Chama-se Ferreira o rio, mas não é de ferro, é de água fria e cristalina, que desce da serra de Paços, em Jóia, Freamunde. Serpenteia entre muros de xisto, de Raimonda e Sanfins, passando por trás das casas, onde as mulheres lavam a roupa e os velhos se sentam a ver o tempo a passar.

A aldeia, já muito perto da foz, essa, não tem o seu nome no GPS. Os correios chamam-lhe Lugar de Covelo, mas os que lá vivem chamam a esse lugar “O Sítio”, porque é o único sítio que por ali, é habitado.

Foi nesse enclave onde a água corre, que Rita nasceu numa casa com porta de madeira que rangia, janelas pequenas e uma lareira a lenha que nunca se apagava. A mãe tinha um olhar doce, mas as mãos cansadas de trabalhar a terra. O pai, esse, bebia o vinho que os outros faziam e nunca cultivou nada, nem a terra, nem o afecto. Rita cresceu a ouvir o rio, porque era o único som que não lhe mentia.

Aos oito anos, já sabia o nome das plantas, todas as  que cresciam na beira do rio, que curavam, as  que matavam, as que aqueciam. A avó ensinara-lhe:

– “Rita, as plantas não falam, mas respondem. Se as escutares, elas dizem-te o que precisas.”

E Rita escutava, escutava o alecrim, a urze, a diabelha, a Cidreira, o musgo das pedras molhadas. O rio, esse, falava sempre, numa língua que só os que lá nasceram entendiam, mas as pessoas, essas, viradas para a terra, eram mais difíceis de escutar.

Com quinze anos, Rita já não cabia na aldeia. Não por haver falta de espaço, havia espaço a dar com um pau. Cabia mal por dentro, sentia-se estranha. Demasiado calada, demasiado atenta. As outras raparigas falavam de rapazes, de roupas, de sair para o Porto ao fim-de-semana. Rita falava do curso do rio, do voo dos melros, das gaivotas e das garças, da humidade que anunciava a chuva. Os outros olhavam-na de lado. “Essa é esquisita”, diziam.

A mãe não dizia nada. Também fora esquisita, em tempos, mas aprendera a calar-se. O pai, esse, falava demais, mas nunca dizia as palavras certas.

– Andas a sonhar, rapariga. Isso não paga contas, dizia ele, enquanto bebia o copo ao fim do dia.

Rita aprendia a desenhar, com carvão da lareira, nas pedras do rio. Desenhava o que via e o que não via: a raiz que cresce por baixo, o peixe que se esconde, a memória que a água carrega na alma. As pedras guardavam os seus desenhos por uns dias; depois, a chuva ou a corrente levava-os, mas ela recomeçava.

Já com vinte anos, partiu. Não por sua escolha, mas por impossibilidade de ali permanecer. A mãe adoeceu, uma coisa lenta, como o musgo. O pai, já então sem vinho nem paciência, desapareceu para o Porto e nunca mais voltou. Rita ficou com a avó, com a terra, com o rio. E com a mãe que se apagava dia após dia, como uma lâmpada de azeite.

Cuidou dela. Lavou-lhe o corpo com água do Ferreira, deu-lhe chás de erva-cidreira, sentou-se ao seu lado nas noites mais longas. A mãe, nos seus últimos meses, às vezes falava:

– Rita, tu és como o rio. Vais sempre encontrar caminho. Mesmo quando as pedras tentam parar-te.

Morreu na primavera. Nesse dia, o rio estava mais cheio que nunca.

Aos vinte e cinco, Rita era a única jovem no Sítio. Os outros tinham ido para a cidade do Porto, Ermesinde, para fábricas, para lojas, para vidas que pareciam maiores. Ela ficou, porque a avó ainda cá estava, e porque o rio não se despede de quem o escuta, mas a solidão entrou nela como a água nos sapatos. Fria, pesada e persistente.

Começou a caminhar. Todos os dias, subia a margem do Ferreira até onde a água se tornava rápida e límpida. Levava o carvão, as pedras, e desenhava. Não era para serem vistas, mas para existirem. Para que o rio levasse algo dela, e ela pudesse levar algo dele.

O desenho tornou-se uma oração e aos trinta, conheceu Aníbal. Não era um homem da aldeia. Era de Gondomar, vinha fazer um estudo sobre a qualidade da água. Chegou com botas, cadernos e uma máquina que media o pH. Rita mostrou-lhe as nascentes, os locais onde o rio se escondia e onde se abria à luz. Ele escutou-a com uma atenção que ela não conhecia, sem pressa de a interromper, sem vontade de a corrigir.

-Tu conheces este rio como ninguém, disse ele, no fim do dia.

– E ele conhece-me a mim, respondeu ela.

Aníbal voltou, desta vez já não pelo estudo, que já tinha feito, mas por ela. Passaram tardes à beira-rio, a falar pouco e a ouvir muito. Ele contou-lhe da cidade, dos problemas, dos prédios, dos carros. Ela contou-lhe das pedras, dos musgos, do momento exacto em que o melro canta. Das garças e das gaivotas que por si passam.

Aníbal amava-a. E ela, por um tempo, deixou-se ser amada, mas, dentro dela, havia uma raiz mais funda, a crença de que não pertencia a ninguém. Nem à aldeia, nem à cidade, nem a ele.

– Fica comigo, pediu ele, numa noite de lua cheia, com o rio a brilhar como prata.

– Não posso, disse ela. O rio não pára, porque é a sua natureza. A minha também não.

Aníbal partiu com tristeza e Rita ficou a ver as botas dele afastarem-se pela estrada de terra batida a caminho da Foz do Sousa.

Aos quarenta anos de vida, Rita encontrou uma paz estranha. Não foi a felicidade que as novelas prometem, nem a tranquilidade que se anuncia por aí, foi uma paz mais modesta, a de saber que estava onde devia estar, mesmo que esse lugar não fosse compreendido por mais ninguém além dela.

A avó morreu, em paz. A aldeia, agora, tinha quatro habitantes, todos velhos, todos à espera da morte. Rita era a mais nova, e por isso a mais responsável. Ia ao correio a Jovim, lia as cartas dos que partiram, fazia as compras numa pequena mercearia que acabou por fechar, mas todos os dias, descia ao rio.

Desenhava agora menos, mas ouvia mais. O Ferreira, esse, não mudava, ou mudava na mesma velocidade que ela: lenta, constante e invisível.

Um dia, já perto dos cinquenta, Rita encontrou uma pedra diferente. Não era lisa, como as outras, tinha uma marca, um desenho antigo, quase apagado. Um círculo, uma linha, e uma janela.

Reconheceu-o, era um dos seus desenhos de infância. A corrente levara-o, e ele regressara, anos depois, mais gasto, mais belo e mais seu.

Rita pegou na pedra, sentou-se na margem, e apertou-a contra o peito.

Não chorou, não sorriu, apenas ficou ali, como o rio fica a correr, sem perguntar o seu destino.

Nunca saiu da aldeia, nunca casou, nunca teve uma vida que os outros chamariam de realizada. Mas, todos os dias, ao amanhecer, descia ao Ferreira. E, todas as manhãs, o rio dizia-lhe:

– Ainda aqui estás. E ela respondia:
– Ainda estou aqui.

Rita não alcançou o estádio de tranquilidade e felicidade que esperava. Talvez isso nunca tenha existido para ela, mas encontrou uma trégua.

E uma trégua, para quem nasce em sítios onde o mundo é pequeno e o rio é grande, já é uma forma de perfeição.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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