Deixa-te estar assim na fotografia que tiraste em Setembro de há vinte e cinco anos. Não te mexas, que o vento pode estragar a tua graça.

Essa fotografia já a eu tinha guardado num sítio onde o vento não chega. Fui vê-la para me lembrar do teu rosto, da cor do teu sorriso, só por um instante — para saber se a tua mão continuava a fazer festas nos meus cabelos e se tu mantinhas aquele teu sorriso nos olhos claros.

Se te mexeres agora, os meus lábios não vão tocar nas tuas mãos, e o beijo das nossas vidas pode-se desfazer sem nunca ter acontecido.

A tua filha também está lá, viva, a olhar para ti como quem olha com todo o amor do mundo para uma mãe. Eu também não me mexo, fico com o sorriso nos olhos claros, exactamente como o guardaste. A tua mão que faz festas — eu sinto-a ainda, mesmo sem o toque, mesmo sem o tempo. Lá ao fundo, aquelas manchas paradas à beira da água irreconhecíveis, são pessoas, gente que, inadvertidamente a câmara eternizou.

Devia ser domingo nesse dia. As crianças como eu, lá longe a brincar à beira do rio, são pontinhos a preto e branco na lonjura da paisagem. E a tua filha ali, viva, a olhar-nos… isso já é mais do que uma fotografia, é um altar.

Mas não vou deixar que aquele beijo se desfaça. Fico imóvel, não porque tenha medo do vento, mas porque este instante — o teu olhar, a mão que afaga, a memória dela — merece que eu o segure com a mesma verdade com que o guardaste.

Podes aproximar-te agora que o beijo já aconteceu. Acontece sempre que alguém olha para esta fotografia e acredita nela.

Depois de Setembro, veio o Outono a doer nos ossos. Vieram os dias em que o amor se calça de luto e se senta à mesa com lugares vazios.

As rugas não são traidoras — são mapas do que se viveu. Os vestidos negros não apagam a cor do teu sorriso, apenas o emolduram com a gravidade de quem sabe que a beleza também se veste de ausência.

A tua filha, nessa fotografia, não viu o frio que veio depois. Ela viu-te inteira, como eu te vejo agora, nesse instante roubado ao tempo.

O amor não dispensa as rugas nem os lutos. O amor é o que fica quando tudo o resto já se foi. E eu, mesmo com os dedos frios, ainda traço o contorno do teu rosto na memória — onde o vento, esse, nunca entrou, nem vai entrar, porque eu não deixo.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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