “conhecer o mundo, mostrá-lo e modificá-lo, melhorando-o para ficarmos bem nele”. O que, à sua medida, acabou por conseguir. Licenciou-se em filosofia para aprender a pensar, por isso não é de admirar que entenda que o mais importante não são as respostas, mas as perguntas que fazemos. Mantém um blogue desde 2008 (O fio de Ariadne), onde procura seduzir os leitores pela maneira como escreve. “É quase um jogo”, conclui.

Consegue identificar o momento em que começou a sentir prazer na leitura e depois na escrita?

Não sei bem, mas calculo que começou a agradar-me a leitura quando verifiquei que havia um mundo fascinante a que não tinha acesso senão dessa maneira, pela leitura de quem o descreve. E refiro-me não apenas a lugares, mas também a temas. Começou a interessar-me conhecer o mundo e não era tão fácil viajar como ler as respectivas reportagens escritas.

Escrevi muito sobre viagens. Apanhava o melhor, o mais divertido, o que era diferente, o que poderia despertar a curiosidade dos outros como tinha despertado a minha. E talvez esses soubessem mais desse tema, sabiam com certeza mais. E felizmente para nós decidiram dá-lo a conhecer. É a minha vez de o mostrar a outros.

Era com certeza muito, muito jovem…

O gosto pela leitura e pela escrita foram constantes ou tiveram altos e baixos?

O gosto pela escrita e pela leitura foram constantes. Não podia haver motivo para altos e baixos. O meu interesse era real, profundo e justificado.

Em algum momento se sentiu tentada a desenvolver uma carreira como escritora?

Nunca me interessou escrever com essa finalidade, que era redutora, lembro-me de pensar nisso… Queria fazer outras coisas que para mim eram igualmente importantes: conhecer o mundo, mostrá-lo e modificá-lo, melhorando-o para ficarmos bem nele.

Tem algum lugar especial para a escrita? Se sim, como o descreveria? É uma ilha, uma cela, um santuário?

Tenho alguns lugares especiais para a escrita, são lugares tranquilos. Pode ser a minha varanda sobre o mar, apesar do ruído do movimento do trânsito. E pode ser o jardim de Moledo, desenhado por A. Siza. Em tempos, tive uma coluna num jornal diário (o Janeiro ou o Comércio) onde todas as semanas falava no ruído do trânsito na Avenida, onde as pessoas vêm passear supostamente em sossego. Mas não o têm. Foi há muitos anos e não me parece que tenha tido eco essa ideia…

No jardim da Casa da Eira em Moledo do Minho foram criados sobretudo poemas. Sofria com cada mini-agressão à flor ou à árvore…

E quanto à sua biblioteca, como a descreveria? Está mais próxima de uma ideia de “cosmos” ou de “caos”? Como a organiza ou desorganiza?

A minha biblioteca está organizada de forma artesanal. Tenho fichas com o número do lugar: a prateleira está dividida em cinco temas principais – a Filosofia, os Escritores Portugueses, os Escritores Estrangeiros e Críticos e Teorizadores da Literatura, muitos na língua original; depois ainda a Genealogia.

Tem de haver um pouco de cosmos, senão não me entendia…

Considera-se uma bibliófila?

Bibliófila? Não, não sou…

Tem uma rotina de escrita, rituais?

Não, não tenho rotina, mas há dias e lugares mais propícios. Moledo – Casa da Eira é um desses lugares de preferência. É um lugar tranquilo, a luz, o espaço, e o céu que é mais alto e mais azul, as nuvens mais bem desenhadas, as plantas que estão bem umas com as outras e eu com elas. E, sabe, eu falo com elas, elas não se importam de me dizer o que sentem… Uma vez dei uma entrevista para a televisão no Outono, sobre os jardins e os castanheiros…

Na eclosão da escrita ou poesia, qual o papel das leituras e das outras artes? As viagens são também importantes?

O papel das leituras, sobretudo,  é importante. Leio muito os livros de Steiner, filósofo de origem alemã, genial e sensato, que para mim é inspirador. Também aprecio Eduardo Prado Coelho, Eduardo Lourenço, Roland Barthes, M.Gabriela Llansol, Lispector, Mia Couto, Ruben A., …

O seu percurso biográfico tem como referências lugares como o Porto e Caminha, entre outros, a que associará, naturalmente, tantas memórias pessoais e culturais. Considera que esta circunstância é determinante para a sua escrita?

