SEBOLIDO aparece ao fundo da serra da boneca, encravado entre as fragas da Abitureira, os Penedos da Sombra e o rio, estendendo dois braços lancinantes na paisagem. É terra de lavoura de pescadores e de mineiros. Casas afidalgadas alinham-se aqui e ali no caminho que conduz à igreja de S. Paulo. Não há luz eléctrica em Sebolido como não existe nas outras terras vizinhas. A iluminação faz-se com candeias, com lampiões a petróleo, com velas de cera e de sebo. As noites são escuras como breu e só muito raramente os difusos clarões das artesanais lanternas cortam as cerradas trevas, quando algum ser aflito procura ajuda no centro do lugar ou ainda se uma bruxa vai lavar roupa à presa de Junçadelo junto às portas fronhas da entrada da quinta da Moira. Fazem alarido quando se juntam, batem com as mãos na água e agitam-se desesperadas naquele sitio deserto. Cobrem os corpos nus com longos lençóis brancos que lhes dão um ar mais sinistro no meio da escuridão nocturna.

Dizem ser as mesmas que assombram as margens do rio Mau. Aparecem sempre em alturas de lua cheia a espalhar o medo e o terror por estas bandas. Dizem também que as bruxas são mulheres viúvas que vivem sozinhas no povoado e que quando chega a escuridão, dão largas às emoções angustiantes contidas durante os dias com luz. É gente que vive em angústia e desespero permanente curtindo solidões e tristezas quase eternas. Desnorteadas, sem ninguém amigo que lhes estenda a mão solidária e amenize as suas dores pessoais, aflitas comportam-se como mortos-vivos.

Sentado no rebordo circular do cruzeiro, o Cipriano vai assistindo à passagem dos companheiros a caminho da mina. A sinistra fila de homens que avança nas trevas, produz um rumor surdo e trágico que arrepia a própria natureza em repouso.
O mineiro está de baixa médica há seis meses, doente, muito doente. É só pele e osso o Cipriano. A carne se é que existiu naquele corpo, já há muito se ausentou definitivamente. Ficou esquelético, tísico, mais parece um cadáver.
Vencido pela silicose que lhe come os alvéolos pulmonares, acalenta, todavia, uma réstia de possíveis melhoras. Mas fora-se já a terna e robusta juventude, o jogo do peão, da malha e da pincha dos botões. Agarrou-se ao trabalho da mina como último recurso para poder sustentar os filhos. De uma vez só, rendeu-se ao tormento que no íntimo sabia que acabaria assim.

Breves foram as ilusões da mocidade perdidas entre alguns dias de escola e do carregar aos ombros a saca das pinhas que apanhava no monte para acender o lume. O sonho que tivera um dia e acalentara na alma, era lindo e abrasador, ocupara-lhe o peito todo na peregrinação dos primeiros anos da sua existência.
Ser pescador do rio era o desejo deste homem e de muitos outros que as minas destruíram.
Mas a arte de cercar o peixe no rio Douro, não dura mais que três meses. Depois, com os primeiros alvores do verão, finda-se em tentativas infrutíferas de lanços e lanços perdidos com as redes a regressar molhadas, mas vazias de peixes. O rio dá o pão com fartura, prenhe de lampreias, sáveis, barbos, escalos e bogas, sacia as barrigas dos pobres por algum tempo e, desbarrigado que é, deixa o povo de mãos atadas à cabeça, sem saber o que fazer à vida.

O Cipriano passa a mão esquerda no cachaço e olha o horizonte pardo e largo que têm pela frente. Há rugas nas faces do mineiro que são traços adquiridos pela dureza da vida e não pela idade que ainda não justifica esta velhice precoce. O cigarro forte baila-lhe nos beiços apagado como se tivesse nascido ali e fosse perpétua a sua estadia. Queima como tição de fogo, o resto de vida que ainda pode existir naquele corpo.

