«pequena lua cheia de sol» um livro de poesia de Francisco Duarte Mangas e de Paulo Moreira Lopes, que ficará disponível no dia 15 de Junho. Este livro é  o n.º 5 da colecção «Poetas da Eufeme» 2ª Série.

Os pedidos podem ser feitos através da nossa página online (eufeme.weebly.com) ou nas livrarias «Poetria», «Flâneur» no Porto, em Lisboa na «snob/cossoul».
Preço: 7€ (já c/ portes incluídos, excepto para o estrangeiro).

pequeno excerto do livro:

«Uma tangerina
vale por mil metáforas»

Publicado por Eufeme Magazine

[os livros do desconfinamento]

quantas metáforas há numa tangerina?

*

No amor em pousio
dorme uma tangerina
ainda verde

*

Verde nasci
ao guardar o sol
minha cor perdi

*

A memória da tangerina
fica-nos cravada nas unhas

*

Se a terra é “azul
como uma laranja”
o sol é imenso
como uma tangerina

[ed. eufeme
eufeme.magazine@gmail.com]

Publicado por Francisco Duarte Mangas in Facebook

Last, but not least, por Yvette Centeno

Pequena Lua Cheia de Sol , como já disse noutro lugar, uma Renga ao gosto japonês, escrita a 4 mãos por dois poetas da EUFEME, Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes. Qual deles comeu uma ou outra, não é para distinguir é para saborear gomo a gomo deixando nas mãos aquele perfume especial, ao mesmo tempo tão fresco e doce.

Perfume que permanece, não lavemos as mãos… Os autores explicam, numa nota prévia: “talvez por ser inverno, a nossa palavra preferida é tangerina. Harmoniosa (traz o tanger dentro de si), juvenil, pequeno sol feito fruto a espreitar a manhã. Também gostamos muito de tangerineira, mãe abundante de tantas meninas de sereníssima doçura“…

Abrem o livro com um poema da infância:

Quando as mãos
cheiravam a tangerina
o inverno começava
a despir o capote

Os haikai obedecem a normas, que podemos, é certo, não respeitar. Mas aqui foi respeitada a indicação da estação das tangerinas: o inverno.

Passar, como estou a fazer, de um livro conceptual, de conceitos que terei de entender, como o de Paulo Domingos, para um livro de imagens e sensações, o perfume, a côr, o sabor, é extremamente repousante.

Este acaso que me trouxe os dois livros foi um acaso feliz: preciso de pensar, para existir (e a culpa não será do Descartes), mas preciso de sentir, sem por isso me sentir presa a nenhum sensacionismo teorizado pelos Modernistas. É mais simples, é mesmo quase banal e corriqueiro, o do prazer de descascar uma tangerina, ao ar livre, colhida da sua árvore, a meio da manhã ou da tarde, num das muitas fugas que fazem as crianças, fartas de estar em casa.

Uma tangerina
vale por mil metáforas

Sim, em certa medida. Mas nada me impediria, com Magritte, de escrever “isto não é uma tangerina”. Porque na verdade o que ali está, no Haiku, é uma representação da realidade, uma imagem, e não um fruto real que eu possa saborear. Posso imaginar, não mais.

o gomo da tangerina
desenha um sorriso
na mão do poeta

Fruto e imagem (representação) dele, o desenho e o som das sílabas que o dizem, no seu todo, transformam a tangerina em momento único de felicidade. Esse é o poder da imagem, na ausência do fruto real que a provocou.

Há uma toada real, de vez em quando, de canto tradicional popular, nos versos que vamos lendo. Mas a mim interessou-me mais, e mais uma vez, a questão da imagem, neste caso redonda e solar, e trazendo à memória inúmeros prazeres que na vida se perdem, ou de novo se recuperam, com a faculdade de evocar. Revejo na tangerina o redondo da infância, um todo que não se perdeu ainda do todo do seu ser, a árvore maternal que a folhagem protege enquanto o fruto e a criança crescem. A seu tempo irão amadurecer.

Tomo a liberdade de retomar aqui uma reflexão de outrora, sobre imagem e representação. Podemos ler ou não ler, ficando apenas pela apetecível tangerina que não nos dão a comer…

Michel Foucault discute no seu estudo de 1973, Ceci N’est Pas Une Pipe, o aparente paradoxo com que o quadro nos confronta.

Falando de imagem/representação podemos discutir se a representação o é de um objecto real (como neste quadro) ou de um objecto imaginário: com este conceito de representação do imaginário, trazendo-o até nós, tornando-o por sua vez real deste modo, alcançamos, ou propomos, um novo patamar de discussão.

Neste patamar teriam lugar de destaque os Surrealistas e as suas criações, vivendo do imprevisível, do surpreendente, do que poderíamos chamar a lógica do inconsciente.

E neste caso já o real em si mesmo pouco nos preocuparia, dado que um outro real – o imaginário – se tinha tornado visível e apetecível.

Este é um patamar onde para além da questão da imagem se coloca uma outra: a do dizer, e em que linguagem: pictórica, literária, musical, etc. (deixando de fora um imaginário não menos interessante, o científico, com as novas capacidades de elaboração tecnológica hoje tornadas possíveis).