Gosto do Porto, que é o lugar onde nasci e me conheci e à minha família, de onde são as primeiras memórias, onde frequentei a primeira escola, a Igreja e conheci as primeiras figuras inesquecíveis, pessoas extraordinárias… Recordo sobretudo a Rua do Paraíso, tão específica, que considero determinante na minha formação.

Revê-se em alguma família literária? Sente que há afinidades electivas com alguns autores? Venera heróis literários?

Não creio ter afinidades electivas com alguns autores. Nesse aspecto, ligo-me mais aos músicos, aos clássicos… fiquei-me por esses.

Quando sentiu que na sua vida não prescindiria da literatura e da poesia?

Nunca senti…

Valeu a pena esta opção pela palavra? Alguma vez se imaginou fora do mundo das palavras?

Valeu a pena… Sinto-me bem, realizada e fiz outras coisas que também considero importantes, como dar oportunidade ao Design Português e aos Pintores Naifs e aos jovens artistas acabados de sair da Faculdade e a desejar oportunidades.

E criei uma família – sabe, já tenho uma bisneta de um ano e meio… É tão divertida, ela… Imagine,  está a aprender 3 línguas! Sem problemas…

Considerando a intervenção muito activa e empenhada em jornais, podemos entendê-la como uma necessidade de querer mudar o estado das coisas ou era somente uma forma de reconhecimento públic0?

Sim, queria mudar o estado das coisas, em primeiríssimo lugar… Colaborei em jornais diários porque queria isso mesmo – mudar o estado das coisas, por exemplo a decoração das casas portuguesas e sobretudo o estatuto das mulheres… Foi uma época muito interessante…

Já quanto à vertente de divulgadora de artes plásticas e design, como a conciliava com a atividade da escrita?

Escrevia durante o tempo todo, enquanto lançava e divulgava o design português para decoração de interiores. Fazia exposições e escrevia para as divulgar, inventei as montras de design e escrevia com o mesmo fim. Consegui interessar alguns jornalistas nos pintores naïfs e nos jovens artistas. A Galeria Vantag estava sempre aberta aos artistas e arquitectos, aberta às suas ideias e realizações e aberta também para os receber presencialmente.

Acha que o sentido estético que foi apurando influenciou ou determinou o sentido ético que vem pondo na vida?

Um sentido estético natural, se assim posso chamar, desenvolveu-se na geração anterior à minha, sem escola. Na minha geração fui felizmente influenciada pela artista/educadora Elvira Leite, sendo muito e devidamente reconhecidos, nos últimos anos, o seu excepcional talento e empreendedorismo. Da artista/educadora/formadora condecorada pelo Presidente da República, homenageada em exposições em todo o mundo, muito tem sido falado e continuará.

Para quem a segue na blogosfera (postagens desde 2008),  é notória uma inquietação permanente que se traduz no questionamento da vida, apesar de se mostrar uma pessoa bem resolvida consigo mesma. Foi sempre assim ou acentuou-se com a passagem dos anos?

Desde sempre, desde que posso lembrar-me, me disseram que tinha um olhar sereno. Isso está escrito em livros de fim de curso. O que deixa supor que sempre soube o que queria, soube que podia alcançá-lo e não queria ir além disso. Continuo a não querer… Mas talvez esta sabedoria ou sapiência tenha crescido com os anos.

Podemos afirmar que sente mais prazer em questionar do que em obter a resposta? Será a sua deformação filosófica?

Não se trata de prazer. Calculo que o importante é a investigação que antecede qualquer pergunta. As respostas são sempre incertas, não há perfeição, não há valores absolutos, não há verdades. Então as perguntas que podemos fazer é que serão importantes. Vão tocar em problemas talvez desconhecidos e, por isso, poderemos ir mais longe.

Agora que falamos de filosofia, porque optou por este curso e não pelo curso de Letras?

A questão para mim não era aprender a escrever, mas aprender a pensar. Então, os filósofos podiam ajudar-me muito mais.

E no curso de Filosofia optei por disciplinas específicas, como Teoria da Literatura, Linguística, Semiótica. Foi-me extraordinariamente importante a disciplina de Teoria da Literatura, com o professor José Augusto Seabra, e a de Semiótica, com a professora Norma Tasca.

A publicação na internet ao longo destes anos permitiu-lhe idealizar um leitor-tipo que a vem seguindo?

