SENTADO na pedra à beira do rio escrevo memórias de fantasmas vivos, de locais misteriosos carregados de magia cercados por três rios, de gente feita de sonhos, ilusões, de terra e de água. De ventos que por aqui passam a gemer loucuras eternas. De barcos que se afundam nos olhos dos pássaros, de árvores centenárias que cantam abraçadas a mim ao amanhecer. De verdes e azuis com que se fabricam todas as fantasias, de crianças que ensaiam pequenos e delicados voos a dois passos dos ninhos. De velhos plantados no chão bruto da taberna a engolir saudades e lembranças. De pequenos regatos que por aqui correm e secam as pedras com lágrimas.

De tudo, de nada, do provável, do improvável, das mãos que afagam com a ternura dos inocentes, dos rostos enrugados que contam fantásticas histórias, dos cabelos que o vento agita, dos que emigraram para longe, da despedida das rolas que cada vez que aportam aqui, são muito menos, da chegada das andorinhas também em vias de extinção.

Do calor do corpo, do frio da alma, de ti sonho meu, que criei com o barro da imaginação, de mim que não me reconheço no almanaque desta vida, da doçura dos beijos, do calor dos abraços agora proibidos, do ontem que perdi, do hoje que me escapa, do agora que ilude por que pode já não haver amanhã.

Sentado na pedra à beira do rio espero o solstício, o clarão que vem iluminar a terra, anunciar a vitória da luz sobre as trevas e refazer a esperança que se julgava perdida.

SOBRE O AUTOR: Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro;  Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook,  Amanhecer e Barcos de Papel, estes dois últimos de poesia. Colabora com o Correio do Porto desde junho de 2016.

1 COMENTÁRIO

  1. SOLSTÍCIO DE VERÃO
    O Solstício de Verão deste ano de 2020, ocorrerá hoje, às 22h 44min, marcando o início da estação no hemisfério norte. Hoje o sol estará o mais alto possível no céu e aquando da sua passagem meridiana atingirá, em Lisboa, a altura máxima de 75°.
    Solstício ou “sol que não se mexe” (do latim “solis” e “sistere”) é o momento em que, durante o seu movimento aparente, o astro-rei atinge a maior declinação em latitude, medida a partir da linha do equador.

    Que este solstício traga «o clarão que vem iluminar a terra, anunciar a vitória da luz sobre as trevas e refazer a esperança que se julgava perdida.»

    O mundo está a precisar urgentemente desse clarão e dessa esperança.

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