ACONTECEU na vila de Baião há muitos anos atrás, num dia frio de Dezembro, durante uma das centenas de vezes em que eu percorria as sinuosas estradas das margens do rio Douro até chegar à cidade da Régua. Numa dessas viagens  fui absorvido pelo desenrolar de acontecimentos surpreendentes e irrepetíveis na minha vida. Impedido de circular pela neve que durante a tarde cobriu toda a região do alto Douro, recolhi a um bar residencial denominado “A Lareira” que era nesse tempo a única opção para pernoitar em Campelo, centro e zona histórica dessa localidade simpática.

Jantei na pequena sala que tinha um piano protegido com um tecido de veludo de cor vermelha  que silencioso, parecia repousar de árduos e quiçá grandiosos concertos acontecidos ali no passado.

O fogão de sala aceso, crepitava no canto direito do bar e assegurava o calor requerido por aquela noite, confortável dentro do estabelecimento mas gelada lá fora nas ruas onde a neve se ia amontoando sem critério ou forma que não fosse o de gelar e espalhar um manto de brancura sobre a terra.

Ela surgiu inesperadamente com vestes brancas de princesa, parecia um anjo que se desprendeu do céu para vir ali maravilhar meia dúzia de pessoas. Possuía a cobrir-lhe o corpo franzino, um corpete gracioso enfeitado por uma gola de babados com um lacinho no centro. As grandes mangas enchidas, tinham fitas de seda que formavam dobras e envolviam como fino algodão os seus franzinos braços. As camadas de tule de crinolina por baixo da saia, criavam uma roda e, um véu que se lhe desprendia livre da cintura, arrastava-se pelo chão de tijoleira vermelha encerada, produzindo um enfeite de noivado ou qualquer coisa extremamente fantástica saída de um mirabulante conto nupcial do Oriente.

Sentou-se ao piano e apressadamente alguém reduziu a luz e retirou a túnica de veludo vermelho que o cobria e um silêncio pesado tomou conta do espaço da sala de jantar. Os seus dedos graciosos e finos assentaram com a leveza de plumas na magia do teclado de marfim e uma música de movimento lento, majestoso e sombrio, transformou a atmosfera num romântico jardim solitário que repousava na escuridão da noite. Quando a média luz do pequeno recinto lhe incidia fugazmente no rosto, notavam-se-lhe os traços serenos e, a suavidade das linhas da cara, eram demasiado perfeitas para a fazer parecer simplesmente humana. Depois de uma triste e infinitamente amorosa melodia, uma espécie de mistério envolveu todo o movimento das abençoadas mãos da mulher pianista e, no evoluir da sonata Claro di Luna, o significado da fantástica e mística beleza que a atravessava,  revelou-se  ao poucos privilegiados seres humanos ali presentes. Foi como se uma lua gigante nascesse nesse instante e gradualmente banhasse esse antes obscuro jardim e o transformasse num cenário de sonho e esplendor maravilhoso.

Seguiu-se uma pausa sem respiros que pairou uns segundos sobre a sala e começou o segundo movimento musical e o pequeno espaço a encheu-se com espíritos alados que bailavam delicadamente e absorviam o prazer dos harmoniosos sons movendo-se com um abandono de ritmo que parecia transportá-los para locais muito distantes dali numa nuvem ou num turbilhão de prazer impossível de contar.

Um baque súbito e outro espaço de silêncio e suspense antecedeu o terceiro andamento. Como se uma lufada de vento que fustigasse as árvores lá fora e obrigasse a os espíritos a refugiarem-se à pressa num abrigo, as notas musicais caiam caóticas e em redemoinhos como se movidas  pela ventania quando sopra desvairada sobre as árvores e plantas, enquanto as nuvens corriam apressadamente pela fugaz brancura  das abertas onde se podia ver o céu. Então por entre esses espaços claros na escuridão gelada, via-se a lua cavalgando majestosamente no esplendor do universo inundando o fantástico jardim com doces e serenas músicas de luz.

Foram sessenta minutos de deslumbramento, o tempo preciso que durou a magnifica interpretação da lindíssima e celebre sonata de Beethoven.

Ecoaram na sala as palmas entusiásticas dos poucos que assistiram ao inesperado recital e, da mesma forma que surgiu, a pianista evaporou-se nos recantos que levavam aos aposentos dos hospedes um andar acima, deixando atrás de si um rasto musical nunca por ali escutado.

Aconteceu há tantos anos é certo mas ainda conservo comigo o perfume dessa noite mágica de vésperas de Natal e, num prodigioso assumo de memória, reconstruo o maravilhoso momento, um olhar encantador de mulher, as vestes, as delicadas mãos e o angelical rosto da mais insigne e maravilhosa pianista que alguma vez o Douro conheceu.

Felice Natale Fransesca, buona notte!

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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