PODIA ser o título do mais belo poema de Fernando Pessoa, mas não é. Falta-lhe o nome de uma mulher, como acontece em muitos dos poemas que lhes são inteiramente dedicados, por razões de preservação da identidade das ditosas musas que inspiram os poetas.

Naquela primeira manhã de Maio, demos as mãos e fomos sentar-nos à beira do rio, num local quase inacessível por terra e que, por isso, ainda é um santuário onde imperam silêncios milenares que se ouvem, vindos das falésias sobranceiras às margens. A agrestia do sítio, onde tudo nos convida a meditar, transforma-se em beleza que quase nos magoa de tão pura, maravilhosa e simples.

De tempos a tempos, um comboio surgia vindo das profundezas dos rochedos e passava a correr na rota do Pocinho, ou um pato selvagem riscava com as patas, o seu original trem de aterragem, a tranquilidade das águas, ao ensaiar um novo voo levitando sobre elas, como se fosse um deus a operar saborosos milagres.

Os teus olhos vagueavam inquietos, talvez procurassem na curva que o rio faz depois da eclusa da Valeira, o barco da tua juventude, aquele que percorria o mar do Funchal e de Porto Santo, e trouxesse à proa o teu primeiro amor.

E o navio veio vagarosamente, quase silencioso no sulcar da água que rasgava com a afiada proa. Passou por nós e tu, já de pé e de coração sobressaltado, soletravas baixinho as letras do nome do navio desenhadas na proa: “Pirata azul”.

Não restavam dúvidas, era o mesmo barco desse tempo, agora carregado de gente em viagem turística, mas nenhum era aquele de que nunca te vais esquecer enquanto viveres.

Os poemas têm vida própria, quando se apercebem das nossas momentâneas fragilidades emocionais, citam-se a eles mesmos, e os versos que os compõem deixam de ter dono, de ser apenas as letras de palavra que a imaginação literária de alguém juntou, para se transformarem em músicas celestiais:

“- enlacemos as mãos.”
As tuas, longas e frágeis de dedos perfeitos. As minhas, mais fortes, são amarras com que se seguram os barcos.

Sussurrei-te ao ouvido a frase que o poeta sublinhou. E os nossos dedos cruzaram-se, num aperto que julguei nunca mais ter fim.

O poema continuou a evoluir, na frescura da manhã. Sem nunca perder a essência de quem o criou, lembra-nos a efemeridade das paixões. Abandona-se na incerteza do momento e parece sucumbir ao desânimo, sem recorrer à magia que um olhar pode criar e ser a salvação das nossas vidas:

“- Desenlacemos as mãos porque não vale a pena cansarmo-nos. Quer gozemos, quer não gozemos, passamos como o rio. Mais vale passar silenciosamente”.

Estremeceste quando retirei a minha mão da tua.

Ninguém deve sufocar a voz de um poeta, é inútil, não se pode calar o coração do poema que continua a bater, apesar da dor que pode causar-lhe a morte estar iminente:

“- Amemo-nos tranquilamente, pensando que podíamos, se quiséssemos, trocar beijos e abraços e carícias. Mas que mais vale estarmos sentados ao pé um do outro, ouvindo e vendo correr o rio.”

E assim ficámos longo tempo. O café arrefeceu no cristal das chávenas, porque estávamos presos um ao outro e aproximava-se a hora de partir.

Tu regressaste à casa onde tua mãe nasceu. Subirias ágil as antigas e coçadas escadarias de granito onde repousam as tuas recordações, para partires dali no sentido da foz do rio que os dois amamos.

Eu fiquei a contemplar o rio, sentado na antiga estação de Ferradosa, porque perdi as coordenadas. Não consigo, sem ajuda, traçar o azimute que me leve ao teu encontro.

“- Ao menos, se for sombra antes, lembra-te de mim depois. Sem que a minha lembrança te arda ou te fira ou te mova, porque nunca enlaçámos as mãos, nem nos beijámos. Nem fomos mais do que crianças”.

Outro Maio há-de voltar, e eu ainda estarei sentado à beira do rio, à tua espera.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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