NAQUELE lugar ouvia-se ao longe o som de um piano e tudo em redor irradiava encanto. A sonoridade nascia das janelas abertas de par em par de uma secular mansão edificada num monte sobranceiro e quase suspensa sobre as água do rio Douro. Os cortinados de branco linho bordados com finíssimas rendas, baloiçavam ao sabor da brisa e do compasso das notas musicais  eclodindo numa estranha e suave dança, como se fossem caricias ternas a desprenderem-se sobre  a transparência das águas e da majestática e infinitamente bela configuração das vinhas.

Sentada no miradouro de Casal de Loivos tu dizias:

– Daqui podemos ver a Quinta das Carvalhas ali em frente. Já lá fomos os dois uma vez, lembras-te?

Lembrava-me, nunca esquecia esse dia que marcou para sempre as nossas vidas.  Visto lá do alto, o rio parecia  uma serpente a arrastar-se vagarosamente, lúcida a água reflectia o sol e ouvia as vozes dos que ainda acreditam nos sonhos.

Seguia-se um suspiro que vinha do mais fundo da tua alma  emocionada. Eu olhava para ti comovido. Cercado de beleza, era ao teu encontro que os meus olhos caminhavam abstraídos da paisagem, de todas as paisagens  e de todos os pormenores que sobressaltam e arrepiam  quem olha a maravilha daquele  quadro natural. E depois a música, os acordes a virem ao nosso encontro, a pincelar com as cores que o amor inventou, a frescura jovem do teu sorriso. Era como se o tempo nesse dia tivesse parado nos teus olhos e o largo horizonte que se nos deparava, fosse cristal liquefeito pelo marejar que deles emergia. A belíssima melodia sonorizava o mundo em teu redor. Das profundezas das águas e das entranhas da terra, nasciam torrentes de afectos abençoados por todos os deuses enquanto que aquela manhã florida despontava frágil e linda nos dedos dos teus cabelos e perdia-se nas quebradas dos montes como suspiros da terra onde cresciam deliciosos beijos

Ainda me lembro de ti depois dos últimos acordes da sonata mágica, do silêncio doloroso que restou e do fascínio sedutor com que Beethoven nos enfeitou aquele antigo e inesquecível instante. Recordo-me sim à mercê das saudades que nem o tempo nem as rugas que me nasceram no rosto conseguiram apagar. O que fugazmente nos uniu, o elo que nos ligou como amarra que segura firme um barco, foi um sentimento que nunca será esquecido, um sentimento poderoso de cujas lembranças permanecerão no meu pensamento para todo o sempre.

Voltei ao Douro depois destes anos todos de ausência. Procurei nos sítios por onde passámos juntos algumas das recordações de outros tempos que me consolassem nessa hora de redenção e de infinita tristeza. O solar, o rio e as vinhas permanecem lá tranquilos a testemunhar os mistérios do passado. O velho piano repousa silencioso no salão maior da casa da quinta. Os cristais antigos, depositados nas mobílias de século, já não vibram nem cintilam no bailado sonoro daquelas teclas alvinegras que criavam efeitos musicais de sonho. Quem um dia as afagará de novo e fará renascer mais uma vez  o romance e a risonha Primavera em cada sonata tocada junto ao rio? Talvez num outro tempo se recupere o palco onde o amor representou a nossa última cena e outros jovens como nós evoluam no natural anfiteatro rodeados de vinhedos trocando juras de amor e beijos ternos muito pertinho da água ao som de uma outra composição musical tão especial e linda como a nossa. Nenhum de nós decerto estará presente nesse dia porque alucinados nos perdemos no percorrer da dolorosa estrada da vida. Se olhasses hoje para mim decerto não me reconhecerias mas há sempre uma luz magnifica nos olhos dos mais velhos que guia novamente aqueles que alguma vez se cruzaram com ela. Recordo-me de ti meu derradeiro momento de loucura e daquela canção de amor tão doce do passado que nos fez estremecer intensamente o coração. Quando o vento sopra sobre a água do rio, vejo a tua imagem adorada nela reflectida e julgo ouvir de novo, ao longe, um piano a rezar muito baixinho. Eternizaremos este silêncio que a música nos lembra, porque o amor que uniu  as nossas almas o merece.

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here