Talvez os deuses estejam zangados com a Humanidade, mas ainda nos permitem um derradeiro momento de lucidez e reflexão, capaz de calar o estrondo das armas. Talvez voltem a correr rios na memória dos povos. Algo vindo do interior da Terra onde o magma insiste em gerar o calor da eternidade. Talvez a brancura da paz substitua o ódio que enche de tristeza o planeta.
Que o Novo Ano não chegue apenas como mudança no calendário, mas como uma viragem na consciência. Que o seu raiar não seja apenas luz no céu, mas uma claridade dentro de nós, capaz de dissolver as sombras da intolerância e do desespero.
Que os sinos que badalaram não tenham tocado apenas à meia-noite do último dia do ano, mas ecoem como uma chamada para o entendimento entre todos. Que cada badalada seja um grão de esperança plantado no solo árido dos conflitos, uma lembrança de que compartilhamos o mesmo e frágil lar sob o mesmo céu estrelado.
Talvez os deuses, ou a força vital do Universo, estejam mesmo à espera de um sinal nosso. Não de rendição, mas de lucidez. Não de fraqueza, mas da suprema coragem de baixar as armas e estender as mãos.
Que este Novo Ano seja, portanto, um marco. O momento em que a “brancura da paz” não seja uma utopia, mas uma decisão coletiva. Um tecido que começamos a bordar juntos, fio a fio, com os gestos mais humildes e os acordos mais ousados. Que deixemos de ser espectadores da História e nos tornemos nos seus artífices, conscientes de que o rio do tempo pode, sim, mudar de curso, a partir das pedras de bondade e justiça que decidirmos lançar no seu leito.
Que a PAZ não seja apenas um intervalo entre guerras, mas a melodia permanente da nossa Humanidade restaurada. Um som tão profundo e vital que silencie, para sempre, o estrondo das armas e permita que ouçamos, enfim, o simples e belo milagre de respirarmos em comum.
Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do Douro; Douro Inteiro; Douro Lindo; A Ninfa do Douro; Palavras – Conversas com um Rio; Fado Falado – Crónicas do Facebook; Amanhecer; Barcos de Papel; Casa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.






