Alberto Pimenta, provavelmente o nosso maior poeta vivo, fez 80 anos e Edgar Pêra ofereceu-lhe um filme que é um encontro entre o cinema e a poesia que vivem fora dos trilhos da obediência.

Texto de Joana Emídio Marques e foto de Sandra Bernardo

José Alberto Resende Figueiredo Pimenta nasceu no Porto, em dezembro de 1937 e cresceu numa casa na Lapa paredes meias com o cemitério onde está enterrado Camilo Castelo Branco. Com 7 anos gostava de se esgueirar para lá para poder subir o muro e ficar a ver de fora e de cima o interior da sua casa. Não sabe porque razão aquilo lhe dava tanto prazer, mas intuía que não podia contar a ninguém. Hoje percebe que não podia contar porque esse prazer era da ordem do indizível, e sabe também que tudo o que lhe interessa, tanto na vida como na poesia, pertence a essa ordem, a essa espécie de silêncio que habita toda a linguagem.

“O caminho do verdadeiro silêncio vai pela recusa da palavra segura de si, da palavra auto-suficiente, da palavra que fala o seu falar: mas passa através da palavra que fala em busca do silêncio, em busca da sua morte.” (O Silêncio dos Poetas, 1978)

Nas águas furtadas que habita, no bairro Mouraria, gosta hoje de observar a vida dos gatos dos telhados, as movimentações das gruas amarelas que se interpõem entre o céu e os vidros da claraboia. Não tem televisão nem internet, apenas livros. A escada a pique que liga o apartamento à rua desafia-lhe bastante a mobilidade, parcialmente perdida desde uma queda que deu há poucos anos. Quase não sai de casa mas não há assunto que lhe escape. Há sim, muitas coisas que escolheu não querer conhecer, que escolhe não querer saber.

Já não é o homem que em 1977 se fechou com um chimpanzé numa jaula do jardim zoológico de Lisboa, o ator hilariante da série A Arte de Ser Português (RTP, 1978), nem o que escreveu o famoso Discurso do Filho da Puta, provavelmente a sua obra mais conhecida mas que, como ele diz: “se a lessem como deve ser provavelmente não teriam vontade de a ler tantas vezes”. Como também já não é o pintor que chegou a ganhar um prémio na Alemanha.

Dificilmente voltará a fazer performances ou happenings como as Conferências do Inferno que, em 1994, originaram o seu encontro com o cineasta Edgar Pêra. Uma amizade de 30 anos que culmina no filme que se estreia sábado, dia 5 de Maio, no festival de cinema Indie Lisboa, “O Homem-Pykante-Diálogos com Pimenta”Um presente e uma homenagem a um artista, que no país dos “grandes homens mortos” é um grande homem vivo.

Uma obra que estava na forja há anos, uma vez que, desde 2002, o cineasta tem filmado Alberto Pimenta nas mais variadas situações, desde performances a conversas domésticas, leituras de poesia, exposições. Aos seus arquivos pessoais e emocionais juntou algumas coisas da RTP, da ultima lição que o poeta deu na Universidade Nova de Lisboa, antes de se aposentar, em 2007.  O resultado é uma obra que foge a qualquer género onde a queiram arrumar porque, como disse Edgar Pêra ao Observador “foi nessa nessa fuga às formas impostas, às regras mais ou menos visíveis para escrever ou filmar que eu e o Alberto nos encontrámos. Com ele eu percebi que filmava para reorganizar o mundo, para resgatar uma certa infantilidade anterior aos condicionamentos sociais”.

No final de 2017 o poeta fez 80 anos e recebeu um dos únicos prémios da sua carreira, o prémio Diogenes atribuído pela revista literária Cão Celeste, “nesse dia decidi que tinha mesmo que fazer o filme para lhe dar esse presente. Não queria fazer uma coisa habitual, documental, cronológica, mas uma dissecação em vida, uma homenagem que fosse, ao mesmo tempo, um encontro de olhos” explicou o cineasta.

