A nostalgia vem com este ar de outono e solta lembranças na melancolia do fim de tarde que a fotografia mostra.
Olho a cidade retratada, quero identificar-me com o seu ar pardacento, mas aparece o rio a dominar a luz, é nele, nessas luzes que se debruçam sobre as águas que parecem estrelas do firmamento celeste, que prendo o meu olhar.
Essas constelações inventadas pela corrente parecem guardar um segredo que o cimento e a usura esqueceram. Na ondulação leve da água, os reflexos distorcem-se e ganham um compasso próprio, como se tentassem soletrar as memórias que o vento da estação me trouxe.
É um diálogo mudo entre o brilho e o abismo. Olhar para elas é perceber que o rio não se limita a espelhar a noite; ele digere a solidão urbana, transforma o artifício em mistério e convida o pensamento a afundar-se também, na esperança de resgatar, lá no fundo, aquilo que ficou por dizer nessa noite de um Outubro distante.
De súbito, a lente do meu olhar estala: a fotografia revela-se. O que era apenas o registo estático de uma margem do Douro, um clique mecânico que congelou a luz sobre a Ribeira do Porto, transborda da moldura. O sublime irrompe precisamente no milímetro que separa a foto do meu peito.
A imagem capturada já não é sobre o rio ou a cidade; é o meu próprio aniversário detido no tempo, o sopro invisível de mais um ano que se acrescenta à alma. Ali, naquela revelação repentina, a nitidez fria da máquina dissolve-se no calor da memória.
Fazer anos hoje é olhar para esta velha imagem e perceber que não envelheço: continuo a habitar este cais de pedra, a receber de presente o reflexo dourado das águas e a certeza, inteira e serena, de que tudo o que amei continua a correr dentro de mim.
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro; Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras – Conversas com um Rio; Fado Falado – Crónicas do Facebook; Amanhecer; Barcos de Papel; Casa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.






