HÁ algumas semanas, adentrando o campus da Universidade de Tóquio, deparei-me com um cartaz afixado que trazia uma mensagem dos estudantes da instituição: um grito contra a intolerância e todo tipo de ódio, incluindo o racial.

O cartaz chamou-me a atenção principalmente porque eu possuía uma imagem muito diferente dos estudantes japoneses: a de que eram essencialmente conservadores, particularmente em questões políticas. E mais ainda quando se trata da Universidade de Tóquio: o berço dos grandes líderes conservadores (o Jiyu-Minshutou – ou o Partido Liberal Democrata), que vem se mantendo regularmente no poder desde a década de cinquenta. Por exemplo, o atual primeiro-ministro, Shinzo Abe ― oriundo desse mesmo partido ―, é conhecido por sua visão de extrema-direita, inclusive tendo objetivos militaristas para o Japão (proibido de possuir, oficialmente, forças armadas desde o fim da Segunda Guerra). De modo que, confesso, fiquei surpreso ao ver manifestações contra a extrema-direita no coração de uma instituição conservadora. E alegrei-me, naturalmente.

Alegrei-me por poder ver que os jovens japoneses estão em busca de um futuro político no qual a expressão “amar a pátria” não se confunda com odiar estrangeiros e/ou minorias. Sim, os jovens idealizadores daquele cartaz  pareciam mesmo desejar um Japão sem a mancha do ultranacionalismo que os levou a duas guerras com efeitos devastadores para o povo. Aqueles jovens, disse comigo enquanto adentrava a sala de aula, realmente estavam aprendendo com a História.

E fiz questão de comentar isso com os meus alunos, em uma pausa da lição. Ocasião em que todos eles disseram que, de fato, estavam orgulhosos daquele cartaz; e que, claro, desejavam um Japão multicultural ― um país com um novo pensamento para a construção de um futuro sem ódio nem preconceito.

Ora, como professor e estrangeiro, ao escutar essas palavras, regozijei-me. Afinal de contas, aqueles jovens seriam os futuros advogados, políticos… resumindo: os líderes do Japão no século XXI. E, com um sorriso de satisfação, dei início à aula de Língua Inglesa.

Pois bem: passados cinquenta minutos de aula, o livro que estávamos usando lançou-lhes a seguinte indagação: “Você acha que sua universidade deve aceitar mais alunos estrangeiros? Exponha suas razões”. Nesse instante, porém, a metade da turma disse que “não”. E por motivos diversos; como, por exemplo, o de que “o governo japonês tem de sustentar ‘bolsistas’ que nada acrescentam para a sociedade”.

Foi então que me lembrei do cartaz e, confuso, passei para a próxima lição.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em concursos literários no Brasil e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013) e “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É também colunista do JORNAL EM DIA, no Brasil: http://www.jornalemdia.com.br/categorias.php?p=16172

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