São Lourenço do Douro mira plácido o rio que o nomeia. O vento empurra até às encostas do Marão o bafo ameno anunciador de chuva. O vaguear da encosta trajada de asfalto não permite grandes distracções ao volante, no entanto, não resisto a olhar o espelho dourado rasgado por um batel prenhe de simpáticos e bonacheirões nórdicos, parecem-me, à distância e à imaginação.

As conversas oscilam como as copas das árvores e as placas de trânsito, indecisas, quanto aos limites de velocidade curva após curva. Chegados ao destino, o que nos quis, não o que quisemos, à porta assoma a simpatia sexagenária, metro e meio de viúva, a colorida indumentária, a casa sobranceira sorridente nas obras quase terminadas. Indica-nos onde colocar o que levamos, sorri novamente e a conversa oscila entre o vento, o mesmo que nos levou até lá, a possibilidade de chuva, que são, afinal, as coisas que as pessoas falam quando indicam que atrás das palavras vem mais do que não se dialoga.

Talvez o Douro conheça estas histórias como as suas margens escarpadas, esquerda e direita, Porto e Viseu aqui, Porto e Aveiro mais ali abaixo, mas as distâncias que levam as memórias das pessoas a reabrir os envelopes das fotografias amarelecidas onde estão guardadas as tramas da vida, a que nos pariu, não as que ela deu à luz, são curtas, mas distantes na ausência de pontes que unem distritos, vidas, empregos e futuros.

Entre o afinar de uma porta, o colocar a jeito a TV e a piscadela da circunstância que nos espreitava, já a senhora, afável, nos contava a vida que trajara até há uns anos casada, depois enviuvada, as partilhas da casa com os filhos, tal Martinho a rasgar o que tinha e a partilhar com quem não possuía, que é como quem diz, o Salvador, qualquer um, Crístico, Búdico, Védico ou um mendigo, ricos por igual, a filha que comprara a parte ao irmão, a casa virada habitação, a companhia da irrequieta neta, o reumático que vem e a todos afecta.

O Douro sorriu-me num veraneio de soldado despojado. Afinal, não conhecia a narrativa. Apenas as lágrimas que rebolam mais facilmente onde o granito cede à passagem do desgosto, tal como os barcos, acima e abaixo, em Agosto. Mais acima, o rubor do Outono encasaca as folhas das vides e aguça o mosto.

Entre a chegada e a despedida, volveram um par de dezenas de minutos, ou anos, o tempo confunde-se quando passa a serpentear entre as vidas, manobro como posso, entre a parede e o credo, não há estrada que meta medo. Apenas pessoas, agrestes, ausentes. O desnível da estrada coloca-me ao mesmo patamar da nova proprietária da mobília, coloco o braço de fora e aperto a sua mãe, com cuidado, despedindo-me:

– Vão com Deus – confia-me ela à estrada.
Sorrindo, faço-me ao caminho pela faixa do regresso.
Sem propriamente lições a tirar do nada, o episódio per se vale pelas gentes que trazem valor dentro, como o é a recordação, dentro de uma saca de pão.

Miguel Gomes nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. É co-autor do livro “Alma Tua” (2019, Guerra e Paz) subordinado ao Vale do Tua e da exposição de fotografia e poesia “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordinada à Rota do Românico. Publicou crónicas na revista online “Bird Magazine” e, actualmente, no Correio do Porto e Canal N. Publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo”.

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