SE já fosse Primavera, havia de te levar pela mão a ver a imensidão do mar. Não é longe daqui a casa das águas salgadas, fica à distância de um braço estendido a pedir afectos e carícias, a dois passos de uns lábios a morrer por beijos.  Tão perto de nós, que conseguimos ouvir o seu bramido de aflição quando a tempestade se abate sobre as águas e o vento arma ondas colossais que amedrontam as aves marinhas, em desesperados voos acrobáticos tentando atingir segurança em terra firme.

Se a Primavera já tivesse chegado à nossa praia trazendo com ela o sol e as flores, havíamos de avançar nus pela areia dentro, como se fôssemos visionários de uma outra realidade onde ninguém formasse antecipadamente julgamentos discriminatórios sobre a conduta dos seus semelhantes, sobre o direito à liberdade e às diferenças.

Decoraríamos a pureza do oceano nas nossas mentes, a sua autonomia, o seu fascinante modo de ser e a grandeza de que são feitas as entidades que existem, apenas para fazer do mundo um lugar onde os sonhos e o amor prevaleçam e nunca tenham fim. E nesse instante de plena independência do corpo e do espírito, deixaríamos que a espuma que as águas salgadas trazem, nos subisse lentamente pelos pés, nos alcançasse os joelhos e as coxas e nos fizesse tremer de emoção com o agradável frio a humedecer a nossa mais funda intimidade, desprotegida e exposta às sensuais manigâncias que a Natureza sabe produzir em especiais circunstâncias das nossas vidas. Como se essa agitação incitasse deliciosas reações nas mucosas sensoriais que os nossos corpos têm.

Se a desenfreada subida da maré carregada de salitre, atingisse os teus seios, santuários onde as tuas mãos pousadas se demoram na hora do crepúsculo, a incendiar as glândulas que ali existem sempre à espera que outras mãos ou lábios suavemente fertilizem a sua natural vocação de endurecimento, seria inevitável um intenso tsunami orgânico a desafiar o incalculável poder sensual do oceano.

Se já estivéssemos  na estação das flores e o céu fosse tão azul como esse mar que hoje te recorda, talvez te levasse a uma praia  que é longe, quase na fronteira da memória de dois povos de onde se avista um  monte sagrado, separado de nós apenas por um rio, um sítio   que tem extensas praias onde  tu  conheces cada búzio, cada um dos biliões de pequeninos seixos que formam a massa de areia,  toalha onde  ao pôr do sol, estendes o teu corpo todo   nu e bronzeado a escorrer pequenas gotículas de  sol molhado, delícias  que eu sofregamente vou bebendo com o capacidade que a imaginação permite, saciando a sede que até me pode levar a uma abençoada loucura, ao som de uma magnífica  valsa vienense,  interpretada  ao piano pelo maestro que essas areias conhecem,  trazida pela maravilhosa  e quente brisa do mar.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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