DE ACORDO com o calendário gregoriano, o mundo vive agora o ano de dois mil e vinte. E, apesar de ter uma contagem oficial diferente ― em conformidade com o tempo de reinado do Imperador (atualmente, o ano “um” da Era Reiwa, que começou em maio de 2019) ―, o Japão também celebra o Ano Novo nos moldes ocidentais. Ou quase. Isso porque os rituais são próprios de um povo que, além de politeísta, é historicamente composto por agricultores ― exercendo, pois, a Natureza um importante papel nesse “rito de transição”.

E, dos ritos do ano novo japonês (conhecido como “Oshougatsu”), um dos que mais me chamam atenção é o “shimekazari”. Trata-se de uma decoração, feita principalmente de palha de arroz, que é fixada nas portas das residências ou dos templos na primeira semana do ano. Obrigatoriamente, esse tipo de amuleto deve ser retirado da porta no dia sete e queimado no dia quinze de janeiro ― geralmente nos templos ―, para que o ritual, assim se completando, atraia um bom ano para os habitantes da casa.

Este ano novo, aliás, foi o primeiro em que decidimos colocar um shimekazari em nossa residência. E o motivo nada tem de supersticioso: é que, em regra, viajamos por alguns dias no fim de dezembro e início de janeiro ― não tendo, pois, como seguir o rito nesse período de ausência. Mas agora, com o nosso filho ainda muito pequeno para viajar, resolvemos celebrar em casa a passagem do ano. E, aproveitando o fato de sermos uma família miscigenada, decidimos também unir nossas culturas na hora da celebração: combinando, por exemplo, as luzes natalinas cristãs (o famoso “pisca-pisca”) com o shimekazari para dar as boas-vindas ao novo ano.

E é justamente essa diversidade cultural uma das coisas que mais gosto no Japão contemporâneo. Uma afirmação que pode até mesmo causar espanto em alguns leitores, considerando-se que a cultura japonesa é conhecida por ser tradicionalmente fechada à influência estrangeira. Mas, francamente, residindo aqui há dezoito anos, posso afirmar: o Japão do século vinte e um, como já escrevi em uma crônica anterior, possui, sim, um intenso desejo de conhecer e dialogar com outras culturas! E falo isso também baseado em minha experiência pessoal; visto que há mais de quinze anos convivo com uma família que, sendo “puramente japonesa”, não teve qualquer resistência ao “matrimônio internacional” da filha. Uma família que, respeitando todas as religiões, vai com a mesma mente aberta a uma igreja no Natal e a um templo no Ano Novo.

E foi o que fizemos no primeiro dia de dois mil e vinte: oramos juntos em um templo xintoísta, e, em casa, fizemos uma oração católica. Sem barreiras nem preconceitos. Unindo, enfim, todos os credos: para a alegria de todos os deuses!

Um Feliz 2020 a todos!

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em concursos literários no Brasil e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013) e “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018), “Gotas frias de suor” (2018) e “Centelhas” (romance, 2019).  Foi o vencedor do 13º Concurso de Microcontos do Festival de Cine TerrorMolins (Espanha, 2019). É também colunista do JORNAL EM DIA, no Brasil: http://www.jornalemdia.com.br/categorias.php?p=16172

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