HÁ alguns dias, indo ao supermercado próximo a minha casa, vi uma enorme fila, atraída por um funcionário que, ao microfone, anunciava um desconto de cinco por cento para um determinado produto. Descontos, claro, são sempre bem-vindos ― especialmente com o recente aumento da taxa de consumo (de oito para dez por cento), que deixou a todos no Japão apreensivos (uma vez que os salários pouco ou nada aumentaram). Apesar disso, achei a fila exagerada para um desconto tão ínfimo, ainda mais considerando-se que o mesmo produto poderia ser encontrado a um melhor preço em outro supermercado da área.

Depois, no entanto, fiquei refletindo: o que atraiu aquela multidão foi realmente a palavra “desconto”, que tende a exercer um poder até mágico sobre a maioria dos japoneses ― para quem “economizar” é, muitas vezes, mais um hábito do que uma real necessidade. Principalmente entre os componentes da chamada terceira idade: que, na tal fila do supermercado, também predominavam. Senhoras e senhores que, provavelmente, tendo vivenciado a Segunda Guerra Mundial ― um tempo, claro, de grande fome e privações para o bravo povo japonês ―, acostumaram-se a economizar o máximo possível e em qualquer oportunidade que lhes possa aparecer.

Um costume que, vale frisar, acho bastante positivo. E mais: acredito mesmo que o desenvolvimento do Japão deveu-se muito (não unicamente, claro) a essa preocupação em poupar. Afinal, foi essa geração sobrevivente da guerra que reconstruiu o Japão, ensinando os seus valores a filhos e netos. Ensinamentos que, aliás, parecem ter sido bem assimilados pelos mais jovens. E aqui cito como exemplo o raro uso dos cartões de crédito. Sim, no Japão, ainda se preferem as tradicionais notas e moedinhas, que, sendo um gasto visível, contribuem mais para o autocontrole que o cartão. O que, como brasileiro, além de admirar, agradeço. Isso porque, graças a essa preferência dos japoneses pelo pagamento em espécie, não tenho de ficar esperando uma eternidade, em bares e restaurantes, porque o cliente à minha frente quis fazer uso do cartão de crédito para pagar por uma coca-cola…

Por outro lado, há sempre o perigo de que esse hábito de poupar acabe se transformando, entre os senhores japoneses, em uma sovinice que lhes pode ser, sem exageros, até letal. Como foi noticiado há alguns anos: uma senhora que, segundo depoimentos de familiares e conhecidos, economizava até com o ventilador durante o verão. Para encurtar a história: em um dia de calor mais forte, foi parar no hospital e, infelizmente, não resistiu. Dias depois do funeral, a família encontrou, sob o colchão da falecida, uma verdadeira fortuna: em cédulas sem valor… corroídas pelo tempo.

EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em concursos literários no Brasil e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013) e “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018), “Gotas frias de suor” (2018) e “Centelhas” (romance, 2019). É também colunista do JORNAL EM DIA, no Brasil:

http://www.jornalemdia.com.br/categorias.php?p=16172

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