NA última sexta-feira, tentando encontrar um filme interessante na tevê, deparei-me com um reality show japonês. O tema do referido programa? Dois desconhecidos (no caso, um rapaz e uma moça) fazem um intercâmbio de celulares por uma semana. Ou seja, ela fica usando o aparelho dele, e vice-versa. Comecei a divertir-me com aquilo, confesso, a ponto de esquecer-me de mudar de canal. Até que minha esposa, retirando o controle de minha mão, criticou: “Não vamos ficar assistindo a essa bobagem, não é mesmo?”.

E dou completamente razão ao protesto de minha amada. Porque isso de reality show é, de fato, um perigo para o cérebro. Vicia e chega até a causar alucinações coletivas. De tal modo que, mesmo sabendo que o programa é uma inutilidade sem tamanho, acabamos fisgados. Por isso também não ouso criticar amigos do meio literário que comentam, por exemplo, a respeito dos episódios do BBB. Não, ao ver seus comentários, sei o que o mais sábio é mesmo ficar em silêncio ― afinal, que direito tenho eu de fazer julgamentos a respeito do que é prazeroso a outros? Se até um reality japonês meia-boca me zumbificou por alguns minutos, o que dirá o programa que costuma fazer todo o Brasil parar? Não, se meus amigos, reconhecidamente pessoas de grande saber e leitura, gostam é porque a bagaça deve servir, pelo menos, como objeto de estudos para antropólogos… Ou não! ― diria Caetano (que, quem sabe, deve também dar as suas espiadinhas na casa do “Big Brother”).

Sim, intelectuais (ou seja lá o que for isso) também têm o sagrado direito ao escapismo. E se esse escapismo for por um reality show, que sejam felizes! Ora, diabos, tanta coisa que hoje leva o rótulo de clássico também começou como uma forma de diversão para as massas. A própria literatura romântica, por exemplo, não adquiriu o status de clássico porque primeiro se popularizou? E mais: quando surgiu, o folhetim romântico também foi muito criticado pelo gosto duvidoso de se seus leitores. Mas isso, como se sabe, não foi impedimento algum para o sucesso de José de Alencar e Bernardo Guimarães, entre outros autores do Romantismo.

De modo que deixem em paz os fãs dos reality shows! Especialmente nestes tempos impiedosos de pandemia! Afinal, por que temos de nos apegar a imagens de morte e sofrimento se podemos espiar uma casa repleta de loucuras e bizarrias? Apesar de que, no que se refere particularmente ao BBB, eu ainda prefira um dos clássicos de Traci Lords…

Olha aí: prometi não criticar os reality shows, e agora já estou começando a lançar o meu veneno contra o pobre do BBB, que nenhum mal me fez. Talvez seja o cansaço. Melhor parar de escrever esta crônica e buscar alguma distração.

― Qual é mesmo, amor, o canal do programa dos celulares trocados?

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor de nove livros, sendo o mais recente: “Crônicas de um latino sol nascente” (Telucazu Edições, 2020): https://kondo.lojaintegrada.com.br/cronicas-de-um-latino-sol-nascente-edweine-loureiro

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