DIÁRIO DE BORDO
(Terça-feira, 02 de Julho de 2013, 14,30 h)

A altas horas da madrugada, saltava da cama para navegar, remando até Campanhã na cidade do Porto, num barco Rabão carregado de carvão antracito. O vento frio uivava como um cão, na fugaz penumbra da noite escura como breu.

Minha falecida esposa sofreu muito. A dos meus companheiros casados, também. Nós, barqueiros, nunca tivemos horários de trabalho para tirar partido das marés. A qualquer hora do dia ou da noite, com qualquer tempo que fizesse, tínhamos de cumprir com a nossa missão. Ela ficava a cuidar sozinha de um bando de filhos.
Muitas vezes, desesperada por me ver partir para o trabalho, dizia-me:

– Lá vais tu para os braços daquele rio de mil feitiçarias! Que é que ele te fez, homem, que corres para ele como um tolo corre para os braços de uma amante?

Dizia aquilo na sua inocência, ela sabia que nunca tive mais ninguém para além dela, que o amor que eu lhe tinha, ainda o tenho hoje guardado aqui no peito.

Com os dedos da mão direita abertos, palpou o peito no lado do coração. Suspirou fundo e eu comovi-me ao vê-lo indefeso, vergado sobre a sua própria história. Só, sem ninguém que o pudesse ajudar num momento tão crítico de confrontação com a sua própria vida, instante que o fez desenterrar lembranças que doem na alma e não existe nada que possa apagar semelhante sofrimento.

Visivelmente combalido, limpou as lentes graduadas dos óculos, e de seguida os olhos com um lenço que segurava nas mãos a tremer. Depois continuou a narrativa.

Éramos muitos e ainda jovens, na casa dos quarenta. Íamos todos contentes a caminho do desconhecido. Não era só pelo pão que se ganhava a transportar carvão e que alimentava os filhos e a família. Era uma paixão, um amor tão grande, que fazia ciúmes às nossas próprias esposas.

Dávamos tudo por ele, numa camaradagem sem igual, oferecíamos-lhe as nossas vidas a sorrir. O suor do corpo, a força dos braços, os amores e os prazeres da carne em troca de nada, apenas pela aventura desta afeição que ainda conservo, por um pedaço de rio. Fomos uns cegos, companheiro! Homens desnaturados, porque ele nos enfeitiçou e enlouqueceu como mais ninguém o conseguiria fazer.

Mas era lindo navegar nos braços da morte, desafiá-la todos os dias e todas as noites, e por fim vencê-la em glória.

Alguns ficaram por lá, coitadinhos, mas aquilo não foi morrer, foi subir feliz ao céu, nos braços de um anjo.

Os olhos cansados do Arrais adquirem um magnífico brilho de luz, quando fala da sua paixão pelo rio. Esse amor antigo, incompreensivelmente infame e louco, ainda vive no coração deste velho marinheiro do Douro.

Já não está entre nós, infelizmente! Ele e quase todos esses guerreiros do impossível. Levou-os o vento da barra que, no seu eterno soprar, devasta o rio e agita os barcos, em tempo de fortes tempestades.

Como quem guarda carinhosamente a ternura do último sorriso de uma gaivota, curvo-me respeitosamente perante a memória de Manuel Rodrigues Teixeira. Um amigo e companheiro de fantásticas viagens no rio. Reponho as suas palavras ditas e ouvidas, durante dias e dias de mútuas confidências na taberna do “Melindra”, em Santiago de Melres, a dois passos da água do rio Douro. Curso líquido e doce, senhor de todos os feitiços, a quem ele amou até ao último sopro de vida.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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