EM Março quando os dias se enchem de luz e os montes se enfeitam com o desabrochar das flores silvestres para receber a primavera e no ar, agora morno, se escutam as melodias que as aves executam com a precisão dos grandes compositores, desço a serra em passo lento, vagarosamente porque adoro o ar de liberdade que se respira nas alturas onde os meus olhos maravilhados se perdem na imensidade do horizonte.

Fui até ao vértice geodésico, também popularmente chamado de telefe, marco de referência em pedra que marca as cordeadas da terra situado no cume da serra da Boneca. Sentei-me nas falésias de xisto a recordar momentos de outros tempos e pessoas que subiram e desceram a serra ao meu lado na juventude e que já não fazem parte do cenário que agora contemplo. Todavia sorrio porque os trouxe a todos comigo pela mão nesta peregrinação que tem alegria e lágrimas lá dentro. Como todos eles, não sou deste mundo, pertenço ao mesmo maravilhoso jardim para onde foram todos e é para lá que um dia voltarei. Foi um privilégio muito grande ter podido fazer parte deste lugar de sonho. Conhecer e partilhá-lo com tanta gente fantástica apesar de tantas adversidades e de tantos desgostos.

Lá em baixo, nas profundezas de um vale de encantos, corre um rio. É o Douro, uma silhueta líquida imponente a serpentear por entre as aldeias ribeirinhas até desaparecer na minha linha visual lá para os lados da cidade do Porto.

Aqui no alto, cheira-me à flor da urze de tonalidade amarelada, a alecrim azul, a rosmaninho violeta, a papoila alaranjada, a alfazema lilás, ao perfume pálido da queiró, ao amarelo do tojo, das mimosas e das maias, tudo flores silvestre que enfeitam os vales e montes que circundam o espaço geográfico que os meus olhos alcançam. Sinto-os nas narinas e encho os pulmões com esta miraculosa mistura de perfumes, fragrâncias únicas, cheiros mágicos que agradavelmente me perturbam e inebriam pela excelsa pureza com que são fabricados. Eu e o odor místico da terra carregado de substâncias pavorosas produzidas pela   alquimia generosa e fascinante da montanha. Escuto um zumbido suave que se assemelha a uma sinfonia doce, som continuo e persistente de milhares de asas de abelhas num frenesim matinal a recolher o polém que há-de ser transformado em delicioso e lambareiro mel.

Nasci aqui perto sob este manto azul durante a luz do dia e que à noite é um mar repleto de estrelas cintilantes, de sonhos e de muitas esperanças a palpitar dentro de cada um dos habitantes deste lugar único. Cegaram-se-me os olhos de tanto observar e contemplar as coisas inúteis deste mundo e num assomo de liberdade, decidi deixar-me invadir os sentidos pelo cântico puro das manhãs orquestrado por toda uma imensa variedade de pássaros e pela miraculosa sensação de paz que há nos magníficos rabiscos desenhados na água do rio, a ver e a ouvir apenas com o coração as vozes límpidas e inimitáveis da natureza.

É aqui me encontro hoje a descer a serra lentamente, a tactear com os dedos das minhas mãos os rostos austeros das pedras da beira do caminho e o infinito do céu que nunca alcançarei em vida. Desperto, atento a todos os movimentos do sol e dos ventos, a dar conta de muitos dos milagres deste fascinante amanhecer, experimento a felicidade que é tão rara. Quedo-me a ouvir sorrir os pássaros, as conversas das árvores a quem me entrego num abraço terno e fraternal, os suaves e meticulosos bailados das flores que o vento agita e que partilham com milhões de insectos  numa natural volúpia, a frescura dos poléns em melodiosa e matinal orgia.  Escuto o silêncio dos rochedos que a serra tem e são vultos arquitectónico eternos, omnipresentes esculturas esculpidas pela milenar persistência dos ventos, a imaginar o que sentirá um rio ainda mais solitário do que eu, a correr sem pressa lá ao fundo no seu milenar leito seguindo em direcção ao mar onde se fundirá em águas carregadas de salitre

Cego sou hoje, invisual me tornei por só desejar ver a desmesurada beleza deste mundo.

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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