OS SONHOS são esporádicas fugas no processo de arquivamento da informação no cérebro de qualquer das criaturas mortais. Ocorrem quando o corpo se encontra em repouso absoluto após um período de vigília desgastante ou por outros motivos ainda inexplicáveis. A máquina orgânica reduz consideravelmente os parâmetros exigidos em estado normal para volumes de simples sobrevivência, condição que se assemelha à morte aparente. Todavia o cérebro mantém em funcionamento os órgãos vitais do corpo e delicia-se a conjecturar sobre como seria a criatura se fosse ele o único a comandá-la livre de influências de terceiros e da ansiedade com que vivemos neste mundo. Nesse estado letárgico que a pessoa não controla, afiguram-se situações aparentemente reais, simulam-se outras de carácter fantástico que em estado de alerta seriam impensáveis. Percorrem-se lugares desconhecidos e nunca antes por nós visitados, fala-se com pessoas que nunca existiram, tudo acontecimentos que ultrapassam de longe a limitada compreensão humana. É difícil morrer-se num sonho, quando tudo se parece conjugar para a nossa individual extinção, os miolos tocam a rebate, despertam o corpo da letargia em que estava e acordamos de imediato suspirando de alívio.

O primeiro sonho que o Amílcar teve, guardou-o numa caixinha de fósforos vazia que o pai lhe deu para brincar. Era um sonho pequenino, tinha a ver com beijos e abraços de ternura que a mãe o presenteava quando ainda bebé, despertava dos sonos de menino. Foi em cima do armário da cozinha que guardou essa pequena caixa de magia. Lembra-se que teve de subir acima de uma mesa para poder colocar esse cofre atrás das panelas grandes que raramente eram usadas, só em casamentos, comunhões e baptizados, quando a família se reunia em volta da mesa grande da cozinha. Guardo-a lá, embrulhada num pedacito de jornal velho e continuou a sonhar.

O segundo sonho, era uma pouco maior, tratava-se de uma fantasia com uma bola, que tinha um rio, homens e mulheres lá dentro a quem, ele e os companheiros de escola, davam pontapés e atiravam ao ar e para bem longe. Enquanto a bola subia no ar, ele ficava a pensar porque é que os homens e as mulheres que estavam dentro da bola não se importavam de andar aos saltos, atirados de lado para lado e não fugiam de dentro dessa esfera. Então, nesse mesmo sonho comparou-a com   o mundo que era uma bola, com rios e homens e as mulheres lá dentro e ficou feliz por lhe poder dar pontapés e brincar com a bola que no sonho, apesar de ser igual a uma bola, agora representava o mundo.

Esse sonho tinha personagens verdadeiras e conhecidas dele misturadas com algumas que lhe eram estranhas e demasiado feias para o seu gosto, de corpos transfigurados como se fossem espectros.

No decorrer do sonho enquanto a bola subia no a,r ele via as pessoas a serem projectadas umas de encontro às outras no espaço vazio, lá dentro da bola. Depois a bola caía no chão com grande estrondo e as pessoas dentro dela, tombavam desamparadas no chão oco da bola, faziam gestos grotescos e gritavam desesperadas dentro da bola.

No meio desse sonho, quando o seu peito arfava de aflição e perplexidade, viu criaturas a tentar sair de dentro da bola, mas a esfera, redonda, compacta e hermeticamente fechada, não tinha sítio de fuga possível tal qual como o mundo que é uma bola, redondo e hermeticamente fechado. Farto do espetáculo horroroso que os seus olhos estavam a observar, deu um pontapé com muita força na bola e a bola ficou algum tempo a pairar no espaço, suspensa no ar como se fosse um satélite em orbita à vista da terra e, nesse momento todas as pessoas dentro da bola pareciam felizes. Sentiu-se satisfeito também porque ficou a saber nessa ocasião que as pessoas gostam de andar no ar dentro da bola, que é redonda como o mundo e que também tem gente e rios lá dentro. Lembra-se de ter sentido algum medo e de se agachar a tremer no meio do conforto dos cobertores por causa desse sonho que não compreendia. A mãe disse-lhe mais tarde que aquilo era um pesadelo e que havia de ter muitos mais sonhos desses no decorrer da sua vida.

