O velho Leopoldo, sentado num mocho numa taberna da Rua Sra. da Luz, na Foz do Douro, acendia cigarro atrás de cigarro. De vez em quando, levava à boca a caneca de vinho tinto, bebendo em pequenos tragos o precioso líquido. Era um contador de histórias, uma espécie de arauto da sapiência, um guardador de memórias, dos muitos que Portugal tem espalhados pelo país.

Mas deixemo-nos levar pela maré da imaginação deste homem do mar, onde o real se dissolve em água, sal e lágrimas, quando encarna a personagem que o tornou famoso:

“Era uma vez um rapaz chamado Mateus, neto de pescadores do Ourigo, praia que fica ali em baixo, perto da boca da barra do Douro.”

Estava lançado o mote. O corpo franzino do homem adquiriu várias posições, preparando-se para a evolução da narrativa:

“Era um moço com o sal entranhado na pele e os olhos da cor do rio em dia de temporal; verdes com faíscas de espuma, como pedaços de rocha onde naufragam barcos. E Clara, filha de um comerciante inglês do vinho do Porto, com cabelos louros como fios de sol e um olhar que desafiava as convenções da alta sociedade britânica. Encontraram-se pela primeira vez num crepúsculo de verão, quando a rapariga, fugindo a uma recepção aborrecida na vivenda dos pais, desceu até à praia. Mateus consertava redes, cantarolando uma modinha antiga.

O rio, naquela hora, tal como agora, era um espelho de ouro e púrpura, tranquilo como um provocador de paz,  dessa sensação maravilhosa que falta no mundo. Os seus olhares cruzaram-se sobre as águas quietas da maré cheia. Sem trocarem uma só palavra, porque o amor verdadeiro nasce dos silêncios das almas, caminharam juntos pela areia húmida da praia da Luz até ao Ourigo, onde aquelas rochas guardam segredos misteriosos e inimagináveis.

Encontraram-se ali muitos dias, sempre à hora em que o sol se declinava lá longe e se entregava nos braços do mar,  ao mesmo tempo que os beijos brotavam, aqui e ali, nas areias da praia. O amor deles floresceu como a murta nas falésias, forte, perfumado, lindo e selvagem. Falavam do rio, do oceano, das estrelas que guiavam os barcos no mar alto. Clara aprendia palavras em português com aquela pronúncia do Porto que apenas esta terra tem e não é exportável; Mateus ouvia histórias de um país distante contadas por ela.

Uma pausa para levar a caneca aos lábios:

“Mas o mundo deles era feito de margens opostas. O pai de Clara descobriu o romance e viu apenas diferenças, não a profundidade do sentimento. Proibiu-a de sair, preparando a sua partida para Inglaterra. Desesperados, combinaram um último encontro na ponta rochosa do Ourigo, onde o mar mostra a sua fúria e a sua meiguice. Queriam fugir, seguindo o curso do Douro até ao oceano.

A noite chegou, fria e enevoada. A maré vazava rapidamente, revelando rochas traiçoeiras e poças escuras. Clara chegou primeiro, o coração a bater forte como as vagas batem contra os molhes.

Esperou. Esperou. Mateus não vinha. Um acidente? Descoberto? O nevoeiro devorava a luz mortiça do farol de São Miguel. Na escuridão líquida, cega de desespero, a menina atirou-se ao seu encontro pelas rochas que a maré vadia desnudara. O chão escorregadio, coberto de algas. Um passo em falso e a queda. A cabeça atingiu uma rocha afiada, desfaleceu. A maré, que tudo revela e tudo leva, começava sua subida implacável.

Pareceu-me ver lágrimas nos olhos desmaiados do velho narrador. Talvez esse estado doloroso tivesse relação com o sofrimento de um escritor ao descrever a dor alheia, tomando-a como a sua própria mágoa,  associando-a à genialidade e à autenticidade de uma visão literária única. Enxugou as vistas com as costas das mãos e continuou:

“Mateus chegou, coxo de dor, ferido por ter enfrentado quem o impedira de chegar à hora marcada. Encontrou apenas o xaile de Clara, preso numa rocha, e as águas do rio, já misturadas com as salobras do mar, a abordá-lo suavemente, como um adeus ferido de morte. Gritou:  Clara! até a voz se lhe rasgar na garganta, até o nevoeiro engolir o eco e o rugido do encontro traiçoeiro das águas calar o seu pranto.”

Leopoldo já não era um pescador; no decorrer da trágica narrativa, transformara-se num Dionísio da era moderna, num actor na mais dramática das representações, um ser frágil comovido até às lágrimas.

“Mateus nunca mais foi visto por aqui. Dizem que partiu num barco, que foi para lá do horizonte; outros dizem que se lançou nas ondas à procura da sua amada e se afogou.

Agora, quando a maré vaza neste ponto do Ourigo, alguns juram ouvir um canto de amor e dor, ecoar entre as rochas cobertas de espuma. Muitos vêem, no nevoeiro matinal, uma figura feminina etérea, de cabelos dourados, a vaguear pelas rochas, procurando algo que a maré levou. E nas noites de lua cheia, quando o rio Douro e o Atlântico, num gesto de ternura se abraçam, as águas na Foz contam a história de um amor que o rio testemunhou, mas que o mar, na sua imensidão, acabou por levar para sempre.

As praias da Foz são assim, meu amigo, um palco onde a história dos Ingleses da Luz se senta ao sol, e a geografia bravia do Ourigo desafia os homens mais valentes. Cada grão de areia é um alfabeto de segredos; cada onda, um suspiro de amores afogados. O rio Douro, na sua foz, não é apenas água, é sangue-azul da terra, memória líquida carregando para o ventre do oceano todas as narrativas, reais ou imaginárias, que as suas margens beijaram e choraram.

Quem mais acredita nessas histórias que as águas guardam, a não ser eu, o rio e o mar?”

Calou-se, ergueu o copo num brinde ao rio invisível, sorveu o vinho como quem bebe lágrimas salgadas, e saiu. Nem tempo me deu para lhe gritar:

– Eu também as ouço, Leopoldo! As vozes na espuma!

Manuel Araújo da Cunha (Rio Mau, 1947) é autor de romances, crónicas, contos e poesia. Publicou: Contos do DouroDouro Inteiro;  Douro LindoA Ninfa do DouroPalavras –  Conversas com um Rio; Fado Falado –  Crónicas do Facebook;  Amanhecer; Barcos de PapelCasa de Bonecas e Crónicas de outro Mundo.

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