Nesta “criação” como gosta de lhe chamar Alberto Pimenta não se espere pois encontrar o poeta excêntrico, marginal, licencioso e outros estereótipos que a ele se colaram. Tal como a poesia de Pimenta escapa aos géneros, aos tempos, às formas e ao discurso “tidos como poético”, tal como a vida, o pensamento, e a forma de comunicar de Pimenta escapam tanto ao “normal” como ao “anormal”, também estes “diálogos pykantes” não enclausuram o poeta em nenhuma fórmula, em nenhuma forma que não seja a única onde ele sempre viveu: na metamorfose continua, sempre em mudança para outro eu.

Ao contrário do que fazem tantos realizadores de biopics e autores biografias que estreitam as vidas e obras extravagantes dentro de formas absolutamente convencionais, Edgar Pêra faz um filme não convencional que vai ao encontro do caos, do indizível, da possibilidade de criar e habitar outros mundos que não este; coincidindo assim com as premissas da obra de Alberto Pimenta, essa que se estende por mais de 80 livros, entre poesia, prosa, ensaio, performances, traduções. Uma obra que, afinal, tão poucos leem, que não está a ser reeditada e é pouco estudada nas academias.

O poeta e ensaísta brasileiro Pádua Fernandes desenvolveu mesmo a teoria (e arranjou exemplos que o comprovam) de que Alberto Pimenta não existe. Um dos exemplos que dá é o facto de o poeta português não estar incluído em nenhuma antologia de poesia de língua portuguesa do século XX. Mas rindo muito desta teoria e não a desmentindo totalmente, Pimenta mostra ao Observador que afinal houve uma antologia onde está representado, ainda que com um só poema. É a Século de Ouro. Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Século XX, (Cotovia) e a obra foi escolha de Maria Irene Ramalho, catedrática no Wisconsin, uma das poucas que desde os anos 70 tem escrito sobre o trabalho lírico e ensaístico de AP.

A poesia de AP é um discurso com várias camadas de significado, de segundas intenções, vozes de fantasmas, alucinações, latências, convergências. Ele diz o que diz para dizer sempre outra coisa, pelo que é preciso ser um leitor apetrechado de uma vasta cultura para o conseguir acompanhar. O seu dialogo constante com os antigos, Dante, Camões, os poetas, tragediógrafos e filósofos gregos e latinos, alemães, os seus jogos de palavras com referências da cultura pop, da política contemporânea, da sociedade de consumo fazem com que cada poema seja sempre uma demanda para a luta e para a assumpção, por parte dos leitores, de uma posição ética e política. AP nunca abdica dessa posição política, dessa denúncia dos logros da nossa sociedade, dos tiques autoritários da cultura portuguesa.

Alberto Pimenta: o poeta inexistente

Saiu de Portugal em 1960 para assumir as funções de leitor na universidade de Heidelberg, na Alemanha, de onde foi demitido logo em 1963 por ter assumido posições antagónicas ao regime português. Foi então contratado pela própria universidade alemã onde lecionou durante 16 anos. Depois do 25 de Abril foi convidado pela universidade do Porto para regressar a Portugal. Deixou o lugar efetivo em Heidelberg e trazia já na cabeça a ideia da performance numa jaula. O diretor do Jardim Zoológico de Lisboa compreendeu a ideia e aceitou que fosse feita a performance.

Já a Universidade do Porto não compreendeu a ideia e retirou-lhe o convite para lecionar. Alberto Pimenta ficou vários anos desempregado e viver de traduções até ser convidado para integrar a FCSH da Universidade Nova de Lisboa. A sua obra poética não pode ser compreendida fora das suas performances, da sua relação com a poesia concreta, do seu diálogo permanente com Camões e Dante, mas também Cesário Verde, e depois os gregos antigos que segundo ele “disseram tudo o que era importante dizer e praticamente desde a idade média que não dizemos nada de realmente novo”.

Talvez por ser “Pykante”, talvez por não frequentar o mainstream literário português e as suas manifestações festivas, talvez por ter editado sempre em editoras pequenas como a Fenda e a &Etc nunca teve um circo mediático à sua volta Alberto Pimenta corre o risco de ficar na história como anedota (coisa que ele detesta) e não como o enorme poeta que é. Fomos visitá-lo na sua mansarda na Mouraria de onde já pouco sai, levámos connosco o livro Corpos Estranhos (1973) para falar da sua poética tragicómica, satírica, com múltiplas camadas de significado e onde o prosaico, o indecoroso, servem sempre para falar do sublime, da ausência de sentido da dor, do corpo mortal nunca separado da alma, mas recombinando-se com ela em formas infinitas. Para falar também do estado em que está a edição da suas obras mais antigas e esgotadas há muito e é claro do filme de Edgar Pêra.

