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À sombra da fé

À sombra da fé

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O SOL, ainda que não a pique, cauteriza a tarde esvaída e o meu impreparado caminhar até onde quer que o destino me leve permite-me ver, abrigado pelo muro de pedras irregulares no regular poligonal erigido à força de mãos que, há muito, o pó não provou, a sibilar certeza do quanto infrutífero é o respirar apenas para satisfação da hematose.

À sombra do nicho mariano, onde Nossa Senhora se encosta por vezes um vulto negro descansa. Ei-lo negro, não da tradicional matizada maldade, mas porque o caminho desde a estação é-o subindo, andando e, nestes dias, arfando, pelo cansaço de caminhada e jornada, agora sem boleia, nem marido.

Para trás o comboio, que em verdade o diga vai já lá à frente, silvando, o saco de plástico prenhe de compras feitas de palma da mão aberta na contagem dos cêntimos, centenas deles, esbate-se no empedrado chão, prenhe, exibindo à giza de um busto envergonhado o pacote de bolacha maria, dourada, com que, aqui imagino eu, à lareira se saciará enquanto o feminino negro enlutado se balança no banco feito de cepo de eucalipto, já rachado pelo gume afiado do tempo.

Vai aquecendo a tarde. O muro sacode-me dali para fora, as folhas espessas do limoeiro zurzem atrás de mim e a imaginação, filha única da solidão, envia-me de volta ao meu caminho, sozinho, olhando para trás o que na esquina da fé se sacia, a doce harmoniosa fluência do dia para que depressa chegue a noite, de inverno, bem longe deste calor de inferno.

A viuvez carrega-se de solidão, cegos que estamos vemo-nos pouco do lado de lá, mau grado para quem parte, saciado, descansado, sem conseguir estender para o lado de cá mais do que um esbaforido sentimento, um arrepio inusitado que nos assalta sem nada do nosso lado. Respondendo à carta emocionada toscamente escrevinhada por entre erros linguísticos, sem grandes subterfúgios gramaticais, o marido já sacudido da vida terrestre (e pesada) sentou-se ao lado dela, ali à sombra da fé, com a mão de vento na sua fronte afastando um grisalho cabelo pendido, perdido, permitindo que a proximidade da distância dimensional se esfume por entre o suor e a saudade de quem não vê a eternidade.

Ela, mulher sempre, viúva recente, preparada que estava e na ausência de transeuntes ou crentes que ali fosse depositar a fé, nas costas do talão da mercearia começou a escrever a meio sorriso, “Senhor meu Deus, criador do céu e da terra, tu todo poderoso e sempre eterno santo, pai de todos nós, leva por favor estas palavras ao meu marido. Meu amor querido, faz hoje um ano desde que partiste e eu, aqui, nesta tarde quente, sinto tanta falta tua que peço a Deus todo poderoso, me leve para teu encontro, onde possa sentir novamente o teu amor”. Findas as palavras pelo talão ser curto, ergueu-se e no incensário onde muitos colocavam velas coloridas, deixou arder o papel e as palavras, que ascenderam até onde a vista pode saborear. A seu lado, o marido etéreo sorria, havia algum tempo que o sabia.

Hoje à noite, à lareira, o cepo cairá para o lado oposto onde tombará o pacote das bolachas maria, o peso do luto erguerá ao céu o reencontro da saudade com a alegria.

SOBRE O AUTOR: Miguel Gomes, nasceu no Porto em 1975, reside desde essa altura em Cête, freguesia do concelho de Paredes. Estudou engenharia informática e tem pautado a actividade profissional entre o ramo industrial da informática, gestão administrativa, ensino e formação. Apaixonado por Trás-os-Montes e Açores em geral e pela vida em particular, é co-autor das exposições de fotografia e poesia “Alma Tua“, subordinada ao vale do Tua, e “Rota do Românico: Caminho de Encanto“, subordina à Rota do Românico, publica igualmente os seus textos no blogue “Serenismo“. Publica regularmente crónicas na revista online “Bird Magazine” e começou a colaborar com o Correio do Porto em 2016.

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