Chegamos ao eixo do ano, ao ponto de equilíbrio perfeito entre a luz e a sombra. É o equinócio; um tempo de transição subtil e profunda, em que o mundo executa uma revolução silenciosa.

As temperaturas descem num suspiro, trazendo o frio que purifica. As folhas, outrora verdejantes, vestem-se agora nos fogos dourados, amarelos e rubros da despedida. Uma a uma, soltam-se dos ramos num ballet silencioso que pinta a terra de melancolia. Nas vinhas do Douro, opera-se a maravilha; as cores que matizam o encanto do cenário provocam um deslumbramento inenarrável.

Os dias encolhem, e a luz, suave e quente, devolve-nos mais cedo à intimidade crepuscular, à contemplação do que finda numa agonia bela e quase dramática.

De repente cerca-nos o sossego, numa intermitência de nuvens, sobressaltasse-nos o espírito, a luz enfraquece, abranda a claridade sobre os morros e regressa o silêncio com a noite. Então deixa-nos um grito de deslumbre e prazer quase extinguir-se, como se a nossa voz se quebrasse no escuro.

Outubro precipita-nos nesta introspeção serena que a natureza fatigada proporciona. E, tal como a Terra, também nós, seres vivos, sentimos este recolhimento. Há uma quietude que se instala não apenas nos montes e nos campos, mas também dentro de nós. É um cansaço do mundo, um desejo de meditação, um chamamento para voltar para dentro de nós próprios, tal como a seiva das árvores recua para as raízes.

É a época do musgo que avança lentamente sobre a pedra, do silêncio que fala mais alto que o estio, do cheiro a terra húmida e a maçãs maduras. É o momento de aceitar o desprendimento, de deixar cair o que já não nos serve, tal como a árvore liberta as folhas. Não é um morrer, mas um poupar de forças; um guardar a luz remanescente para o inverno que se avizinha, confiando no regresso inexorável do sol.

Neste equinócio, somos convidados a encontrar o nosso próprio centro, o ponto de equilíbrio entre o que fomos no verão e o que seremos no inverno. É uma pausa sagrada no ciclo eterno, um instante de quietude perfeita entre a acção e o repouso. É a serenidade. A calma. O sossego, um roçar de lábios entre o céu e a terra.

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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