Onde é que formou esse seu olhar grave e heterodoxo sobre o mundo?
Encontrei-me muito cedo com a consciência de que olhava para as coisas de forma diferente daquela que os outros à minha volta olhavam. Não falava nisso com os outros. Por exemplo, muito cedo me incomodou aquelas senhoras que vinham a nossa casa entregar cestas de fruta que iam buscar à Ribeira. Traziam-nas à cabeça aquela distância toda. Depois comiam qualquer coisa lá em casa e pediam como pagamento “aquilo que lhe quisessem dar”. Na minha casa isto era normal mas fazia-me uma impressão um mal-estar enorme. Teria apenas uns 7 anos. Não sei como foi que fiquei assim, assim Eu. Os desequilíbrios sociais perturbam-me até hoje, a brutalidade de certos trabalhos onde se gasta uma vida humana, a inutilidade de tantos outros. Dias e dias preenchidos no absurdo, no que não tem qualquer valor e relevância para melhorar a vida humana.

E as novas tecnologias, o chamado progresso não acabam com isso. A tragédia humana é afinal sempre a mesma.
Mesmo a medicina não trata pessoas, trata casos. Serva sobretudo para alguns ganharem muito dinheiro, e tudo e todos acabam, mais cedo ou mais tarde, mortos. Como é que é possível que o homem, face à brevidade da vida, face à sua erosão e desgaste constante, não faça tudo para transformar essa erosão em qualquer coisa de minimamente válido? Há muitas reuniões, muitos encontros, muitas horas a olhar ou a jogar nos telemóveis, muitas deliberações, muitas palavras usadas que não servem para nada. É tudo de uma total nulidade porque continua tudo na mesma, não mudam nada. Tudo continua igual. Dizem-se coisas como se isso bastasse para que o mundo se transforme, como se “dizer” fosse sinónimo de “fazer”… Há pessoas que se pudessem já tinham substituído as palavras todas, a linguagem, por uns sinais técnicos quaisquer.

Onde as imagens substituíssem definitivamente as palavras?
O problema das imagens é elas serem meramente reprodutivas e não criativas. São fotografias. O cinema já é diferente: as imagens são criativas, acrescentam qualquer coisa ao mundo.Agora, hoje em dia a maior parte das imagens que circulam dizem apenas “olha eu, olha eu aqui!” (risos) E nem se apercebem que aquele é um eu falso. É um “Eu” de um instante que já passou, é outro. Mas a palavra também está tão desgastada que na maior parte das comunicações, das deliberações, dos textos que presidem à nossa vida social, a língua passou a ser uma coisa pronta-a-vestir sem nenhuma espécie de relação com aquele que a veste. Mas aqui entra, ou devia entrar, a função dos poetas: tentar refletir sobre essas capacidades e incapacidades da linguagem e da língua. E é a língua constrói uma verdadeira comunicação, do que vimos, vivemos, de como existimos. A linguagem é a maior riqueza da humanidade, mas tem que ser usada de forma a gerar mais riqueza.

Mas não está também a palavra “poeta” já demasiado gasta?
Bem, eu não gosto dela. Sobretudo não gosto de a aplicar a mim mesmo. Não é o facto de eu fazer algumas coisas com palavras que faz de mim um poeta. Não gosto disso. Mas os poetas, os que trabalham as palavras e com as palavras, eles procuram duas coisas fundamentais: chegar ao cerne da palavra, não a deixar funcionar apenas à superfície, depois ver onde há lacunas na linguagem para designar estados de espírito, sensações, tudo o que ainda está no domínio do indizível e espera ser encontrado pelas palavras. E afinal a grande parte da vida de todos nós, da verdadeira vida pertence a esse domínio do indizível. Dizer o indizível, aproximar-se dele, forçá-lo a dizer-se sem o destruir, eis a tarefa dos poetas.

