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Rua da Estrada Moderna

Rua da Estrada Moderna

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TUDO o que possa representar ou evocar um sinal que seja do caos, das coisas desalinhadas dispostas em lugares aleatórios, é anti-moderno. O moderno é claro e luminoso, não admite sombras e rugosidades. Crenças, mistérios ou encantamentos são coisas pretéritas e nevoadas.

O moderno é o progresso, o novo, a contínua palpitação das coisas na sua marcha ordenada para um mundo perfeito que verdadeiramente possa ser um mundo onde os outros mundos se desintegraram e se dissolveram por tão desorientados e confusos terem andado dissipando energias a marcar diferenças, lugares únicos, maneiras distintas de fazer o laço aos atacadores ou o nó das gravatas como mandava a tradição.

A modernidade vive mal com diferenças, fronteiras e sistemas à medida. Atordoa-se com excesso de coisas misturadas, gastas, erráticas. O moderno é científico, frio, transparente, organizado. Os compartimentos devem estar separados, as entradas e as saídas diferentemente assinaladas, cada coisa deve restringir-se à sua calha, à sua função, ao lugar que a engrenagem do sistema lhe reservou. Toda a beleza do imprevisto e da liberdade de pisar a norma são enganos. Existem regulamentos e manuais de instruções para que a perfeição se consuma em geometrias puras, espaços ordenados, ambientes limpos, abstracções e gestos claros. Tudo o mais é supérfluo.

Apreciamos as máquinas; as formas secas, as funções definidas, os movimentos silenciosos, a energia controlada, a emoção do automatismo, da robótica, maravilhosas filigranas de circuitos impressos, finíssimos cabos como cabelos, ultrassons e micro-ondas. Só a medida, a precisão e a geometria nos pode resgatar dos pântanos e do lamaçal.

Somos radicais, emancipados. Alimentamo-nos da vertigem da inovação sem a qual o progresso estiola. Podemos até fazer filmes completamente negros, telas vazias e músicas de absoluto silêncio. A arte é autónoma, esgota-se na sua materialidade, nas formas, nas superfícies, nos volumes, no som, na luz, na abstracção.

Por isso fizemos jardins modernos na Rua da Estrada. Plantas dispostas rigorosamente em linha, brotando directamente de um padrão geométrica de linhas, superfícies e ângulos construído com gravilha de três cores, castanho, branco e cinza como o asfalto. Rigorosamente desencantado. Veio um canino em urgências mictórias, deu quatro voltas ao dispositivo, cheirou meticulosamente todo o canteiro em forma de saboneteira alongada, olhou a estrada desimpedida, atravessou rapidamente para o outro lado e aliviou-se à sombra contra o muro.

SOBRE O AUTOR:
Álvaro Domingues (Melgaço, 1959) é geógrafo e professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto, onde também é investigador no CEAU-Centro de Estudos de Arquitectura e Urbanismo. É autor de A Rua da Estrada, Vida no Campo e Volta a Portugal. Colabora com o Correio do Porto desde janeiro de 2015.

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