Leitor-tipo todos temos…

Sempre apreciei interessar outros leitores, além dos leitores-tipo, os mais jovens, por exemplo- nunca escreveria para mim mesma… Interessa-me conversar, escrevendo. Interessa-me falar para aqueles a quem ainda posso dizer alguma coisa útil ou interessante. Não é apenas diversão ou para preencher horas vazias… Escrever para si mesma só, não seria desperdício? Só não seria desperdício como uma forma de registar, para repetir, para atingir mais tarde outras pessoas.

Outras pessoas existem, devo procurá-las, há sempre outros leitores. Interessa-me escrever para elas e procuro seduzi-las pela maneira como escrevo. É quase um jogo…

 *

Ao desafio com Zilda Cardoso
baseado em frases recolhidas no livro da autora Da minha varanda (2021)

Além da janela-de-ver-o-mar que outras janelas tem?

Motivadoras? Tenho as da Casa da Eira, em Moledo. Do quarto desenhado para mim com grande banheira, uma espécie de mini-piscina donde veria o jardim. Foi um dos meus pedidos ao arquitecto: tinha que ver o jardim enquanto na banheira.

Tem a certeza que alguém anda a acelerar o relógio do tempo?

Não, que ideia! Porque motivo?

Estar só também dói?

Dói muito, muitas vezes. Mas não sempre. Por vezes, é mesmo um desejo. Um desejo de silêncio. Por vezes, gosto muito de estar só, em silêncio.

Tem o costume de abrir a janela como que a convidar as andorinhas para entrar?

Sim, às vezes entram. Gosto de as compreender. Só não aprecio os ninhos delas nos lugares que eu tinha reservado para mim. Porque são muito poluidoras.

Já encontrou resposta para a pergunta: por que gosto da vida?

Apenas tenho esta vida. É melhor gostar dela.

Por mais que os meteorologistas digam que choverá, ainda confia que esteja sol?

Sim, sempre. Não gosto de meteorologistas, sabe… Eles prognosticam chuva só para nos arreliar.

Diz que se deixa viver e deixa que os outros vivam. Continua feliz com este arranjo?

Sim, é um arranjo sensato, não acha? Não leva a conflitos.

O que tem feito para ajudar a não desalinhar o mundo mais do que ele está?

Vivendo como vivo. Sem desejar mais do que posso estar habilitada a alcançar.

Quando é que escolheu o papel de fazer perguntas?

Quando? Quando nasci não conhecia nada do mundo. Logo depois comecei a perguntar aos que já cá estavam e sabiam mais. Depois percebi que eles não sabiam grande coisa. E, por isso, eu não fiquei a saber…

Ainda se pergunta se será ou não capaz de escrever o que está a pensar?

O problema será o continuar a pensar. Escrever é uma técnica que se aprende na escola e que se pode aperfeiçoar mais ou menos. Creio que nenhuma escola ensina a pensar.

De vontade, escreveria para ninguém ler?

Era mais simples, muito mais simples. Simultaneamente ocorrem-me muitos pensamentos, como resposta.

Talvez se não pensasse na reacção de quem lê… escrevesse doutra maneira mais descontraída. E poderiam ser coisas inéditas e mais valiosas.

Todos os dias deseja coisas perfeitamente impossíveis?

Estarei feliz enquanto desejar coisas perfeitamente impossíveis. É isso que me pode levar mais longe.

É possível que a cor dos olhos de quem vê impressione a cor do que é visto?

Que acha? É uma hipótese. Dá-se tanta importância à cor dos olhos. Será apenas esteticamente… Lembro-me sempre do Camões:

Verdes não o são
No que alcanço deles;
Verdes são aqueles
Que esperança dão.

Gosta de dizer o que pensa e de pensar que o que diz é a verdade?

Gosto. Mas como reconhecerei a verdade se a encontrar? Mas como nunca encontrei a verdade, nem ninguém, nunca tenho a certeza…

Quando escreve quer ser entendida?

Sim, gostaria de ser entendida, se possível. E se possível… de diversas maneiras. O que pode dar lugar a discussão e a novas perguntas. Logo, ser mais interessante.

A última e derradeira pergunta: o que fez para merecer tantas regalias?

Apenas nasci. E quando abri os olhos… olhei em frente.

Estava tudo aí. Apenas tenho tentado manter.

13 COMENTÁRIOS

  1. Gosto muito do seu inconformismo e curiosidade! Acredito que são características que podem ajudar a mudar o mundo, pelo menos o pequeno mundo à nossa volta, o que já é muito. Obrigada por partilhar os seus pensamentos.