A história da cozinheira Berta, no poema Espermático em que o Alberto Pimenta dialoga com o “A débil” do Cesário Verde, é um exemplo de como dizer o indizível da tragédia humana, a partir da simples descrição de um quotidiano. Um poema que os ingénuos poderão achar ingénuo, mas que é absolutamente terrível…
Sim, esse poema e outros desse livro Corpos Estranhos, são para dizer um incómodo, esse desespero até que eu senti, depois de visitar um hospital perto de Heidelberg que recebia feridos da guerra colonial… Ahh, a cozinheira Berta, que cozinhava enguias para o senhor diretor e tinha um afilhado de guerra, (e começa a ler em voz alta o poema, parando várias vezes para uma gargalhada), escrevi-o quando tinha uns 36 anos.  Mas isto é bom, implica um bom conhecimento de livros de cozinha e de enguias…

“ténue, doce, recolhida (…)às vezes (…) tem os olhos rasos de lág/ rimas”, “olha na parede a imagem do papa, do/ santo velhinho (…)”, como que “(…) ajeita a saia, vinda da retrete onde/ foi urinar (…)”. Berta deixa 4 centímetros de pele agarrada à parte inferior do corpo da enguia, un/ ta então cuidadosamente o corpo esfolado/ das enguias com bastante manteiga tempera/ da com piri-piri e, à medida que as unta,/ vai-lhes puxando outra vez a pele para ci/ ma, para o seu primitivo lugar (…) na fronte austera do/ senhor director desenhar-se-á um afável s/ orriso e Berta terá aquele seu suspiro mu/ ito leve, quase imperceptível, muito leve”. (Espermático)

É verdade que não está incluído em nenhuma antologia de poesia portuguesa do século XX nem do século XXI?
Parece que sim. Não estou numa, que eu saiba. É aquela O Século de Ouro organizada pelo Silvestre Pestana e tem um poema meu escolhido e comentado pela professora Maria Irene Ramalho.

Sei que é algo que não lhe dá grandes abalos, mas porque é que acha que isso acontece?
A minha poesia está um bocadinho fora da linha habitual da poesia portuguesa. A minha linha poética não é a comum, nem cabe bem no conceito de poesia que muitos têm. Este poema da cozinheira Berta, está claramente fora da norma poética que procura formas de beleza, procura cristalizar o momento que passa, idolatra os momentos. Ahhhh o momento (risos). Eu interesso-me pouco por momentos. Prefiro a duração, ainda que não a duração cronológica.

É essa característica da sua obra, em que cada poema tenta instituir uma outra forma de tempo e de mundo, que o Edgar Pêra tentou reproduzir no filme. Como ele mesmo disse, a poesia do Alberto tenta instituir a possibilidade da existência de outra realidade, fora da lógica racional que nos tentam impor como única forma de viver e pensar
Não me seria possível escrever ou viver de outra maneira. Por mais que eu tenha mudado, sobretudo desde a queda, desde que só posso usar a mão esquerda, ainda vou encontrando nessa escrita algum sentido para os dias. Em dezembro fiz 80 anos. A minha cabeça sempre teve uma pancada [risos]. Acho que tive sempre muitos mais anos do que a minha idade. Ao longo da minha vida tenho tido sempre uma relação com o mundo que não corresponde à minha idade. Mas, mesmo que eu não queira notar, sei que há depositado em mim muitas vivências, muitas coisas que me fazem não poder dizer se vou continuar a escrever ou não. Isto não é uma queixa. Sou eu a observar a minha erosão…

