Completam-se hoje dez anos das minhas crónicas no Correio do Porto, sob a rubrica Miradouro. Cento e vinte vezes em que a região do Douro, o Porto e as suas gentes me pediram que parasse, olhasse com atenção e lhes desse voz. E dei.
O tempo, neste ofício, corre como a água do rio, sem aviso, sem pressa, mas com uma constância que nos surpreende. Quando olho para trás, não encontro mérito meu, mas antes a generosidade de quem me abriu portas: a Revista, que confiou neste espaço; os leitores, que o preencheram com o seu interesse; e a própria paisagem, que nunca se recusou a revelar-se a um novo olhar.
Cada crónica foi um encontro. Com o barqueiro que ainda guarda na memória o rumor dos cabos e dos remos a tocar na água. Com a lavradeira que semeia na margem e sabe ler o céu como poucos. Com a cidade que se reinventa em cada esquina, mas nunca perde a alma antiga. Mais do que escrever sobre o Porto, aprendi a escutá-lo, nas cheias que pintam o leito de barro, na neblina que envolve as colinas, no bulício do São João que incendeia a noite.
Nunca quis ensinar, porque o Miradouro sempre foi, para mim, um lugar de observação. A paisagem ensina-me mais do que eu alguma vez poderei descrever. O rio, esse confidente de décadas, dita o ritmo das palavras. Eu limito-me a traduzir, com a humildade de quem sabe que, por mais que escreva, o Douro guarda sempre segredos que escapam à minha pena.
Não sei se mereço esta década de convivência mensal com esses milhares de leitores. Mas sei que a vivo com uma gratidão profunda.
Ao Correio do Porto, pela confiança renovada mês após mês. Aos leitores, pela paciência e pela companhia silenciosa que torna este ofício menos solitário. E ao Douro, que continua a ser, como no primeiro dia, a minha maior fonte de espanto e de encantamento.
Que venham os próximos dez anos, com a mesma simplicidade de quem se senta no miradouro, olha o horizonte e se deixa, simplesmente, contemplar.
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro; Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras – Conversas com um Rio; Fado Falado – Crónicas do Facebook; Amanhecer; Barcos de Papel; Casa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.






