ANDAR com livros “é como trazer um morto às costas”. Fosse esse o ofício, durante anos, do editor sem distribuidora: carregou o morto, companhia silenciosa cheia de palavras, para levar a “urbanidade alternativa” a outros pontos do País. Mas andar sempre com o morto cansa, também cansa. “Estava farto” das deslealdades dos livreiros, esquivos ao pagamento, sempre a levantar problemas aos livros por causa “das imagens fortes” da capa. E o editor, sem distribuidora, libertou-se o papel de Sísifo: abriu livraria para as suas Edições Mortas.

O homem que carregava morto é A. Dasilva O. nos livros de poesia (Choupe La Pisse O livro Mau, etc.) e António S. Oliveira quando a mão lhe foge para a prosa. Há cerca de dois anos, o editor e autor acrescentou um capítulo na sua afectiva relação pessoal como a palavra. Esse capítulo chama-se Pulga, e dá nome à livraria de porta aberta no quase despovoado Centro Comercial parque Itália, Porto. “Isto aqui é uma espécie de anti-centro comercial e tem boas vistas, caso contrário eu já tinha atrofiado”.

António Oliveira escolheu o nome do insecto parasita para a sua livraria não só pelo espaço que ocupa ser exíguo. “A pulga gosta de ferrar, é muito chata, é bicho persistente e irrequieto” diz. A ideia inicial do responsável da Edições Mortas era mais vasta. Desejava fazer um “ataque” a outras cidades, através da abertura de mais livrarias Pulga, por iniciativa de editores alternativos locais.

O horário da Pulga é desalinhado como a maioria do fundo bibliográfico, apenas durante três horas – das 16.00 às 19.00 – a porta está aberta ao público. Mas o sonho do editor e autor, que abjura o estatuto de livreiro, é tornar esse período ainda mais apertado: “Cinco minutos seria o horário ideal”. Além das Edições Mortas, na livraria do A. Dasilva O. encontram-se livros de outras pequenas editoras (Black Son Editores, Dafne Editora, Vendaval) e edições de autor. A única “grande” casa editorial que a Pulga suporta é a Quasi Edições.

Aos livros, o autor de O Bem Volta a Atacar pensa juntar outros produtos, outros objectos culturais. Ainda este mês, a Pulga fará comércio de “sangue dos poetas”! Não se assustem os vates, aprendizes ou consagrados, porque é de vinho que se trata. “Garrafas de vinho, de grande qualidade, com um poema no rótulo: um poema mau, porque é de A. Dasilva O.” garante.

Antes da abertura da Pulga, António Oliveira, 48 anos, tinha espalhado pelas livrarias do País “cinco mil contos de livros”. Com o “fecho em catadupa” dessas casas, nunca mais viu o dinheiro nem o morto que carregava às costas. Contratempo sem força, no entanto, para tolher o pequeno editor. “As minhas condições económicas são escassas, mas não publico livros subsidiados nem com o dinheiro dos autores – isso não é ser um verdadeiro editor”.

O entusiasmo de A. Dasilva O., organizador das Conferências do Inferno e do Mercado Negro do Livro (onde é permitida a arte de furtar), permanece. “Tenho orgulho dos autores das Edições Mortas: estou a publicar obras para daqui a cem anos”. Qual o critério de selecção do editor de Putas à Moda do Porto, Ensaio Vadio, de Raúl Simões Pinto, agora em 3.ª edição? “Quando leio um original e tenho um orgasmo, publico” – responde, a sorrir, o homem que carregava os livros às costas.

Livraria Pulga
Site em http://www.edicoes-mortas.com/
Blogue em http://edicoes-mortas.blogspot.com/
Autor: António S. Oliveira

O cuidado blogue das Edições Mortas dá informação sobre as novidades da Pulga e publica poemas e extractos das obras. Quem passar pela livraria de António Oliveira, no Parque Itália, Rua Júlio Dinis, 752, 1.º Dt.º, Loja 70 – encontra, entre outros títulos, os últimos Edições Mortas: Manual do Desempregado, de Liberato; Saloon, de A. Pedro Ribeiro, A Inscrição na Lápide, de Fernando Morais, e, do próprio, A. Dasilva O., Teatro D’Abjecção. É a obra mais recente do autor, mas pelo escrito passaram uns bons anos. Teatro D’Abjecção reúne “dramaticamente os textos e as suas vozes-personagem que tiveram a sua edição radiofónica, na Rádio Caos, em 1984/85”. O autor, refira-se, foi um dos fundadores, no Porto, desta “rádio livre” que, como a Pulga, mudava frequentemente de local para iludir as autoridades que pretendiam silenciá-la. “Chegámos a fazer uma emissão a partir do consultório de uma psiquiatra amiga” lembra o autor de O último Desejo de um Serial Killer.

Texto de Francisco Duarte Mangas e foto de Hernâni Pereira publicado originalmente no Diário de Notícias em 2007

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