Por outro lado, não obedecer às regras dos géneros literários instituídos, rasurá-los criando formas de poesia híbridas ou sem nome ainda, tem sido um dos espíritos da sua obra.
Não é que isso seja um programa, é apenas porque eu só faço o que me apetece fazer. Grande parte das pessoas que escrevem subordina o que lhe apetece escrever a uma norma ou a uma forma, que considera mais importante que a sua escrita. Eu não. Só faço o que me apetece, como a cada momento estou em disposições diferentes, pois a vida é uma mudança eu escrevo aquele que sou em cada momento. Só obedeço às ondas interiores. E só sou fiel à perceção que tenho do que vale e não vale a pena ser escrito. Nem tudo vale a pena ser escrito. É preciso ter essa consciência. Há tanta vulgaridade precisamente porque aqueles que escrevem não se põe essa questão: que interesse é que isto pode ter para o mundo? Repare-se nos poemas da Safo ou do Alceu na simplicidade e transparência como quem está no principio de tudo. Aquilo que eles disseram há quase 3 mil anos continua a ser importante sabermos hoje. A partir do fim da Idade Média as temáticas da poesia começaram a ser repetitivas, há cinco ou seis temas centrais e é só em torno deles que se escreve, ainda por cima postos dentro de forma equivalentes que não nos revelam nada. Lemos aquilo, vemos que a pessoa foi capaz de fazer a coisa com técnica e tal, mas não nos está a revelar absolutamente nada. Aquilo que sabíamos antes de ler é igual àquilo que sabíamos depois de ler. Não vale a pena. Quantas vezes me acontece pensar: vou escrever isto. Mas depois percebo que aquilo não tem afinal interesse algum. É preciso construir algo de novo, algo que seja uma chave que abra alguma porta…

Sente que se lhe colou uma imagem de insolente, marginal, iconoclasta que é muito atraente mas que depois poucos são os que ultrapassam este estereotipo e chegam à sua poesia
Mas eu não sou nada disso. Sou apenas inesperado. Além disso a performance e o happening não são coisas que os portugueses gostem muito. Tudo o que sai da norma, que desperte dúvidas incomoda os portugueses. É preciso que cada pessoa caiba numa imagem controlável. Mas o Discurso do Filho da Puta, aquilo não é um insulto e as pessoas insistem em ler aquilo como insulto. Aquilo é um jogo. Tal como muita da minha poesia…

Tem alguma espécie de frustração pelo pouco reconhecimento público e institucional que tem tido?
Não. O Pádua Fernandes criou muito bem esta ideia de que eu não existo. E se calhar é verdade. Eu mesmo às vezes tenho dúvidas. Quanto ao reconhecimento não tenho frustração nenhuma. Não tenho esse interesse, nunca tive. Basta-me saber que sou entendido por algumas pessoas. Há pessoas que o ideal é que nem se aproximem de mim… Mas que espécie de reconhecimento é que as pessoas querem? O dos jogadores de futebol? O dos banqueiros corruptos? O destino de todos nós é sermos esquecidos.

Mas apesar dessa erosão do tempo continua a trabalhar traduziu para Saguão, a Balada do Velho Marinheiro de S.T. Coleridge (1772-1834), um poeta inglês do inicio do romantismo e tem um novo livro para sair em breve…
Traduzi o Coleridge para a minha tese de licenciatura tinha pouco mais de 21 anos. Agora revi essa tradução, alterei algumas coisas. É um poeta que foi muito contestado devido à sua dependência do ópio. Mas tudo o que nos tira do sofrimento corre o risco de tomar conta da nossa vida. Porque não há sentido para o sofrimento.

E agora há o filme do Edgar Pêra. Gostou do resultado?
Desde logo gosto muito da ambiguidade do título “diálogos com pimenta”. Agora acho maravilhoso aquilo que ele fez.É notável aquele super-eu que ele encontrou em mim. Reconheço-me totalmente naquela pessoa. Mas sobretudo o filme é de uma criatividade que será presente durante muito tempo, que não tem que ver comigo mas com o Edgar, com o trabalho dele, a forma como ele cria sempre qualquer coisa nova em cada filme.

A sua obra não está a ser reeditada muitos dos seus livros não se encontram já em lado nenhum. Tem tido alguma proposta de uma editora para reunir a sua obra completa num grosso volume de capa dura?
[Dá uma gargalhada] Não. E também não tenho esse anseio, confesso. Pronto. Sou o poeta inexistente. Além disso não tenho interesse em trabalhar com qualquer editora. Quando eu morrer logo resolvem isso, ou esquecem… tanto faz.

Escreveu um dia: é preciso pensar contra o pensamento…
Porque o pensamento já está dentro dos trilhos, é uma estrutura lógica que até tem a sua razão de ser; agora escrever não é repetir o já existe, escrever sobre o real não é reproduzir o real, é usá-lo para criar outra coisa, mais uma vez, o filme o Edgar é um bom exemplo disso.

Publicado in Observador

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