NO dia quatro de outubro de dois mil e um, eu desembarcava no aeroporto de Narita, em Tóquio, levando uma única e gigantesca mala, repleta de roupas, livros, fotos, saudades e incertezas. Afinal de contas (e apesar da maior comodidade que uma bolsa de estudos proporciona), eu estava vindo para um país totalmente desconhecido, com uma cultura que me era tão estranha ― uma vez que nem no Brasil eu tivera contato com a comunidade japonesa ―, para estudar e residir inicialmente por um período de… dois anos.

Pois é, como veem, os dois anos transformaram-se em vinte, e hoje posso dizer que “finquei raízes no Japão”. Afinal, tenho uma história já relativamente longa por aqui ― aliás, quase metade de minha vida ― e até uma família constituída: esta última, vale frisar, uma das maiores bênçãos que o Japão me proporcionou.

Mas para além da dádiva do nascimento do meu filho, a Terra do Sol Nascente também me presenteou com a transformação pessoal. E, entre lágrimas e sorrisos, ou entre medos e esperanças (que fazem a história de todo imigrante), eu poderia citar vários acontecimentos que, ao longo dessas duas décadas, pouco a pouco foram formando um novo “edweine”. No entanto, prefiro hoje destacar um momento que, particularmente, considero importantíssimo em minha caminhada no país: abril de 2005, quando, logo após obter o mestrado na Universidade de Osaka, surgiu-me uma única oportunidade de trabalho ― a de lavador de pratos, em um restaurante em Quioto.

Pode parecer algo comum na vida de qualquer imigrante, mas para mim, naquela ocasião, confesso, a humilhação de ter de lavar pratos para sobreviver foi muito dolorosa. Eu havia acabado de concluir um mestrado na terceira maior universidade do Japão; era professor e advogado no Brasil… estudado muito, enfim, com a ideia de ter um futuro melhor. Não obstante, concluído o mestrado, a realidade não correspondeu às expectativas ― a ponto de meu padrinho de casamento, o Sr. Saito, percebendo que eu precisava urgentemente de uma fonte de renda, conseguir-me aquele trabalho no restaurante de um amigo. E, apesar de grato ao meu padrinho, podem imaginar como aquela oportunidade logo esmigalhou o meu “orgulho acadêmico”. De modo que, frustrado e entristecido, acabei levando toda essa carga negativa para o interior de meu lar, dando início a discussões em que eu injustamente culpava minha esposa pelo fato de eu estar no país dela… naquela “situação humilhante”. Foi então que, após uma dessas minhas explosões, escutei a seguinte frase de um de meus cunhados: “Você pode não estar compreendendo hoje, mas no futuro vai valorizar muito essa experiência”. Eu, claro, ao escutá-lo, considerei os seus dizeres um verdadeiro disparate, sem imaginar que, anos depois, eu estaria concordando plenamente com a frase proferida.

Sim, caros leitores: hoje não tenho qualquer dúvida de que o “orgulho triturado” em 2005 foi uma das lições mais valiosas que recebi nesses vinte anos de Japão. A consciência de que ninguém é maior ou menor por um título, cargo ou posição ― desde que haja devoção e retidão em tudo que a pessoa se proponha a fazer.

Arigatou, Japão, por esta lição tão simples e natural, mas que tantas vezes ignoramos em nossa pressa de conquistar o mundo: a do valor da humildade.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020): https://kondo.lojaintegrada.com.br/cronicas-de-um-latino-sol-nascente-edweine-loureiro

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