O Outono não é apenas uma estação, é um estado de graça. Um ritual ancestral de entrega, onde a natureza despeja as suas cores como um pintor que desmaia sobre a sua obra exausto, mas glorioso, esvaziado de si pela grandeza da pintura que criou.

Assim é o Outono nas margens do Douro.

Um artista que não usa pincéis, mas vento, luz e os ritmos biológicos que tecem a vida e a morte sobre os socalcos de xisto.

Aqui, a paisagem não é estática; é uma performance efémera onde as cores se despedem com uma dramaticidade sublime, como um último adeus que é também um princípio.

E então vem a inclinação, esse gesto profundo de curvar-se perante a terra, de derramar o néctar da existência e aceitar que há uma sabedoria maior na queda do que na permanência.

É a metáfora última do Outono humano em que precisamos de deixar cair as folhas que carregamos, as ilusões, as pressas, as certezas vazias, para nos dedicarmos apenas ao essencial.

Como as videiras, que só dão os frutos mais doces depois de podadas, nós também precisamos de nos esvaziar para renascer.

Esta não é uma crónica sobre decadência, é sobre rendição, é sobre encontrar beleza no fim das coisas, seja de uma folha, de um amor, ou de uma etapa. É entender que morrer não é um fim, mas uma forma profundíssima de participar no ciclo eterno da transformação.

E não quero descrever a agonia. Apesar da beleza trágica que transporta, quero cantar, cantar e oferecer-vos este néctar de que falo, a permissão para se renderem, para confiarem na queda, para saborearem a melancolia como quem prova um vinho raro, amargo no gole, mas com uma profundidade que permanece muito depois do copo se esvaziar.

Neste princípio de Setembro, em que o sol amarelece as folhas das nossas vidas, brindemos.

Brindemos ao sol, aos poetas destas terras e às estações da alma.

Que continuemos a derramar sobre a página em branco do mundo, esta luz vermelha e doce tão passageira quanto eterna, que é a cor da entrega, a cor da transformação, a cor da vida que aceita morrer, para um dia voltar a florescer.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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