O prefixo in, remete desde logo “para dentro”, ou seja para uma íntima visão (representação) emanada / construída a partir das esferas da nossa psique (consciente, sub- e in- consciente). Sendo assim, a Imagem, neste contexto, mais restrito ou mais amplo, terá sempre uma forte marca de subjectividade.

A imagem, tomada no sentido da Psicologia das Profundidades (Jung) é uma forma que se constrói nos sonhos, nas imaginações e  fantasias a partir de um núcleo de relacionamento entre o Sujeito consciente e a esfera profunda do Inconsciente. A alma (die Seele, Jung) projecta nas imagens a psicodinâmica do inconsciente na consciência. A alma cria imagens e símbolos e é ela mesma Imagem (itálico meu).

Imagens e símbolos, diz  ainda Jung, são de origem mais primitiva e mais variada do que a linguagem, e por isso um importante fundamento da comunicação humana.

Podemos avançar um pouco mais pelos conceitos : imagem, representação, projecção de conteúdos do inconsciente. Nos casos de que nos fala Jung, os sonhos, as fantasias, o conceito de Alma- sendo que a Alma é Imagem, é representação de uma Essência que de outro modo não seria inteligível – fomos sendo guiados para a tal visão íntima, subjectiva, da representação.

Mas fomos avançando um pouco mais.

Da Imagem /Representação à Imagem/Comunicação:
– em primeiro lugar do eu consigo mesmo (imagem /representação, do inconsciente à consciência)
– e em segundo lugar do eu com o outro, com o mundo (por via da representação / comunicação)

 E fica uma pergunta: não poderá haver um centro próprio, específico, demarcado no cérebro de forma mais objectiva que seja o criador da imagem, e da representação?

Ao “mapear” um cérebro o que descobre, ou o que poderá vir a descobrir um dia, o neurobiólogo do século XXI? Guardo a ideia de que a imagem é talvez a sinapse de dois neurónios felizes que se entendem, como na definição de Eternidade que Rimbaud nos oferece no seu poema  L’ÉTERNITÉ, de 1872:

“Elle est retrouvée. / Quoi? – L’Éternité. / C’est la mer allée avec le soleil”

Ou, neste caso, a lua fugida com o sol.

Publicado in Literatura e arte

Falemos de frutos – e de poesia:
a de Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes
por José António Gomes

Aos frutos qual o poeta, qual o pintor capazes de resistir? Entre a beleza das formas e o sabor, há um complexo de sensações que passa pela percepção da(s) cores(s), pela avaliação da madurez do fruto ou da sua dureza ainda verde, pela apreciação da frescura, ou pela degustação dos açúcares e do sumo (do suco, dir-se-á no Brasil). O fruto é um inesgotável exemplo do poder de metamorfose, de transfiguração da natureza. A terra que através da árvore se transforma em folha, em flor e em fruto firma um dos prodígios da vida natural. Apetece chamar-lhe magia, mas não é. Porque a realidade é quase sempre mais extraordinária que a fantasia. E, por estas e outras razões, os frutos marcam presença constante na arte. E representam, frequentemente, a abundância, o desejo, as erogenous zones (vêm-me à memória os versos cantados por Peter Gabriel, em «Counting out time», dos Genesis: «Erogenous zones I question you / Without you, what would a poor boy do?»).

Por estranho que possa parecer, escutamos a música dos frutos na música do «Verão» e do «Outono» das Quatro Estações, de Vivaldi (1678-1741). Na pintura – e passe o oxímoro – as naturezas-mortas imortalizaram os frutos. A escultura e a ourivesaria não resistiram a usá-los como temas ou motivos. Arcimboldo (1527-1593), utilizou-os, juntamente com as verduras e as flores, para compor as fisionomias humanas que pintou. E seria, certamente, possível organizar mil antologias de poesia do mundo centradas nos frutos, começando pelos romances tradicionais de origem popular, com as suas meninas sentadas à sombra de laranjais.

Nessas antologias reencontraríamos, com grande probabilidade, a célebre «Arte Poética III» de Sophia de Mello Breyner Andresen com o seu inesquecível início: «A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.»

Com ilustrações de José Emídio, o belo livro infantil de Nuno Higino, A Maçã Vermelha: Viagem à infância de Sophia de Mello Breyner Andresen (2008) evoca esta relação da poeta de Livro Sexto com a eloquência de um real representado pela maçã vermelha pousada numa mesa. Nuno Higino, ainda, em A Rainha do País dos Frutos (2000) oferece aos leitores, com ilustrações também de José Emídio, uma poética narrativa em torno dos frutos e da sua rainha: a romã. Também João Pedro Mésseder dedica ao mirtilo e a outros frutos a obra de poesia para a infância, O Pequeno País dos Frutos (2018), que Paul Hardmann ilustrou admiravelmente, anunciando para breve a publicação de um livro de Poemas Tangerinos, ilustrados por Helena Macelos.