Pouco dorme, a tosse rouca e profunda é um tormento e, a falta de ar nos pulmões, abafa-o e sufoca-o deixando-o na iminência da morte. Levanta-se muito cedo para não perturbar o sono preciso e merecido da sua mulher e é para aqui que vêm matar saudades dos amigos, da antiga lida, ou então, do meio salário que perdeu por ter metido baixa.
Agora olha para as mãos onde a vida lhe seca desesperada. Quer gritar, soltar ao vento deste belo amanhecer a revolta que alberga no peito há muitos anos. Esforço inútil, apenas um sopro canceroso e raiado de sangue sai da sua boca e fica agarrado ao lenço tabaqueiro que a tremer levou aos lábios. Nem um som produz a sua voz embargada, parece que nunca será capaz de tal ousadia, de soltar o lancinante grito que não seria mais do que o justo clamor dos inocentes. Há-de ficar-se pelo silêncio eterno, levará para a sepultura todos esses sofrimento  inenarrável.

Não há lágrimas nos olhos parados do mineiro, os choros, quando existem, são todos íntimos, apenas se lhe nota a quebrar a aparente serenidade, umas gotas de suor gelado na testa franzida. Tudo são sombras que amedrontam e confundem, tudo é silêncio neste claro e deslumbrante amanhecer. A dor sente-se no peito e é só nossa, é uma mágoa funda, intransmissível, é de cada um dos oprimidos do mundo. Ninguém nem mesmo um misericordioso Deus de todas as religiões os podem ajudar em semelhantes circunstâncias. O fatalismo individualista da vida de muitos, impede as ajudas, obstruí sentimentos, mata a piedade e a solidariedade dos mais abastados. De vez em quando reluz junto ao cruzeiro trabalhado em cantaria de granito por mãos de pedreiros exímios artesões de Alpendurada, a trémula luzinha do cigarro que o Cipriano reacendeu lentamente e que, sem remorso algum, lhe vai antecipar o fim há muito programado. Aqui neste recanto onde dão a volta as procissões nos dias de festa e se entoam cânticos de louvor a S. Paulo e à Virgem Maria, está sentado um homem que nunca aprendeu a rezar.

Isto começou faz muito tempo. A tosse, a falta de ar nos pulmões, a dificuldade em oxigenar o sangue que permitisse viver saudavelmente, transformou-o neste ser sem vontade, mas vai-se amanhado consoante pode escondido na ténue esperança de melhoras que no íntimo sabe já não existirem. Daqui em diante é a piorar a olhos vistos. Já viu outros mais novos do que ele embarcarem para a terra fria. O médico na primeira consulta, todavia não fora peremptório:
– Isto é pó Cipriano! Abifa-te homem que isso passa, senão, mete-se a reforma, ficas a receber uma tensa, és capaz de dar trinta por cento de pó, são mais quinhentos mil-réis por mês a somar ao salário!

– Abifa-te!

Esta palavra martelava a cabeça do mineiro. bifa-te!
Abifa-te!
Como é que podia abifar-se se nunca na vida tinha visto um bife à frente dos olhos!?
Abifa-te!
O doutor deve estar tolo, pensou. Ele saberá quanto custa um quilo de carne de vaca?
Então num relâmpago que a memória consentiu, vieram-lhe à cabeça as cenas diárias da ceia. A mesa da cozinha estreme, atarefada a Madalena na lareira a remexer nas panelas, em redor, os oito filhos fraldrucas, no meio da mesa, um prato de barro com um galo desenhado no fundo vai criando ilusões e, em volta deste, dez garfos de ferro com cabo de madeira à esperavam  os bifes. Eles vinham, redondos, castanhos, com casca e, por cima deles, mais cinco bifes, compridos, escamudos com cabeça, rabo e tudo o mais da farta pequenez dos peixes.
Abifa-te Cipriano ou morres!
Não há escolha possível entre as duas palavras.
– Abifa-te ou morres!
Os bifes são sardinhas, compradas ao Zé Cantador de Escamarão, cinco para dez bocas, mesmo assim não é mau de todo, é que o dinheiro da baixa que recebe da Caixa de Previdência, não dá para mais. Meio salário, como meia é agora a cabaça do vinho americano tinto. A farmácia leva tudo. Sendo assim, morre Cipriano, opta pela parte mais barata, não há hipótese, só te resta morrer.