Apesar do incómodo e da angústia que lhe causou essa inaudita quimera, resolveu guardá-lo numa caixa de sapatos vazia. Pensou que um sonho mau como aquele tinha de ser enterrado na horta por baixo da figueira onde as galinhas depenicam ervas daninhas. Era mais seguro, um pesadelo assim, teria de ficar bem longe da casa e fora do seu alcance porque ele nunca mais queria voltar a sentir o desespero daquela noite em que sonhou com a bola que era igual ao mundo, com rios e pessoas lá dentro.

O terceiro sonho foi agradável e maravilhoso. Foi um sonho com raparigas vestidas de lindíssimas roupas a dançar numa festa em que ele era a figura principal e o rapaz mais desejado por todas as lindas mulheres que lhe pareciam noivas dos contos de fadas. Lembra-se de uma delas que o fascinou nas voltas de harmoniosas valsas que convidavam aos beijos e abraços demorados que o agarrou com força nas elegantes mãos e o transportou levitando sobre um cenário de encantos, fantasia deliciosa que só um súbito acordar desfez esse afortunado enleio. O que foi o seu mais belo sonho, guardou-o numa lata que tinha sido de tinta e pendurou-a amarrada com um arame ao lado da roda do carro de bois que o pai utilizava para trazer produtos dos campos. Um sonho destes, pensou, tem de estar sempre perto e ao alcance de uma mão. Um sonho tão doce tem de se repetir vezes sem conta, suceder constantemente e realizar-se mais que uma vez na vida. Fechou o sonho na lata e depois nunca mais se lembrou dele.

Um dia de repente, deixou de sonhar, angustiado rebolava-se horas e horas na cama à espera dos sonhos que tardavam em chegar. Ele queria fantasiar outra vez com as raparigas vestidas de noiva, mas por mais que tentasse, o sonho não aparecia. Desconhecedor de que os sonhos são a estrada real para o conhecimento da mente humana, e que quase sempre demonstram aspectos da vida emocional afectada por circunstâncias diversas, julgou que as noites de quimera para ele tinham acabado e que fora dos sonhos, é quase impossível ser feliz. Esse estado que só os seres vivos conseguem atingir, diferenciam-nos das máquinas, tornam-nos virtuais possuidores de todas as grandezas do mundo, alienam-nos e simultaneamente mistificam todo o processo da nossa existência terrena abrindo-nos a todo o universo. Nada se recupera de um sonho porque sonhar é viver intensamente uma outra vida numa numa dimensão astral muito diferente.

Os anos passaram por ele como passam por todas as coisas e criaturas da terra e uma noite, quando já nada o fazia prever, os sonhos voltaram quase com a mesma intensidade do passado e, um deles tinham a ver com uma bola que era igual ao mundo com rios e pessoas lá dentro que as crianças arremessavam ao ar e davam biqueiradas. Neste sonho, ao contrário do segundo que teve em criança, ele estava do lado de dentro da bola que os garotos chutavam e que evoluía no ar enquanto ele e as outras pessoas todas que estavam no seu interior sorriam felizes. Ao bater no imaginário chão, a bola fazia um estrondo e  projectava-o para a parte baixa e oca da bola de encontro às diferentes criaturas que gritavam desesperadas presas dentro da bola e inutilmente tentavam sair dos eu interior que era redondo e compacto, hermeticamente fechado e que não tinha sítio de fuga possível como o mundo que é uma bola.

Acordou constrangido desse sonho e ficou sentado na cama a pensar que o planeta é uma bola com rios e pessoas lá dentro e que só as crianças podem brincar com ela, dar-lhe pontapés e atirá-la ao ar e que, as criaturas não podem sair de dentro da bola porque a bola é redonda, compacta, hermeticamente fechada e não tem sítio de fuga possível como o mundo que é uma bola, que infinitamente rola e rebola e volta rolar e a rebolar-se no eterno espaço sideral.

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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