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Li Bai

Li Bai

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BALADA DE CHANG-KAN

Nesse tempo eu usava ainda cabelo em franja
e brincava colhendo flores, à entrada da minha casa
Vieste num cavalo de bambu,
trotando à minha volta e atirando-me ameixas verdes.
Vivíamos os dois numa aldeia, chamada Chang-Kan,
duas crianças alegres e inocentes.

Quando aos catorze anos me tornei tua esposa,
era tão tímida, que não conseguia tirar os olhos do chão.
Mil vezes me chamaste,
mas nem uma única vez te consegui olhar.

Pouco a pouco, perdi a timidez.
Com quinze anos, desejei que as minhas cinzas
se misturassem com as tuas,
para sempre, sempre, sempre.
Por que subiria agora ao cimo da montanha?

Tinha dezasseis anos, quando partiste
para a longínqua Ku-To-Yen,
através da garganta de Chu-tang,
e estiveste ausente durante cinco meses.
Os macacos no alto das árvores lançam um lamento doloroso.

Arrastavas os pés quando te foste.
Cresce musgo, agora, sobre os traços dos teus pés
Tão profundo que não se pode arrancar.
Antes de tempo, caem as folhas neste outono ventoso
Pares de borboletas salpicam de amarelo o jardim ocidental.
Entristece-me. A minha pele perde o tom rosado.

Se regressares através da Garganta do Rio Azul,
por favor, não te esqueças de me avisar.
Para que eu possa ir ao teu encontro:
Tal é a minha ânsia
de te abraçar, que não me metem medo o vento de areia,
nem a distância.

Versão de Jorge Sousa Braga a partir de versão de Ezra Pound

*

BEBENDO AO LUAR

Ergo entre as flores um copo de vinho
e convido o luar
Acabo também por convidar
a minha sombra
Mas a lua não sabe beber
e a minha sombra não me consegue acompanhar
Companheiros de um instante
– a lua a minha sombra e eu – vamos brindar
à primavera.
Enquanto canto a lua vagueia
Enquanto danço a minha sombra desespera
Esqueçamos tudo quanto estivermos a beber
Que cada um se afaste
quando o dia chegar
Na longínqua Via Láctea
mais cedo ou mais tarde
nos voltaremos a encontrar

Versão de Jorge Sousa Braga

A UM GIRASSOL
(durante o exílio em Lo Yang)

Que humilhação!
Apesar de ser uma simples flor
roda e ao rodar
protege do sol as suas raízes.
Enquanto eu não me resta senão
procurar as minhas
sob um sol abrasador.

Versão de Jorge Sousa Braga

Li Bai (701–762), também conhecido como Li Po ou Li Bo, foi um poeta da dinastia Tang, considerada a sua idade de ouro. Nascido provavelmente na Ásia Central e criado na província de Sichuan, levou uma vida errante, viajando por toda a China. Admirador do taoismo, encontrou na natureza, na amizade, na lua e no vinho os grandes temas da sua poesia, celebrando a liberdade de espírito e a harmonia com o universo.
Autor de cerca de um milhar de poemas, dos quais sobreviveram perto de 980, Li Bai destacou-se pela simplicidade da linguagem, pela intensidade das imagens e pela extraordinária musicalidade dos versos.

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