É o último barqueiro vivo de todos os que fizeram parte das tripulações dos Rabões da Esquadra Negra, garbosos barcos ou pássaros gigantes já extintos, construídos com madeiras extraídas das florestas desta região, escurecida pelo uso. Negros, da cor do minério que transportavam rio abaixo até Campanhã, às portas da cidade do Porto. Carvão antracito, combustível que iluminava e aquecia a cidade Invicta, e que a arder nas caldeiras das máquinas, fazia correr os comboios por todo o país.

O António Monteiro avança com passadas incertas como quem apolega o chão que pisa, a caminho do centro do lugar onde as tardes de Sábado se fazem ao gosto de conversas repetidas ao longo de muitos anos. Sim, porque os dias de semana, ocupa-os em Valmoural, nas hortas onde cultiva as verduras que constituem parte da dieta alimentar da sua família. É nas horas livres que procura conhecidos e amigos da infância, sobreviventes, como ele, da razia que o avançar da idade ou as doenças prolongadas vão fazendo com a regularidade que a natureza humana impõe. Falam de tudo: do tempo, como experimentados, mas falíveis meteorologistas, dos pais, dos avós, dos filhos e dos netos. Das esposas não se diz nada, o respeitinho é muito bonito. Lembram também aqueles amigos e companheiros que já não fazem parte do mundo dos vivos, mas que, nessas horas mágicas, se juntam às improvisadas tertúlias, na permanente e respeitosa evocação das suas saudosas memórias. Relatam uns aos outros passagens fantásticas, acontecidas no percurso dos dias que viveram. Muitas são verdadeiras, outras produto da imaginação que não lhes falta, mas sempre temperadas com a inocente inofensiva malícia dos velhos.

Nos dias de Inverno, o barqueiro cobre a cabeça com boné jornaleiro de cor escura e agasalha o tronco e os membros dentro de uma samarra também escura. Caminha sem pressa, tanto poderá ir no sentido do largo, como apanhar transporte para Castelo de Paiva ou outro sítio qualquer, onde reclamam a sua presença num ou outro colóquio intimista, dedicado às vivências, às artes e fainas no rio Douro. Por ali espalhará, a quem o quiser ouvir, as memórias dos dias antigos em que, ainda jovem, derretia as forças do corpo agarrado a uma das pás, a remar num Rabão no rio que o viu nascer. Ressuscitará tudo o que viveu ao mais ínfimo pormenor como só um barqueiro é capaz, os nomes, os apelidos dos antigos camaradas de profissão, os processos rigorosos da navegação, o trabalhar das correntes que a água do rio tomava por alturas do Poço do Barrão na Varziela, nas Lobreiras em Atães, em todos os pontos que escondiam penedos submersos e que raramente eram percetíveis à vista desarmada, obrigando ao uso da perícia das tripulações.

Sim, porque o rio tem as manhas de sete raposas, quem julgar que o pode vencer à traição ou por meio de aguçada esperteza, acaba com o Sagro da embarcação rasgado, ao roçar nas rochas mergulhadas na água do leito ou despedaçado nas falésias e escarpas que existem nas margens ao longo de todo o seu percurso.

Contará histórias que fazem parte do riquíssimo e memorável património do rio Douro, despertará largos sorrisos em toda a assistência presente, quando usar, com naturalidade, o humor que lhe é característico, ou fazer toda a gente recuar nas cadeiras, quando apontar a ameaçadora proa negra do Rabão na sua direção, no relatar de perigosa manobra durante uma das muitas tormentas que viveu sobre a água. Depois voltará a calmaria ao rio e ao auditório. A voz passará a ser apenas um sussurro magoado, e as águas do rio que ele trás nos olhos e os humedece quando, comovido, lhe vêm à memória os rostos daqueles que o trouxeram a este mundo, amainam na doçura final da notável narrativa. Nessa altura, fará uma pausa silenciosa ao mesmo tempo que, calmamente, enfiará a mão direita no bolso da samarra, para tirar de lá o lenço tabaqueiro com que enxugará o repentino e inesperado humedecer das vistas.

Afinal, um barqueiro como ele, é herdeiro de toda a riquíssima história do enorme tráfego fluvial que havia neste troço do rio. Nasceu de uma família de nove irmãos, no meio das redes dependuradas na casa dos seus antepassados. Ponteou-lhes os rasgões nas malhas com a agulha de madeira, como se fosse um hábil artesão a reparar os mais finos dos bordados, em rica toalha de linho. Com a mesma ternura de uma mãe que remenda as roupinhas da sua criação. Como tantos outros nascidos na sua pequenina aldeia piscatória e outras vizinhas, é filho e neto de gentes do rio, todos pescadores e barqueiros, mulheres e homens que remaram durante a vida toda em barcos Valboeiros ou Bateiras de carga nas azáfamas da pesca e no transporte de diversas mercadorias com destino ao cais da Ribeira, na cidade do Porto. Por isso quando passa orgulhoso a caminhar pelas ruas da sua terra Natal, Rio Mau, é como se fosse um barco que passasse nas águas do rio, que agora tranquilo, corre ali ao lado, de passo certo com o dele, os dois sorridentes e felizes, cada um a caminho da sua própria foz.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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