DO tempo da infância, Eugénio de Andrade, “de abundante” apenas conheceu “o sol e a água”. À língua portuguesa deixa vasta herança: uma obra luminosa, musical, marcada pelo rigor da palavra. O poeta morreu faz agora quatro anos, no Porto. Parte da infância, a tal de sol e água em abundância, passou-a na aldeia da Póvoa da Atalaia, no concelho do Fundão. Era filho de camponeses, dizia. De abundante, na infância e pela vida fora, teve ainda a ternura da mãe. É ao lado da mãe que abandona a aldeia e parte para Castelo Branco, onde aprende as primeiras letras. Ao lado da mãe vê pela primeira vez a claridade de Lisboa: “Ela certamente a pensar no homem que sempre amara, eu com o mar na cabeça, de que tanto lhe ouvira falar”. É em Lisboa, para onde vai viver em 1932, que o jovem de olhos claros chamado José Fontinhas – Eugénio de Andrade para sempre a partir da publicação do primeiro livro – convive com o pai. Mas dessa relação distante, envolta em ressentimentos, pouco ou quase nada fica. O amor pela mãe era único e pleno, sem espaço para mais ninguém. E, no entanto, “No mais fundo de ti,/eu sei que traí, mãe!// Tudo porque já não sou/o retrato adormecido/no fundo dos teus olhos!” Eugénio de Andrade escreve os primeiros versos em Lisboa. E inicia o encontro, pelas bibliotecas públicas, da palavra dos outros. Dos outros poetas. Um deles é António Botto, a quem mostra os primeiros textos . Um livro de Botto – Ciúme – havia impressionado profundamente o jovem poeta. “Voltei a sentir a terra faltar-me debaixo dos pés. Pedi explicações: que significava aquilo de amor para outro homem?”. Estimulado por António Botto, corria o ano de 1939, publica numa plaquette o poema Narciso, assina com o seu nome civil, que cedo rejeitará. Seguem-se outras obras que mais tarde recusará parcialmente. A consagração surge em 1948: As Mãos e os Frutos recolhe rasgados elogios da crítica mais exigente. A partir daí, torna-se referência das letras portuguesas. A sua poesia, ao contrário de outros autores, continua e continuará a cativar as novas gerações de leitores – porque é límpida, aparentemente simples, tem ritmo, musicalidade.

Palavra com endereço

Ao invés de outros companheiros da sua geração, o autor de Rosto Precário não fez da palavra uma arma política. “O acto poético”, defendia, “é o empenho total do ser para a sua revelação. Este fogo do conhecimento que é também o fogo do amor, em que o poeta se exalta e consome, é a sua moral. E não há outra”. Eugénio, no entanto, escreveu poemas com endereço: para Che Guevara, José Dias Coelho ou Catarina Eufémia. Palavras por encomenda do editor e amigo José da Cruz Santos. Um dos mais belos poemas a Vasco Gonçalves tem, aliás, a sua assinatura: “(…) De tantas palavras que disseste algumas/ se perdiam, outras duram ainda, são lume/ breve arado ceia de pobre roupa remendada./ Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão/ era morada e instrumento de alegria. /Esse eras tu: inclinação da água. Na margem/ vento areias lábios, tudo ardia.”

Exigia silêncio

As palavras são o ofício do poeta. “São a nossa condenação”, dizia. Ou também, como escreveu recentemente Daniel Faria, “o alimento derradeiro”. Eugénio gostava das suas palavras, escolhidas com rigor depois de limpas e enxugadas, e das palavras do outros. Por isso, é um dos nossos melhores tradutores de Federico Garcia Lorca e de outros autores de língua castelhana.
Como antologiador, deixa marca em obras como Daqui Houve Portugal, a antologia mais completa sobre o Porto – cidade para onde foi viver na década de cinquenta. Eugénio foi, como o mesmo rigor que impunha à sua escrita, um divulgador da poesia. Gostava de dizer os seus versos aos leitores mais jovens. Raramente recusava um convite para mostrar a sua arte nas escolas. Mas impunha uma firme condição: as palavras são como cristais, o mínimo ruído podia poluí-las: exigia silêncio. E assim, quase sempre, eram escutadas as suas frágeis palavras.

