DEPOIS dos oitenta já muito pouco ou mesmo nada pode fascinar um homem. As circunstâncias da vida vão moldando o carácter, atenuando comportamentos, suavizando os anos, os meses  e os dias e até modificando as feições do rosto ao ponto de um ser humano ficar praticamente irreconhecível. Perdem-se no percurso sinuoso dos tempos os tumultuosos apelos da carne, as vastíssimas fantasias da mente, as forças dos músculos, a rigidez dos ossos, a vontade de viver e até afrouxam as correntes que nos prendem ao mundo. Depois de velhos, é rara a lucidez e, nos labirintos do cérebro onde tudo se armazena, tornam-se frequentes os curto-circuitos que deformam a realidade, alteram a forma de pensa, provocando angústias e medos indivisíveis.

Não se sabe para onde vamos depois de terminada a nossa passagem pela terra como nunca chegaremos a saber de onde viemos. Esses irritantes mistérios deixam-nos petrificados e demasiado frágeis perante o rapidíssimo evoluir da civilização. No curto espaço de uma vida somos sujeitos a uma aprendizagem contínua, massificada e à dolorosa adaptação a métodos e filosofias de vida que não conhecíamos antes e nos dizem constantemente terem sido adoptadas para nossa exclusiva felicidade num engano tão óbvio que perturba ainda mais pelo constatar de que quem nos prega tão imbecil doutrina, nem se quer sonha que esse estado deslumbrante de um ser, não se adquire tomando punções mágicas nem se vende nas farmácias, nos hipermercados nem mesmo pela Internet. A felicidade de um ser é o equilíbrio do corpo e do espírito.

Se a maioria de nós se deixa prender nesse frenesi incontrolável, outros, decerto a minoria qualitativa que ainda pensa, prefere seguir o padrão da tranquilidade tendo sempre como referência aquilo que foi na meninice e juventude mantendo-se consistentes e inabaláveis aos apelos de uma sociedade mais mecanizada que humana onde só os espertos, os larápios e os beneficiários de estatuto de diferentes, conseguem sobreviver embora infelizes.

Depois dos oitenta o corpo inicia a inclinação à terra, verga-se ao apelo do chão como centenária árvore que perdeu as raízes e só aguarda um golpe de vento para tombar vencida.

Todos morremos sem dignidade por que na morte ela não existe. Os pobres, os ricos, os espertos, os tolos e até mesmo os pensadores, os contadores de histórias, só em vida podem ter esse titulo de nobreza ou atributo moral. A morte é pois uma coisa má, indigna, decerto a pior de todas as coisas.

Acabou tudo quando o Abade Aniceto derramou em cruz a última água benzida em cima do caixão ao mesmo tempo que apressado encerrava a encomenda da alma deste pobre homem a Deus. As flores, aquelas que nunca teve em vida oferendadas, cobriam agora o esquife amontoando-se mortas como num dia de Santos, transpondo as barreiras do exagero numa inutilidade gritante a lembrar aos vivos o que é a fantochada dos seus hipócritas e corriqueiros hábitos fingidores dos mais puros e idolatrados sentimentos.

Mal sabiam estes desgraçados acompanhantes do féretro onde repousavam os restos mortais do contador de histórias, que neste preciso momento se iniciava mais uma alucinante volta na roda gigante do carrossel das suas atarefadas vidas e que estas flores, ou outras iguais iriam, mais dia menos dia, mortas também, fazer parte do cenário cómico das suas próprias mortes. Não há forma conhecida de escapar ao incidente inevitável então, ignorando a comum fatalidade, num rasgo de perícia teatral assustadora, assumem a postura de gatos-pingados transformando o desenlace num mero e chato acontecimento a que por obrigação têm de assistir, mostrando-se todavia aparentemente infelizes com a perda. O morto já com oitenta e nove anos feitos hoje seis de Outubro deste ano sem graça, já pouco ou nada ambicionava deste presépio que teima em se fazer sinistro e frio onde os rostos mais representativos da sociedade, deixaram há muito de retratar as de éticas  e sensatas do longínquo passado. Tinha perdido tudo aquilo que transformou em esperança na roleta da existência, no jogo sujo de uma humanidade demasiado materialista, despersonalizada e má, que nunca soube e tão cedo não vai quer saber com quantos paus se faz uma canoa, entregando-se de alma e consciência na mãos dos tiranos que circunstancialmente comandam a embarcação deste mundo e, julga-se que decepcionado se deixou morrer. Foi-se na que julgamos a sua hora, precisamente no dia do seu aniversário, apagando-se lentamente como pavio de vela a quem falhou a cera, na serenidade impressionante de nenúfar ao sabor das tímidas correntes de um qualquer rio algures em Trás-os-Montes ou no Alto Douro.

Finou-se ali no alto da colina mirante perpétuo da sua vida lançando um último olhar sobre o rio dos seus sonhos, cúmplice das suas estuporadas alquimias como quem se despede dos segredos, sorrisos e carícias doces de adorável amante ou como se fosse andorinha que rasga em alto voo um horizonte infinito a caminho de outras diferentes e novas primaveras.

Tudo o que de luzidio tornou a sua vida, jaz em campa esquecida, derrubado mais pela transformação do mundo do que pela inevitabilidade da morte, como espólio de antiga batalha em que só este guerreiro sobreviveu para vir cair hoje aqui desamparado como se também fosse ele parte integrante das nobres, ínclitas e também infelizes personagens das tantas histórias que nos contou.

Acabou! A morte redentora fez o seu trabalho e leva nas lívidas mãos o que resta deste homem. Baila neste ar cinzento de Outono esse fantasma de gente que se recusa a partir nessa estonteante viagem sem antes, num descaramento macabro, narrar a sua própria morte.

Erro colossal! O que o faz ficar mais uns segundos a pairar sobre a terra, para além  dessa recusa de partir que sabe impossível, é ter percebido a tempo, no último sopro da existência, que afinal a vida é toda ela uma ilusão e que muito mais que a soma de pequenos gostos e grandes desgostos é uma mentira, tudo uma mentira.

Olha-os um a um os seres vivos que taciturnos imitam na perfeição a mágoa da sua perda, como quem finalmente percebeu a comédia colectiva do mundo, a inutilidade em que se transformam as relações mais sentidas, as grandes amizades, até o amor e outros mais enérgicos afectos que julgamos eternos. Deixou de compor, deixou de sonhar mas aquele já perpétuo sorriso na cara gelada, indicia o gozo de quem finalmente encontrou o caminho da verdade absoluta e pensa voltar quando Deus lho permitir. Deixou-nos uns livros e um rio que transformou em flores.

Que descanse em paz entre os esplendores da luz que ele não deseja perpétua, ámen…

Publicado originalmente in Contos do Douro

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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