APÓS Bolsa de Valores e Outros Poemas (Temas Originais, 2010), propõe-nos agora Domingos da Mota um novo ciclo poético, que intensifica e depura muitas das linhas essenciais que já nessa obra se nos impunham.

Num poeta do rigor e da palavra medida, o título não poderia deixar de sinalizar os traços fundamentais que individualizam esta escrita e, muito em particular, o livro que nos ocupa: Pequeno Tratado das Sombras. Pequeno adequa-se ao tom menor deliberadamente assumido por uma poesia que rejeita grandiloquência ou pretensiosos mecanismos retóricos e que sabe que, do sublime, lhe restam apenas os sinais de uma rouquidão que se não disfarça, porque “a garganta magoada dói” (p. 31). Mas, ainda assim, tratado, quer dizer, um esforço de sistemática reflexão, de procura de métodos de abordagem dessa matéria de que tanto se ocupa a poesia, a sempre inapreensível vida, a nossa, a dos outros, a do mundo. Há, assim, um sustentado tom meditativo que marca os versos e faz deles, muitas vezes, uma espécie de portátil exercício filosófico, ao correr dos dias. E sobre esta prática poética caem inevitavelmente as sombras, mais densas e insistentes do que no primeiro título do autor – não será por acaso que a uma idêntica dedicatória se acrescenta agora “aos queridos mortos”. Este muito humano apuro da contingência designa-o bem melhor o próprio poeta, quando nos explica que prevalece uma “rouca decantação da escassez” (p. 11).

No entanto, estamos perante poemas sem melancolia nem misticismo. Vida e morte são sobretudo uma questão de visibilidade, isto é, de luz, a que cega e a que falta, graduada nas sombras, suas irmãs dilectas. A epígrafe de Zagajewski fala-nos, precisamente, da arte, em vias de extinção, de viver na subtileza das sombras, quer dizer, nos infinitos cambiantes da luz.

A fidelidade a esta matéria sensível do mundo articula-se com uma concepção artesanal de poesia, que é também objecto dos próprios textos. O poema resulta de um esforço racional de construção, procura assumir uma forma depurada e lapidar, muitas vezes metrificada nos seus versos quase sempre curtos e de vocabulário, não raro, precioso, mas sem derrame lírico ou milagre de inspiração (diz-se ainda na p. 31, “assim sem mais / Ninguém com paciência para os ais”); aspiram as palavras a ser arquitectura (“pilastras, arcos, capitéis”) que suporte acontecimentos fulgurantes, no limite essas estrelas cadentes que assombram o texto que assim mesmo se designa (p. 41). Ou então pretende-se um poema-faca, revólver ou navalha (p. 38), que não se limite a sinalizar, mas possa responder, de igual para igual, à disforia do mundo, que em vários momentos aqui se denuncia, embora com fundadas dúvidas sobre a utilidade do protesto poético (“Parábola sobre a Utilidade das Coisas”). Por este livro não deixam de passar, naquele “verso que acera o gume (…) e apura o vício” (p. 13), “as putas da Avenida”, “uma velha morta” ou o corpo exangue do menino Aylan Kurdi.

Mas se o poema visa, por labor oficinal e capacidade reflexiva, suspender o fluxo do tempo, dá-se, ele próprio, como acontecimento necessariamente vivo e, nessa precisa medida, precário. É aqui que entronca uma das virtudes da poesia de Domingos da Mota, em que se salienta um humor corrosivo e o que poderíamos chamar de exibição do carácter performativo da arte poética, que solicita a cumplicidade lúdica do leitor. Tal acontece naquela espécie de desconfiança produtiva relativamente à mais clássica das formas poéticas. Veja-se, entre outros exemplos, os dois sonetos que a si mesmos se questionam e desconstroem, em directo e ao vivo: “Soneto” (p.15) e “Como um Fósforo” (p.30).

Há nestes versos fogo e cinza e por aqui passa também algum “pathos”, ainda que temperado por uma distância irónica e uma espécie de bonomia que são como que uma sua marca de água. Os poemas mostram-se sensíveis à manifestação do mais intenso fulgor da vida, ao “relâmpago contínuo”, ao camoniano “lume vivo” (p. 10), mas também sabem do desgaste inerente às existências, nomeadamente do amor, porque (e é esta uma grande questão do livro) tudo “se perde, por demais” (p. 28)- isto é, em apuro final  e por demasia.

Um dos aspectos que mais nos toca, poema após poema, é precisamente o elogio da vitalidade da vida (passe a necessária redundância) em diálogo com o tempo e, em breve, o vazio e o nada. Mas há neste percurso, apesar de dúvidas e cepticismos, um triunfo da poesia, por vivamente de tudo isso se falar. Toca-nos, por exemplo, uma sabedoria do ver, a exploração do “campo visual”, para retomar o título de um dos poemas, mesmo se a propósito de afectos e tentações (pp. 24 e 25), isto é, uma arte muito subtil que conhece o infinito jogo de luzes e sombras (a que, aliás, também alude, expressivamente, este livro na sua dimensão de objecto): “Se olho para alguém que me ilumina / Até a sua sombra me fascina.” (p. 26) ou “Sendo a sombra da sombra de uma alvura / Mais branca que a brancura (…)” (p. 27). A breve trecho, luz e tempo se fazem de uma mesma matéria essencial, a “luz tão negra” e “ao rés do nada” (p. 53), naquele limiar em que “para sempre” e “nunca mais” se confundem (p. 48). É também triunfo desta poesia o modo como tão plenamente se fala do vazio e das suas pegadas, quando, por exemplo, se diz que “(…) o eco de nada / é tudo, afinal” (p. 36), essa “torrente / do vazio” (p.54), ou ainda quando se pressente que tudo “conjuga o silêncio até ao osso” (p. 55). De alguma forma, há um devir música do silêncio, numa sensibilidade cósmica a que não é alheio o exercício da poesia: “(…) Silêncio / que transmuda: mineral?, / sutura vegetal?, talvez  // romã. Ou a música / silente, sideral, à beira / da fonte aldebarã.” (“Nocturno”, p. 56). Ao puro vazio se responde com a hipótese de uma continuidade dos seres num mais amplo fluir cósmico (“Com a essência das coisas, talvez surda / Um ácido, uma base, uma semente / Que fecunde a matriz de um novo ente.” -p. 58), mas tudo isto sem complacências, porque nunca se ilude “ O corpo decomposto a terra chã / Anónimos os restos os destroços” (p. 59).

Porque terminar é uma arte, aquela em que vida e morte se confundem, tal e qual nos foi sugerido, verso a verso, aqui fica um dos mais belos poemas deste pequeno mas intenso tratado das sombras – uma reticente, mas tão poeticamente afirmativa, “Quase Elegia” (p. 49):

Quase Elegia

Anoiteceu depressa
esta manhã tal o peso

das sombras e da bruma.
Reparo que o vermelho

das romãs é de um roxo
puído que se esfuma

qual lampejo de sol
amarrotado que brilhasse

como se fosse de breu.
Anoiteceu depressa 

esta manhã. Anoiteceu
o tempo ou fui eu?

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Pequeno Tratado das Sombras
Domingos da Mota
Busílis, dezembro 2018

Texto originalmente publicado na Gazeta Literária – Inverno 2018 | n.º 4 da AJHLP

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