Dóceis animais

Gostava das palavras dos outros, mas tinha de ser ele a descobri-las. Um dia, na Livraria Leitura, uma poetisa viu Eugénio e apressou-se a comprar um livro da sua lavra e a oferecê-lo ao poeta. O autor de O Peso da Sombra ficou deveras desagradado com a generosidade da companheira de letras. Mal a poetisa virou costas, Eugénio atirou com o livro, com dedicatória e tudo, para o caixote de lixo mais próximo.
Outras das suas paixões eram os gatos. Foram durante muitos anos os seus silenciosos companheiros da noite. Essa admiração aos pequenos felinos, que conhecem a casa mas não conhecem o dono, fica firmada em vários poemas que lhes dedicou. No ano passado, todos os poemas sobre gatos surgiram no livro Os Dóceis Animais , ilustrado por Cristina Valadas, editado pela ASA. Há cerca de 25 anos, Eugénio encontra outro motivo para partilhar o seu amor: Miguel, o afilhado que o poeta trataria como “o filho que nunca tive”. Era Eugénio que levava a criança a escola, ajudava-a a executar os trabalhos de casa. Temia pelo menino quando o temporal se abatia sobre a cidade do Porto. Numa noite de grande intempérie – o poeta não gostava de sair à noite – chegou mesmo a chamar um táxi para ir a casa do Miguel confirmar se estava tudo bem.

O Nobel não chegou

Em 2001, Eugénio foi distinguido com o Prémio Camões. Soube da notícia a olhar o mar, na Foz, na casa -fundação que tem o seu nome. Ficou feliz com a distinção, mas deixou fugir um lamento: “Os prémios literários vêm sempre tarde”. Deviam ser atribuídos quando ainda se é novo; nessa altura, sim, o dinheiro teria outro valor. Teria permitido ao poeta viajar mais e sem sacrifícios. Em 1948, quando publicou As Mãos e os Frutos, “para ir à Grécia, tive de vender alguns livros e quadros que amigos meus me tinham oferecido”. O Prémio Camões foi pouco para alguém que, por certo, desejaria mais. Mas o Nobel “é impensável! Em Portugal aconteceu uma vez, não voltará a suceder tão cedo. Não há nenhum membro da Academia Sueca que leia português”, dizia Eugénio. E “eu também não escrevo para ganhar prémios”. Depois, argumentava o autor de Matéria Solar, “o Nobel é um prémio como outro qualquer, só dá mais dinheiro, mas não tem importância nenhuma”. Rigoroso com a imagem, o poeta recusou deixar-se fotografar para os jornais quando foi distinguido com o Camões, “acho um excesso os jornais quererem tirar retratos nos dias dos prémios…”. À primeira vista, poder-se-ia pensar que o poeta seria adverso ao culto da imagem. Mas basta uma visita à Fundação Eugénio de Andrade, a casa onde viveu os últimos anos, para se afastar as dúvidas: em todas as paredes há retratos e fotografias do poeta, além de bustos e outras estatuetas. Por onde passava, conta quem o conheceu de perto, ele tinha de ser a primeira figura. Só mesmo a vaidade de Jorge de Sena era suficientemente forte para ofuscar a presença de Eugénio.
“O amor da transparência é a minha fraqueza, mas a minha força também. Não significa o que digo que não haja em mim, e na poesia que faço, zonas de sombra”, escreveu o poeta no catálogo da exposição sobre a sua obra, realizada no Porto em 1976. Foi a primeira grande homenagem nacional ao autor de Véspera de Água. Quando completou 80 anos, o Porto – uma vez mais por iniciativa do editor e amigo José da Cruz Santos – voltou a homenagear Eugénio de Andrade.

Não esqueci nada

O poeta não esteve presente. A doença degenerativa já o amarfanhava. Os derradeiros anos da vida foram terríveis; as palavras – razão da vida toda – abandonavam lentamente aquele que mais as amou. “Já não se passa absolutamente nada. /E no entanto, antes das palavras gastas, /tenho a certeza/de que todas as coisas estremeciam/só de murmurar o teu nome/ no silêncio do meu coração.//Não temos já nada para dar. / Dentro de ti/não há nada que me peça água./O passado é inútil como um trapo./E já te disse: as palavras estão gastas. //Adeus.”
O filho de camponeses – que passou a infância numa dessas aldeia da Beira Baixa “que prolongam o Alentejo e, desde pequeno, de abundante” apenas conheceu sol e água, partiu às primeiras horas da madrugada. Longe, muito longe da terra onde nasceu. A derradeira caminhada do poeta de Branco no Branco :
«Não me esqueci de nada, mãe. /Guardo a tua voz dentro de mim./ E deixo-te as rosas…/Boa noite. Eu vou com as aves!”

Publicado originalmente no dia 14 de junho de 2005 no Diário de Notícias

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