Esta é a verdade nua e crua, tão verdade, tão nua, tão crua, que o sino da igreja de Sebolido o irá confirmar muito em breve dobrando a finados.
Que desgraça de vida!
No entanto há cães em Sebolido, Rio Mau e Pedorido que comem restos de bife todos os dias. Os que se marram nas perdizes da Fraga Amarela e os que empeugam nos carreiros do Areio de Hortos atrás de coelhos. Cães de raça e de caça tratados como gente.
O Cipriano vai morrer esganado pelo pó, faltoso de ar nos pulmões, aflito na agonia e por falta de bifes. O médico está farto de saber desde a primeira hora, mas é impotente perante a descomunal força da indústria mineira. Já dera a receita a muitos, a mesma, a certidão de óbito antecipada, sem nome, sem data, sem critério, desumana, injusta e cruel.
Abifa-te!
Nada, nem mesmo a morte pode parar a estranha fila que vem a marchar desde Penafiel, Alpendurada, Penha Longa, Marco de Canavezes e de muitos outros lugares, engrossando sempre até perfazer algumas centenas. O som das botas de água a calcar as pedras dos caminhos, produzem um rumor medonho. Parece um exército, mas não é, são mineiros a caminho da morte.

Mas morte natural e assistida não existe nestas bandas. Morre-se apenas, deixa-se o mundo sem se saber porquê, mas conscientes de que aqui é muito difícil viver. Parte-se com um misto de consolo e desespero estampados nos olhos. Alguns, usam as sôgas dos bois para se enforcarem, outros finam-se nos poços do rio Douro, do rio Arda e do rio Mau afogados. Viver é um martírio, um verdadeiro degredo. Podia até morrer-se mais não fora um último pensamento solidário com os que ficam por cá e que terão de suportar o preço dos caixões que esse sim inviabiliza algumas vontades urgentes de partir deste mundo.
Porém a morte já não está em Sebolido, em Melres nem em Rio Mau, sequer em Pedorido nem mesmo em lado nenhum conhecido nestas redondezas. Saciada, regressou a Germunde onde ficará à espreita e continuará a matar silenciosamente em golfadas de pó negro e entulho que cobrirá os corpos nus dos mineiros por dentro e por fora.

A morte deixou a Madalena com um bando de filhos pequeninos encostada à ombreira da porta da cozinha como um barco amarrado a um cais para sempre. Mas virá novamente para alguns, talvez dos lados do Poço Negro, da Fraga Amarela, do Vale dos Lobos ou até do Penedo Gordo, mas o mais certo é vir dos lados das minas sem se saber quando nem porquê. Vai-se adivinhando nas badaladas do sino, na força da nortada que empurra barcos, no cavadio turbulento e ondulante das águas do rio quando parece um louco e também na escuridão das noites povoadas de formas fantasmagóricas, de lobisomens, de tardos e de bruxas. Virá sempre, sempre e as gentes sabem-no desde que nasceram. Por isso não estranham, não se pasmam, nem a temem, convivendo com ela numa indiferença e num estreitar de laços deveras arrepiante.

O Cipriano vai permanecer ali parado como estátua humana erigida à silicose a ver os antigos companheiros desaparecerem na curva do caminho enquanto a claridade começa a descobrir as árvores, as casas e os campos de Sebolido.
O rio Douro serenou mais uma vez. É um encanto. Espelha uma magnífica lua prateada e parece um poema de amor, uma sinfonia silenciosa, o canto de uma possível esperança ou o choro mais inocente dos puros.

Publicado in “Chove em Pedorido”

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

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