  2. Esta entrevista tem conteúdo muito interessante.
    Gostei muito de conhecer ainda melhor esta grande senhora.Parabéns e obrigada Zilda por se ter deixado conhecer.

  3. Sempre provocadora (no bom sentido). Admiro a forma de “espicaçar” todas as cabeças e assim, contribuir para o arejar do conhecimento. Depois vem a escrita, de quem não se afirma como escritora mas, escreve de forma simples, sublime e apaixonante. É sempre um prazer ler o que escreve. Mesmo os recados manuscritos, às vezes, quase indecifráveis.
    Grande Senhora…excelente entrevista…!

  4. Parabéns pela excelente entrevista. A minha admiração é incondicional: como pessoa, ser humano, escritora, mulher, pela idade e discernimento. Continue a escrever assim e a despertar leitores.

  5. GRANDE SENHORA.
    Apreciei mto a sua entrevista, bem como os seus livros “Da minha varanda” e “Rua do Paraíso “.

  6. A sua formação em filosofia marca -a meu ver- todo o Seu percurso de vida e portanto todas as Suas respostas . Parece-me que isso transparece bem na maioria das mesmas.. A começar por afirmar pretender melhorar o mundo (que percorreu como ninguém mais, das minhas relações) A sensibilidade que revela, está bem patente no interesse pelas artes ao implementar as galerias em que deu oportunidades não só aos jovens como aos naifs, que geralmente poucas têm de se mostrar. O Seu indiscutível gosto pela escrita, ficou também bem explícito nas Suas respostas cujo conjunto faz desta entrevista um espelho da personalidade da entrevistada. A.Q.

  7. Gostei de ler a interessante entrevista, que me conduziu para tempos idos, vividos pelas duas, eu e a minha prima Zilda. Recuando no tempo, recordo que pelos seus 20 anos, foi considerada, pelos rapazes portuenses, a rapariga mais bonita da cidade. Zilda nunca valorizou isso, mas eu, cinco anos mais nova, embora na atualidade não se sinta essa diferença, ficava feliz por ter uma prima tão apreciada. Para além de bonita era inteligente e percorreu caminhos que o demonstraram. Também foi uma das primeiras mulheres a usar calças compridas como os homens e a sua casa era mobilada de modo bem diferente do habitual! Zilda tinha ideias, sobre a vida, avançadas para a época e era estudiosa.
    Muito mais tarde, já adultas, convidou-me a participar nos dois projetos já mencionados e foi a partir daí que, quando chegaram ao fim, nos afastamos um pouco porque a vida seguida por cada uma era muito absorvente. Mas, agora fico a aguardar mais trabalhos seus, nomeadamente pinturas, poemas… já que neste livro mostraste essas valências artísticas. Bem hajas Zilda e muitos parabéns por seres como és.

  8. Ao longo da minha vida fui seguindo a tua escrita. A princípio com curiosidade e lentamente acompanhando com mais interesse o que tinhas para nos mostrar desta vida, coisas que nos estão tão perto, mas por vezes passam ao nosso lado sem as vermos. É bom que haja alguém que nos ajude a sair da nossa letargia e nos faça ver coisas interessantes e tão diferentes do nosso mundo.
    É com todo o interesse que continuo a esperar a divulgação dos teus sempre tão frescos e joviais escritos, que tão boa companhia nos fazem nesta vida.
    Parabéns Zilda. Continua sempre em frente.

  9. Uma vitalidade permanente no pensamento interrogativo… espanta pelos seus desejos de ver para além da varanda… esta apenas como pretexto para dizer ao Mundo o que lhe vai no pensamento; e este vai muito para além do Mundo óbvio! São estas constantes surpresas sobre uma visão interrogativa, ou, por vezes, afirmativa sobre o Mundo que nos surpreendem e nos levam a ler sempre um pouco mais dos seus textos. É, nesse sentido, um pensamento provocatório de algo, não no sentido da provocação, mas no do espanto perante a afirmação, o tema ou a questão. A varanda, em si, nada diz, mas tudo mostra sobre o mundo de Zilda Cardoso, que é o mesmo onde habitamos e por isso nos entusiasma a sua leitura. Como diz a autora na entrevista, veio ao mundo para perguntar, para saber mais… e vamos descobrindo que há sempre quem nos possa dizer um pouco mais… é o caso “Da minha varanda”.

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