As águas ondulam suaves, refletindo o céu cor de cobre de Março, e cada movimento é uma dança que abraça as minhas mãos, mesmo vazias. As papoilas, em vermelho e laranja, flutuam no vento como pequenas tochas de fogo que iluminam memórias esquecidas e sonhos adormecidos. Cada pétala que se inclina é um gesto de reconhecimento, e dizem-me que eu existo.

O cheiro da terra molhada sobe e enrola-se ao meu redor, trazendo consigo a fragrância de mil primaveras passadas, de todos os sorrisos que ficaram entre o vento e a água. É um perfume que fala de ternura, de quietude, de um amor que não exige nada além da cor.

O sol desce devagar, tingindo as margens de ouro e lilás, e o reflexo na água torna-se um mapa secreto, mostrando caminhos que apenas o coração consegue percorrer.

Cada onda que toca a margem é uma nota de música silenciosa, e cada suspiro do vento carrega um verso que não precisa de ser escrito.

Eu estou aqui, e por isso tudo pulsa. O rio pulsa. As papoilas pulsam. O vento pulsa. Até o silêncio pulsa, com a intensidade de quem conhece o milagre de existir sem pressa, sem pressões, sem ausência, apenas com plenitude.

E neste instante, para mim, nada mais existe além deste sagrado encontro entre o meu ser e a alma do mundo. O passado e o futuro dissolvem-se. Resta apenas este agora imenso, infinito, onde o amor, a luz, a água e a flor se tornam num só.

O Rio Douro corre com a serenidade de quem nunca precisou de chegar a um destino. A sua pele de água guarda o céu e desfaz-se nele, num gesto contínuo de abandono. Não há princípio nem fim, apenas o movimento perfeito, repetido desde muito antes da memória.

E o vento passa.

Não empurra, não exige. Apenas toca. Inclina as papoilas, uma a uma, e elas respondem com esse tremor delicado que é a sua forma de existir. Vermelhas, breves, suficientes. O campo torna-se um mar suspenso, onde cada flor é uma chama leve, acesa contra o esquecimento.

A água escuta, escuta as margens, as raízes escondidas, as pedras que nunca partiram. Leva consigo o que deve partir e deixa o que deve permanecer. Há uma sabedoria antiga neste gesto; a de que nada se agarra, nada se perde verdadeiramente.

As papoilas continuam a flutuar no vento suave de Março, anunciando sem palavras que a Primavera não é uma estação, mas um regresso. Um regresso à forma mais simples de ser; abrir, tremer, existir, desaparecer.

E o rio continua.

O vento continua.

A água continua.

Como se o mundo, por um instante eterno, tivesse encontrado o seu próprio equilíbrio já sem mim.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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