Mas na hipotética antologia atrás referida reencontraríamos certamente ainda Eugénio de Andrade, que tantas vezes recorreu ao fruto-metáfora e ao fruto-símbolo, a ponto de ter dado o título As Mãos e os Frutos (1948) a um dos seus livros, que marcaria a história da poesia portuguesa do século XX posterior a Pessoa, e de ter incluído a composição «Frutos» na colectânea de poemas para a infância, Aquela Nuvem e Outras (1986), onde, sobre uma ilustração em aguarela de Júlio Resende, se pode ler:

FRUTOS

Pêssegos, peras, laranjas,
morangos, cerejas, figos,
maçãs, melão, melancia,
ó música de meus sentidos,
pura delícia da língua;
deixai-me agora falar
do fruto que me fascina,
pelo sabor, pela cor,
pelo aroma das sílabas:
tangerina, tangerina.

Aqui, mais do que um fruto no sentido literal do termo, a tangerina é um fruto da Língua, uma palavra que sinestesicamente cativa «pelo sabor, pela cor, / pelo aroma das sílabas».

Foi justamente esse fruto e a palavra que o designa que Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes elegeram como objecto principal do seu livro de poesia pequena lua cheia de sol (Eufeme, 2020, colecção Poetas da Eufeme, série II).

Por constituir, por encerrar em si um pequeno mundo, o fruto facilmente se converte em símbolo e em matéria de metáfora e, naturalmente, de sinestesia (embora, e muito bem, um texto sentencioso trazido para a contracapa nos lembre, neste livro, que «uma tangerina / vale por mil metáforas»).

E esses, a metáfora e a sinestesia, são talvez – ou não estivéssemos ante um livro de poesia – os principais caminhos expressivos desta escrita, trilhados numa imensa e luminosa liberdade: «A luz da tangerina é tangível» (p. 11); «Tangerina é uma rã bebé» (p. 18); «O gomo da tangerina / desenha um sorriso / na mão do poeta» (p. 27). Os exemplos poderiam multiplicar-se. Textos que inevitavelmente exploram todo esse poder de sugestão do signo, na sua materialidade significante, que já havia seduzido Eugénio de Andrade e que imediatamente faz pensar em música, quando o escutamos, quando o vemos escrito: «Jovem deusa da música» (p. 17) é de facto a tangerina.

Luminosa janela (repita-se, sem pejo, o adjectivo) aberta em tempos sombrios, como são aqueles que atravessamos, irrecusável espaço de liberdade, fantasia e graça, pleno de humanidade e de amor à Natureza e às suas oferendas, o pequeno livro de Francisco Duarte Mangas e Paulo Moreira Lopes é daqueles cuja leitura nos pode salvar o dia.

Investindo, com naturalidade, em recursos como a metáfora, a comparação, a sinestesia, os quarenta poemas, quase todos sem título (há cinco excepções), propõem-nos, apesar da brevidade e da contenção/contensão que os caracteriza, uma assinalável variedade de formas poéticas, em que se destacam os poemas formados por um dístico ou um monóstico; aqueles outros que lembram o haiku; os provérbios poéticos e as greguerías; o texto em forma de canção («Canção da tangerina», pp. 48-49); ou ainda a composição com um pouco mais de fôlego, em verso branco e livre («Debaixo da tangerineira…», p. 35 – irrecusável declaração de amor ao «enredo íntimo» da árvore, a essa «alquimia de fazer húmus / na alegria alada»).

Escrito sobretudo no Inverno (como sugere o texto de abertura), dialogando, assumida e criativamente, com outras poéticas, tais como a lírica popular, a de Luís Veiga Leitão, a de Éluard (o seu famoso poema que alude à terra «azul como uma laranja»), pequena lua cheia de sol é uma boa surpresa e uma leitura alternativa, escrita ao arrepio de modas e tendências, e em contraciclo. Aos fantasmas e às sombras opõe a claridade. A luz da tangerina.

Aceite-se, pois, o convite para ler e degustar este livrinho – pequeno baú cujos principais tesouros deixo escondidos – publicado por uma das poucas chancelas militantes da poesia que vamos tendo: a muito interessante Eufeme, que edita também uma revista. Resta guardar um elogio para a sobriedade e o bom gosto gráficos do livro que, a páginas 51, inclui um desenho de Francisco Duarte Mangas e, na capa, um outro de Sérgio Ninguém, o editor.

A obra (7€) pode ser adquirida em http://eufeme.weebly.com

IEL-C (Núcleo de Investigação em Estudos Literários e Culturais da ESE do Politécnico do Porto)

Renata Carneiro

Ao ler este livro fiquei com vontade de ter tangerinas em casa, pela cor, pelo cheiro, pelo sabor e o poema com o qual me  identifiquei mais foi:

Não conheço cor mais doce

Por todos os sentidos adjacentes… pela cor, pela pintura!

Óscar Possacos

O título é muito sugestivo, cheio de sentidos. Por dentro, a surpresa de um fruto, do imaginário da infância, dos sentidos. O que parece ser um diálogo, feito daquela simplicidade bem medida e que desarma num rompante. Em termos gráficos, muito bonito.

 

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